Sergius Dizioli

Sergius Dizioli

Quinta, 30 Dezembro 2021 13:25

Estio

Tocou uma canção triste e esquecida na velha vitrola
O vento resolve trazer lembranças cobertas de musgo
Na casa vazia, porta e janela fechadas, da tua partida
 
Num remoto carnaval da alma, vesti fantasia de poeta
Esparramei confetes de palavras e versos serpentinos
Teria sido somente o desatino de meu pássaro cativo?
 
Sei que isso me trouxe sol e calor quando era inverno
Trouxe flores que desabrocharam no meu peito vazio
Pôs fim o sofrer insano sem ter quem chamar querida
 
Dos desenganos em desenganos, já não vivo de ilusões
Mas sei quem me acolheu, quem calou o meu lamento
Que surgiu e me devolveu o vigor para tecer os versos
 
Sopra o vento peregrino e o vozerio dos mortos se vai
Muito antes que eu canse de te olhar a noite chegará
Eu mirar-te-ei de novo e de novo para nunca te perder
 
Esperei pacientemente por tua chegada ao meu porto
E agora ai está viva, táctil, qual a luz a romper a noite
O rumor da ventania já vai se silenciando na distância
 
Chega o estio por estas paisagens ainda adormecidas
A alameda em flor, cálida, se estende até o horizonte
No fim da estrada a serra recorta a paisagem do azul

 

Segunda, 27 Dezembro 2021 23:07

Inquietude

Não escutarás de mim as sílabas sombrias e inquietas
Porque me disfarço de eternidade nestas horas rasas
Para, sorrateiro, beijar tuas asas como a ardente seta
Com que Eros tocou-me de ti na insônia das estradas
E assim fiz um céu construído a fogo, almíscar e mel
Cheio de estrelas bêbadas do teu canto, meu sorriso
 
Não verás minha vida e morte embebida de cotidiano
Nem terás esta saudade embriagada num sonho irreal
Farei que tudo mude, mas que conserve a tonalidade
Do homem que sempre quis sonhar, sem fugir do real
Sem o sonho governar o ser, na intensidade da razão
Olhar, pensar, depois de tudo, quedar-me subjugado
 
Não sentirás meu rosto úmido das lágrimas chovidas
Que, todavia, não esquivarão do espelho inclemente
O amor não é o sobrenatural nem algo de miraculoso
É o sentimento que deve fluir sem esforço, igual flor
Que não precisa de esforço para exalar seu perfume
E um dia perfazer a promessa de ser fruto e semente
Quarta, 22 Dezembro 2021 10:25

Amores Virtuais

Hoje há muitas pessoas que vivem um mundo virtual
Com isso dizem estar sempre perto de quem se quer
Mas o gosto de sua saudade tem um gosto de perda
Uma imagem que se esquiva, nos labirintos do sentir
No mundo dos amores inventados e desilusões reais
Nada é tangível, nada tem hálito, nada é perfumado
Um mundo sem olhares, sem abraços ou sem mágica
Onde tempo e espaço se confundem em uma só dor
 
Sou um amante natural e sujeito a tantas tentações
Sou corpo vivo caminhando por sonhos e abandonos
Num doce sofrimento táctil de querer e ser querido
E as ausências que sinto têm forma, não são mentira
O aqui e o agora não são falsos, assim como o poema
Posso pensá-lo, reescrevê-lo, sentir seu cheiro e som
As emoções no mundo real, não são arremedos vãos
Nem são geometrias ou álgebras artificiais de silício
 
Tudo no mundo virtual se faz estático ou inanimado
Posso ouvir sua voz, não posso sentir-lhe a vibração
Mesmo que eu guarde na memória tua doce imagem
Nem posso imaginar o calor num arremedo de verão
Versos e palavras vivem nas verdades mais tangíveis
Ainda sou do ver para crer. Tocar. Tocar para crer
Dos frutos da terra, do calor que ela traz ao corpo.
 
