Sexta, 24 Setembro 2021 19:35

Coluna da Maria Luiza 21/2021 - Maritacas e o Sertão de São Paulo

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Maritacas no sertão de São Paulo

 

Atendendo chamados da vida, mudei para o que chamo "sertão" de São Paulo. Seco, árido, quente. Muito quente. A região transborda canaviais e queimadas. Por muito que se estenda o olhar nas cercanias, até onde a vista alcança, é raro encontrar sombra acolhedora. Falta a generosidade das árvores e da floresta.

No microcosmos da morada cultivam-se algumas plantas ornamentais, tratando de iludir a aridez. No jardim, é preciso regá-las no mínimo dia sim, dia não. Há palmeiras e outros arbustos apropriados ao clima. Contêm sua beleza. Na região urbana existem árvores, inclusive floridas. Mas a cidade carece de parques e praças onde o verde pudesse proporcionar maior bem-estar.

Reforço a gratidão pela benção da água, especialmente em tempos de crise hídrica, lembrando que somos todos responsáveis.

Sinto muita saudade do mar e da serra bordada de manacás. Lembro, em seguida, que o Tietê, nesta região ainda navegável e “limpo” do descuido desmesurado do homem, é quase mar, nas redondezas (embora seu nível tenha baixado). Preciso visitá-lo para selar um pacto de amor com a água doce.

Mas é sertão?  Paradoxal mesmo.

Ah, e as maritacas?  Estas aves de penugem verde como plantas (não será por acaso), barulhentas, voando em pequenos bandos, rápidas e tresloucadas me despertam, recordando que a vida urge ser acordada.

Os sentidos em aparência de vazio momentâneo são ocupados de imediato por outro olhar.

Há vida em qualquer lugar. Há poesia em cada paisagem.

Como diria Drummond “Tinha uma pedra no meio do caminho”, e assim, na imagética, retirou a “pedracidade” da pedra.

Vejo maritacas ao amanhecer e estrelas ao anoitecer, enquanto me adapto à aridez da terra.

Contemplo o que me cerca dentro e fora... vivencio este momento com plenitude, amenizado pelo conforto material, mas me transporto para as lonjuras do sertão nordestino, onde tantos sentem na pele a secura da terra, da desesperança, a sede de água, de pão e de justiça.

Então, me sinto desertificada em poetar!

 

Por Maria Luiza Kuhn

2021 setembro

 

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1 comentário

  • Link do comentário Zeide Furtado Domingo, 26 Setembro 2021 07:26 públicado por Zeide Furtado

    Texto para refletir e agir pela natureza. Obrigada, amiga!!

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