Terça, 21 Setembro 2021 15:23

UM MILHÃO DE PEQUENOS PEDAÇOS

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Ele havia chegado ao fim do dia, sentado no balcão enquanto as mesas ainda permaneciam vazias. Pediu uma garrafa mediana... Um vinho rude proveniente de uvas cultivadas na região. Era o que tinha... Ele se serve enquanto o barmen segue seu destino, limpando as marcas de copos do dia anterior.

Ele retira de sua mochila um bloco de notas e começa a escrever qualquer coisa... Não há como saber o que escreve. O importante, ao observador, é apenas se atentar a esse fato.

Eis que uma mulher desce a escada que dava acesso ao piso superior. Ela caminha e cumprimenta o barmen chamando-o pelo nome e pergunta sobre alguns outros funcionários que já deveriam estar lá e aponta para um velho relógio na parede. O homem nada responde... Apenas se volta para seus afazeres.

A mulher então – aparentava ter uns cinquenta anos– olha para o homem sentado no balcão e sutilmente o analisa: uma mochila grande; homem de estatura média; concentrado em escrever qualquer coisa que não a dizia respeito. Ela senta ao seu lado e pergunta – sotaque carregado (da perspectiva dele) - sobre o vinho que está tomando. Ele apenas responde que já havia tomado melhores, mas era o que o dinheiro dava para pagar.

- Não é daqui, não é mesmo?

- Vim do ocidente... Há algumas centenas de milhas daqui.

- Está perdido...? Digo... Essa cidade não é turística ou coisa do gênero... – ela percebe que ele está concentrado no que faz. - Enfim... Desculpe o incômodo e fique à vontade.

Ela segue ajeitando algumas cadeiras e alinhado às mesas enquanto ele, imediatamente, se vira de lado, desviando a atenção do bloco de notas e a oferece um caneco de vinho.

- Não costumo sentar com clientes, mas ainda está cedo e só estamos nós aqui... Como parece que não aguarda companhia... Tomarei um trago contigo.

O homem atrás do balcão coloca outra caneca de barro sobre a madeira crua e a serve de uma generosa dose.

- Você é algum tipo de escritor...? – Acenando com a cabeça para o bloco de papel.

- Não publicado... Mas pela quantidade e frequência que produzo histórias, posso me considerar um.

- Sobre o que escreve?

- Sobre momentos, sobre a vida vista pela ótica específica de um homem incomum e vagante... Nada em especial.

- Alguma boa história para contar? Alguma que se lembre, ou que possa descrever sua vinda até essa cidade?

- Sim... Tenho uma. Não é tão longa... Talvez o suficiente para esgotar essa garrafa.

- Pois bem...

- Hum... – Ele olha para o bloco de papel e para a caneta repousante ao seu lado.

- Comece como se começa uma história...

- “Era uma vez”?

- Sim... Adoro histórias e essa é uma das minhas formas favoritas de começar.

- Pois que assim seja... “Era uma vez...”

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***

Uma pedra há milhões de anos sem se preocupar com nada - pois não havia motivos para que, em sua continuidade existencial, carecesse se imbuir da senciência - em algum momento, decide transformar sua existência e pensa em uma forma de fazê-lo. Até o momento que se depara com um organismo mais sensível que se esforçava para romper o solo, mas, mediante a sua fragilidade, não conseguia realizar tal feito.

A pedra então decide ajudar esse pequenino e frágil organismo, lançando-se à ideia que, se fragmentasse a si mesma em milhões de pequenas partes, poderia servir de base para aquele pequeno ser e, em contrapartida, adquiriria uma nova constituição de si mesma a partir do momento em que se forjasse do corpo daquele organismo.

A planta finalmente irrompe o solo pedregoso, pois agora era constituída da pedra e minerais e, por fim, pode eclodir.

A pedra agora, forjada de planta, agregava em si um fragmento de percepção diferente de outrora, pois se encontrava mais suscetível ao ambiente e às sua transformações e estações. Passou a notar a ira dos ventos e das tempestades; o acalento do Sol primaveril e das brisas que carregavam suas sementes e geravam cada vez mais e mais de si mesma.

Mais do que isso, organismos mais livres e complexos, passaram a ser seduzidos pela nova forma vegetal que assumia e então a pedra se viu envolvida pelo animal e conheceu uma pequena dose de liberdade... Passou também a sentir uma realidade diferente da qual estava acostumada: passou a sentir a intensidade sensorial, proveniente das nuances das estações e junto, conheceu a dor e a desolação.

Destemida, a pedra ainda queria ir além e então encontrou uma diferente forma a qual, parecia, possuía algo que a ajudaria a aliviar toda a sua angústia e agonia... Foi o momento em que o primeiro animal humano se alimentou de outro mais rudimentar e junto, essa pedra se veste de homem e, finalmente e, inexoravelmente, consegue gritar... Não um grito comum, mas um urro de desespero, liberdade e agonia... Não sabia bem o que realmente significava.

***

- ... E... fim.

- Bela história... É isso o que está escrevendo em seu bloco?

- Quase isso. Quer saber?

Ela apenas acena positivamente com a cabeça e, naquele momento, até o barmen, há alguns metros de distância, prostra-se a ouvir.

- “Tal qual a planta se nutre dos minerais; tais quais os animais se constroem através das plantas; tal qual o homem se desenvolve através dos animais... Carrego em mim tudo: desde a inteligência da pedra até o instinto do animal. Mais que isso: carrego em mim as tempestades e os furações; o acalento da brisa suave e o calor do Sol nascente; do silêncio da meia noite  à cacofonia do meio dia. Sou a consciência ativa de tudo o que posso conceber tal qual o que ainda não posso. Estou na linha limítrofe entre o conhecido e o desconhecido, portanto, quanto mais conheço, menos sou capaz de mensurar sobre o quanto há para se conhecer”.

- O que quer dizer com isso exatamente?

- Quero dizer que, nesse momento sou uma rocha e o que expresso através dessa pequena conversa é o que represento objetivamente, análogo a uma brisa suave num fim de tarde outonal com o que ainda resta de luz e calor em mim... Logo, a escuridão da noite passará a exercer sua força e não as refutarei... Acolherei e as internalizarei, mas não estarei mais aqui, pois aqui e para vocês: ainda sou a brisa suave do fim de tarde.

Ele ergue a caneca e toma seu último golpe de vinho. Coloca sobre o balcão uma nota e lança uma moeda para o barmen. Ele então segue seu caminho, deixando apenas o rastro presentificado da sua ausência, silêncio e solitude.

 

https://www.youtube.com/watch?v=a-Kn2FfdfdE

Lido 95 vezes Última modificação em Terça, 21 Setembro 2021 15:28

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