O amor pede tato, gosto, não uma tela fria e alheia
Pede entrega, tem fome, quer tudo em seu domínio
Segunda, 20 Dezembro 2021 11:10

Sublime

O que seria de mim sem o sublime existir dessa moça
Que tomou o lugar de onde viviam angústia e solidão
Como não admirar a plenitude da juventude madura
Que concilia serenidade e graça, que nela florescem
Como não imaginar que é seu riso que move estrelas
E que a lua só brilha no céu, por inveja de seu brilho
Minha musa me fez cantar e me sentir livre se canto
Como descrever o inefável que me acorda a cada dia
Talvez seria imaginar que a rosa vivesse eternamente
Antes dela, por vezes, tudo foi só o papel em branco
Sua vinda fez um murmúrio tornar-se a voz dos anjos
Ontem quando o poema era só um desejo da infância
Hoje faz estas linhas indomáveis, o longe é justo aqui
E quando a conheci, foi então compreendi a verdade
A vida necessita bem mais que comer, beber e dormir
Impõe sofrer para ser homem, amar para ser um deus
Não obstante, ela me fez mais, me fez renascer poeta

 

Quinta, 16 Dezembro 2021 22:03

O Poema

Meu poema não nasce do sono, nem de indigentes palavras
Meu poema nasce sem nome, dispensa projetos herméticos
Nasce da solidão que me habita e de clandestinas alegorias
Vem de meus transes, qual trouxesse um presságio invulgar
 
Meu poema se forja no aço da vida, a superar meus medos
Meu poema se alumbra com a luz que ilumina meus gestos
Nasce por todo canto entre as tábuas pisadas da memória
Vem de pequenas sementes, germina onde a beleza estiver
 
Meu poema resiste ao silêncio que, transido, o estrangula
Meu poema não tolera a indiferença, o morno, o ambíguo
É a prece que se murmura na cruz do oblívio das paixões
Vem bailando nas nuvens, nos cânticos das quartas-feiras
 
Meu poema se faz com a marca de quem procede do fogo
Meu poema transita pelo bulício dessas tardes de primavera
Para iluminar a bruma das almas e para regá-las com vinho
Gerado no mar, mas aprendeu voar no espaço sem limites
 
O poema é um cântico feito com os vocábulos mais azuis.
Quinta, 16 Dezembro 2021 00:53

A Anatomia do Sonho

O sonho propõe as obscuras estórias da consciência
Que vai navegando nas ocultas dimensões sonhadas
Renovado pelo oblívio que traz a luz de cada manhã

O sonho vem das encantadas linhas das constelações
Abre espaços no cerne fugidio do que se acha ser real
Nutre-se da própria negação na cor da flama primeva

Nele o outono chega  inaugurando tempos de bronze
Transmutando por brandura os espectros da agonia
Para seguir embriagado a linha prata do arco da lua

Um pássaro a cantar comemora a colheita da cevada
Um homem celebra no vinho astúcias e esplendores
O poeta remove da alma os soluços não consolados

Enfim o verão se foi, mas não seu rubor, seu ar febril
Deixou ainda nas nuvens da tarde vergéis de trovão
Como um tropel a anunciar que a noite se aproxima

Pensamentos marcham nos pátios desertos da mente
Por arcadas solitárias busca o amor ávido encontrar
Seu lugar e frutos, acolá dos muros, livre de grilhões

Quase a terminar o sonho, eis que afinal surges, nua
Nada a ocultar o corpo esguio, doce flor de tentação
Vejo diante de meus olhos um quê infindo de desejo

No meu sonho, te empresto das flores seus perfumes
Do vento imitamos seus movimentos em nosso galope
Ao fim do amor nos legamos sentir o reverso do tempo

Percebo teu calor ao meu lado nesse sentimento vivo
de meus pássaros selvagens terem habitado teu corpo
Insensível a tudo, o dia reclama, é a hora de despertar

O regato murmura, nas estradas margeadas de árvores
Tem um rumor de infância, eis afinal o que deixamos:
A inocência rasa, na descoberta do amor enfim revelado

