Sábado, 28 Agosto 2021 09:57

Coluna da Maria Luiza 18 - Securas e Valsa

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Securas e valsas

 

Quem entardece no tempo, sabe que o sol nem sempre se põe contente. Dias tem que parece chorar lágrimas de sangue, ardentes e de secura ímpar. São dias em que a fumaça e a fuligem da doença humana embaçam seu brilho. É assim que assisto hoje um final de dia, desde a minha janela.

Só quem entardece no tempo, pode avaliar uma boa e distante lembrança, quando ouve a Valsa das Flores, por exemplo. A valsa que dançou com o pai na celebração dos seus quinze anos. No meu caso, na sala da casa da minha avó, o que na época a mim parecia um salão encantado. Nem sei de onde apareceu o som eternizado por Tchaikovsky, naquele lugar distante da Europa e dos centros culturais do país.

Quem enrubesceu aos primeiros olhares apaixonados e se deslumbrou com estreias de beijos também pode ter lindas lembranças colecionadas.

Quem entardece no tempo tem histórias e cicatrizes. Tem queloides e tem rugas. Quem entardece no tempo pode ter olhares complacentes para paisagens tristes. Tem sorrisos doces para poesia e arte. Tem resiliência porque sabe que o sol se põe e a noite afaga a dor das lágrimas em dias não felizes.

Sabe que o dia renasce e com ele outra oportunidade. Sabe que o cotidiano pode ser redescoberto e ressignificado.

Quem entardece no tempo, chora em cumplicidade com o sol quando sente sua impotência diante da ganância desmesurada do homem, incapaz de perceber a possível finitude do planeta e segue sugando, sugando, como se o seio da terra fosse inesgotável no aleitamento vital!

Quem entardece ... Ah, entardece e permanece com muitas perguntas diante do Universo e seus desafios seculares.

 

Por Maria Luiza Kuhn

26 de agosto de 2021

 

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