Terça, 30 Novembro 2021 11:22

SÃO ÁGUAS APENAS

Escrito por ZéSilveira
Vote neste texto
(1 Voto)

o ‘olho d'água’ cessara, mas, ainda chovia feito escumilha em rajadas frias e constantes. gotas imaculadas enxaguavam os musgos das telhas de mão, escorriam pouco ruidosas pelas velhas calhas acobreadas, caindo em golfadas, espalhando-se sonolentas pela alameda e jardins do antigo casario hospedagem. deixei o olhar no correr das águas... aprendera, analgésico natural pra enganar a dor previsível, manifestada, pelos espasmos ao assistir de longe uns restos de palavras sujas soltas no ar, valorada talvez aos que as usavam... absorto, tenso, rabiscara no papel algumas letras sem nexo, dispersas; era o mesmo que num papel vazio, desgraçadamente desvalorizado... veio-me então uma sensação estranha, de sentir as mãos sujas, demoníacas, deformando versos... e num vórtice sem fim vi a poesia sendo arrastada, tragada, violentada bem ao lado de mim... saio da escrivaninha atormentado; circunspecto, triste semblante. debruço-me meio corpo pra fora do parapeito da janela, quase em pêndulo, e ainda deu para eu ver beirando a linha das telhas úmidas a lua esconder–se envergonhada; as estrelas, opacas, dependuradas no final da linha do varal do céu... o poema, cabisbaixo me acompanhara e ao meu lado, próximo à janela; chorava...

Lido 147 vezes Última modificação em Terça, 30 Novembro 2021 13:32
Mais nessa categoria: « Falsos Profetas Do mar indomado »
Entre na Casa da Poesia para comentar