Quinta, 16 Dezembro 2021 00:15

Desconstruído

Lá nas trevas chove sem trégua, tua face exausta me fita
Vejo tua imagem refletida na janela, tua silhueta elegante
Teu movimento cadenciado quando teu corpo me escala
Sabe o teu dom? Eu me nutro dos teus lábios abundantes
Escondida na tua própria criação te desprendes nua e ris
Teu voo faz uma lenta curva no ar, treme e me trespassas
Por esse tremor, empresto minhas mãos para te descobrir  
Para celebrar, nesse enigma irrevelado que são teus olhos
Tateio as mãos a buscar essa figura de súcubo à meia luz
Busco traços de tua fala, na boca que busca minha boca
Que vibra ao toque a me revelar que encontrei teu rumo
Se o riso é a porta da alma, os dentes são a cerca de casa
Grades que invado, finges que me renega, mas me desejas
Sou para ti, não temas o cantar desse canto vil e precário
Um poema que, nas tuas páginas abertas, afaste a solidão
Que traços me trazes, com que letras criastes este sonho
Que me desconstruiu os sentidos e me despiu de palavras
Chegaste de repente, tomaste minha alma, pois que fiques
Mas não vou te prender, vou deixar este desejo fluir até o fim
Segunda, 13 Dezembro 2021 11:51

Tarde demais para mudar

Podia-se dizer que todos os seus dias eram iguais: levantava à mesma hora ao som de um despertador tão eficiente quanto incômodo que ficava sobre o criado mudo. Parecia uma serpente - não em forma, mas em atitude - que estava pronta para o bote quando a melhor hora de sono se aproximava. Picado pela campainha estridente, abria os olhos e sentava na cama.
Permanecia sentado longos instantes antes de se levantar, pois lera em algum lugar que a maioria dos acidentes no quarto se dava justamente ao acordar. Diziam que a ocorrência de vertigens era bastante usual para aqueles que se levantavam rapidamente e dai para o acidente não haveria distância.
Depois desses minutos, vestia os chinelos e punha-se em pé olhando à sua volta e reconhecendo os traços de sua já conhecida mobília. Traçava mentalmente seu caminho até o banheiro, embora a mais crua verdade poderia afirmar que isso não seria necessário por todas as repetições cotidianas que ele fazia.
Mas ele acreditava que tudo deveria seguir um método, uma repetição de fases inalterada pelos anos a fio.
O sanitário, a pia, a escova de dentes e o pente a repor alguma ordem nos cabelos em desalinho, que estavam mais compridos que o normal.
Daí à cozinha para fazer o café da manhã. Café forte sem açúcar, bolachas, manteiga com sal. Eventualmente um pão passado na chapa com uma rica camada untada ou uma modesta fatia de algum tipo de bolo.
E assim a vida se desenrolava monotonamente repetida, na presumida segurança de seus métodos assinalados pelas regras que ele criou ao longo dos dias de sua vida.
Mas não hoje.
O despertador - aquele com duas campainhas e um martelete entre elas - mal iniciou seu tilintar e foi projetado na maior distância diagonal que o tamanho do quarto permitiu.
Ele ergueu os braços contra a cabeceira da cama para esticar-se que rangeu um rangido de surpresa com aquela inusitada posição. O móvel mal teria tempo de se recompor e num salto único, elegante como uma gazela, mas másculo como um touro, ele quedou-se em pé, ignorando os chinelos que receberam mesmo um olhar de desprezo antes do primeiro passo descalço.
Apontou o nariz ao horizonte e, sem cogitar a diagramação das coisas à sua volta, partiu em direção ao banheiro. Lá apenas borrifou poucas gotas de água com as mãos no rosto que mal sentiu o frio líquido; esfregou displicente, sem se observar, as pontas dos dedos no couro cabeludo, como se isso fosse o bastante para acreditar que fazia um penteado jovial.
Pensou num copo d'água como sendo o bastante para aquela manhã. Não às gorduras, aos farináceos e os megatons de cafeína absorvida (ou não) logo nos primeiros minutos de cada dia.
Sentiu-se feliz com a decisão e ao passar pela cômoda com o espelho antigo que pertencera à sua avó, não viu sua usual imagem refletir-se alí.
Antes de chegar na sala, ouviu vozes familiares, mas tão lamentosas que o fizeram recuar e assim pode ver o papel sobre a cômoda do espelho. Seu ímpeto já ia arrefecendo e murchou quando leu seu nome escrito à máquina no papel com um brasão  cabeçalho e, logo abaixo, nem conseguiu terminar de soletrar C - e - r - t - i - d - ã - o -- d - e -- Ó - b - i ...

