Terça, 17 Agosto 2021 21:33

Coluna da Maria Luiza 17/21 - O menino e a Utopia

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O menino e a utopia:  da poesia para a prosa!

 

 

Um amigo poeta carregou seu violão para o plantão noturno que faz na emergência médica do serviço público (SUS). Ele é enfermeiro. Refere o quanto tem sido difícil enfrentar o trabalho em tempos de pandemia.

É de se imaginar. O poeta dedilha seu violão nas madrugadas quando o plantão silencia.

Relata, entretanto, que difícil esconder lágrimas furtivas que teimam em aparecer quando se depara com gritantes diferenças sociais.

Os pequeninos aparecem amiúde doentes e desnutridos.

 

A poetiza amiga ofertou-lhe versos.

Ei-los!

 


Carrega na mente
A obrigação do ofício
Mais uma noite: Plantão
No peito dá colo ao eterno menino e sua utopia
Sons e versos que brincam no coração.

Passeando...

Enquanto isso rompe na madrugada a urgência de um

outro menino: Um ferido
Febril e faminto, de muitas fomes
(Hoje, comeu o que mamãe?
Ora doutor, hoje ganhamos biscoitos recheados. Banquete.)
Por isso glicose vertendo na pulsão desta veia
O menino doutor
(Todo jaleco branco denomina)
Desolado vislumbra a desnutrição
Naquele corpinho deitado na maca
Tão ausente de infância
Suturas na carne, ataduras na pele
E a madrugada torna-se silenciosa
Outra vez no plantão
O curador do corpo, não satisfeito
Busca sua alma poeta
Abraça o violão e se permite chorar
Não basta, ele sabe
Menestrel da madrugada desperta
e se irmana à alma do menino na maca

adormecido por instantes
Abraçando invisíveis meninos do mundo
dedilha canções.
Acalma seu coração
Enquanto imagina a infância

se desenhando num céu de utopia.

 

 

Maria Luiza para Hang Ferrero!

8/8/2021

 

Lido 169 vezes Última modificação em Segunda, 23 Agosto 2021 11:23

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