Quinta, 18 Novembro 2021 23:38

Cena cinco (Epílogo) - Confissão

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Ao longo da muralha das palavras obscuras que nos cercamos
Haverá outras tão mais frágeis, menos ilegíveis a nos proteger
Outras cristalinas como o som do violino, o barco em partida
Haverá umas ditas surdamente, absurdamente, surda e mente
O amor desfeito gera a solidão, braços abertos sem o abraçar

Pois a nossa sina é escrever, se oportuno, sonhar além do azul
Meus olhos fechados guardam tua imagem, teu corpo e figura
Sorvo o ar, teu perfume é tão real que minha face transfigura
No perigo de tua ausência, não me passa o lasso esquecimento
Mas o receio de não estar presente, quando florirem os lilases

Sigo a caminho do mar, nestes caminhares. Assim o crepúsculo
A adormecer os girassóis, cantará uma canção para vires aqui
Vou te entregar estes versos, desalojados das hiantes certezas
Vou te convidar para bailar em silêncio, acender o candelabro
Esculpir um lírio, uma colcha dos retalhos de tanta lembrança

Sou quem sou por todo assombro que passei, assim estou aqui
Para abrir janelas, deixar o sol entrar, entornar fora o veneno
E, arrefecida essa febre, jamais divisar nossos rostos solitários
Nessa pálida aflição escarlate que todos os ardis construíram
Ter a alegria única de náufragos ao alcançar a margem segura

Estar a teu lado e jamais permitir dias ausentes sem propósito
Levantar a fronte e amar fazendo cada minuto valer uma vida

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4 comentários

  • Link do comentário Sergius Dizioli Sábado, 20 Novembro 2021 13:53 públicado por Sergius Dizioli

    Quando se transmite ideias e o meio para fazê-lo é através das palavras, estas podem mais ocultar que revelar essas ideias: são as palavras obscuras. Outras vezes as palavras são iguais ao som de um violino (o som do violino é inconfundível e claro), da mesma forma o barco que parte mostra uma mesma certeza - algo de irreversível - e ao mesmo tem a melancolia das despedidas. A clareza da verdade das ideias, nem sempre traz a felicidade, mas é a verdade que importa. A poesia surrealista tem essa característica, de entregar ao leitor sua parte da interpretação. Essa é a minha, mas podem haver outras tão corretas também. Sobre a segunda estrofe falaremos em sala de aula... Saudações.

  • Link do comentário Juan Carlos Martin DÁvila Sexta, 19 Novembro 2021 08:20 públicado por Juan Carlos Martin DÁvila

    Professor gostaria de perguntar sobre a ligaçaõ entre o violino e o barco que não entendi bem...
    Me diga também sobre o final da segunda estrofe

  • Link do comentário Thomas Ridpert Sexta, 19 Novembro 2021 08:08 públicado por Thomas Ridpert

    Obrigado pela postagem, quando o professor disse que havia mais uma cena, passei a aguardá-la. É uma história comovente essa do poeta que vai desde a perda até o final reconhecimento de quem ele precisava perdoar era a si próprio. Em nome da classe te agradeço.

  • Link do comentário Sergius Dizioli Quinta, 18 Novembro 2021 23:43 públicado por Sergius Dizioli

    Thomas, ai vai, para todos os leitores e para você em especial que aguardava o desfecho que já havia te anunciado. Espero que você aproveite.

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