Desde os primórdios da poesia paira uma aura surreal sobre a poesia e os poetas.

 

              Antes do advento da Filosofia, os cidadãos da Polis grega eram guiados em direção ao bem comum e à virtude individual, pelos poetas. A eles eram atribuídas as orientações educativas básicas, que diziam respeito à formação integral do homem (paidéia) e a introduzir os cidadãos nos fundamentos éticos e religiosos.

              O modo pensar o Cosmos era transmitido pelos poetas através do discurso mítico, o qual era divulgado por meio da tradição oral. Era pela palavra falada que os poetas propagavam o conhecimento dos mitos (narrativas) de geração em geração.

            Resulta daí a importância decisiva destes narradores, os quais detinham o poder de modificar a história, acaso sentissem vontade de adaptá-la aos ouvintes do momento. Os mitos foram, primitivamente, veiculados sob a forma de poemas, pois assim, eram mais facilmente memorizados.

            Nada mais surreal que a Fonte de Hipocrene, uma nascente de água doce que se situa no Monte Hélicon (38° 21' 10" N 22° 49' 21" E) na Grécia, que se acreditava que tivesse surgido quando o cavalo alado Pegasus deu uma patada numa rocha e começou a fluir água. Quando o poeta necessitava de inspiração deveria beber dessa fonte

            Mas, hoje nosso tema é o Surrealismo, aquele que foi um movimento artístico, um dos últimos das vanguardas artísticas do século XX, com participação em diversos campos da arte e filosofia. Iniciou-se em 1924, com a publicação do Manifesto Surrealista, escrito por André Breton, que propunha uma nova proposta estética que rompesse com a primazia da compreensão racional, sem diferenciação entre sonho e realidade ou entre lucidez e delírio, por exemplo.

            A arte surrealista rompe com a busca pelo sentido nas representações. É o surreal: aquilo que está para além do real, que é mais que o real porque transcende a compreensão racional e relaciona-se com a mente inconsciente, com o imaginário e o absurdo.

            Breton começou a observar que quando estava em plena solidão ou quando estava meio dormindo frases lhe vinha à mente e ele não sabia como ou exatamente de onde. A partir de então o autor passou a anotar as frases e ficar impressionado que nós, na verdade, não temos controle de nossos pensamentos.

            Eu, que na minha poesia compartilho o estilo surrealista, posso afirmar que essa também é a minha forma de criar: coleciono frases soltas, algumas inteiras outras somente partes, ou ainda apenas locuções. Tudo conforme vai vindo na cabeça vai para o papel. Quando acho que tenho ideia completa, passo a montar as frases. Não há preocupação com a rima ou a métrica tradicional.

            Para Breton, SURREALISMO é o automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.

            A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) destruiu exércitos, nações e também o mundo da arte. As mortes em massa e a enorme destruição causada por essa grande e duradoura guerra deixaram um rastro de devastação que afetou profundamente o pensamento europeu e influenciou diretamente as artes

            O Surrealismo surge enquanto movimento de vanguarda em 1924, período de recuperação do pós-guerra, e traz consigo a ruptura com o que é, afinal, a realidade, já que o chamado mundo real e a ordenação lógica permitiram tamanha desventura generalizada.

            Se fossemos listar as principais características do surrealismo a lista poderia ser mais ou menos assim: pensamento livre; expressividade espontânea; influência das teorias da psicanálise; criação de uma "realidade paralela"; criação de cenas irreais; valorização do inconsciente.

            O surrealismo propõe a valorização da fantasia, da loucura e a utilização da reação automática. Nessa perspectiva, o artista deve deixar-se levar pelo impulso, registrando tudo o que lhe vier à mente, sem se preocupar com a lógica.

            A poesia brasileira dos anos 60 contou com um forte grupo de aliados ao Surrealismo.

            Nesse fértil período da produção surrealista no Brasil, um grupo de poetas: Cláudio Willer, Rodrigo de Haro, Roberto Bicelli, Sérgio Lima, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Piva – amigos que costumavam se reunir para ler e debater poesia – provocou uma releitura do Modernismo e a reafirmação do Surrealismo nas rodas literárias brasileiras.

            Esse pequeno grupo de poetas surrealistas brasileiros reuniam-se em torno das ideias de Breton e sua busca pela afinação entre arte e política; a exploração da força criativa do subconsciente, eliminando censuras; a livre associação de pensamentos e a exploração dos sonhos.

            Sua formação deve-se à visita do grande poeta brasileiro Murilo Mendes a Paris, em 1953, a convite feito pelo próprio Breton enquanto estava na França.

            André Breton era uma figura polêmica, controvertida e atribui-se a ele uma série de frases de grande efeito. Conta-se que costumava dizer aos amigos: “Quando eu morrer, levem-me para o cemitério num caminhão de mudanças”.

            Um fato curioso marca os encontros desse grupo de poetas brasileiros que falamos, em uma de suas passagens pelo Rio de Janeiro:

            Roberto Piva (1937-2010) costumava narrar, que numa tarde de 1966, por volta das 4 ou 5 horas da tarde, o grupo caminhava pela avenida Rio Branco, “naquela ponte que vai para a Casa Verde”, quando passou um caminhão de mudanças tendo um guarda roupas amarrado na carroceria. Uma das portas do armário se abrira e dela saía um enorme lençol branco, esvoaçante, que tomava quase toda a carroceria do caminhão. Ao ver a cena, Roberto Bicelli gritou: “Olha lá a alma do André Breton!”

             No dia seguinte a este acontecimento, o poeta Roberto Piva leu no Jornal O Estado de São Paulo a nota de falecimento: “Faleceu ontem, às 16 horas e 30 minutos, horário de Brasília, o poeta francês André Breton”.

               Quer algo mais surreal? Até a semana que vem amigos.

Sábado, 11 Dezembro 2021 20:47

Faces de Carvão

Chega a noite com suas faces ocultas de carvão a segregar o negrume
Espalha-se no ar, entre signos de um sonho azul, uma música antiga
Que ecoa pelo concreto da selva urbana, onde agora é tudo distante
No silêncio do meu quarto, é tanta solidão que sua sombra faz ruído
Ouve-se o mover de passos ausentes e sente-se o calor da ausência
Por todas as indagações que quedaram nesses caminhos mal traçados
No espelho baço das indesejadas memórias de um adeus que não dei
A ventania dos tempos a bater seus cascos por desertos anunciados
Os trens do isolamento carregam a dor da tristeza que viaja em nós
O grito súbito da noite alerta para a faina diária, na lâmina viva do dia
A geometria silenciosa das madrugadas traça a parábola da escuridão
Pelas dobras da palavra, o poema frágil e transitório, afinal recompõe
As linhas que o destino captou a nos aprisionar em verdades relativas
Eu, pássaro e minhas asas em chamas a sobrevoar o pó das estradas
Recolho as tempestades em cor e som na perpétua roda dos tempos
Apesar da cegueira dos que nos julgam, um novo dia há de renascer
Com a luz do dia tudo irá reflorir no sonho límpido da nova primavera

Página 1 de 11