Maria Luiza Kuhn

Maria Luiza Kuhn

MULHER TERRA UNA

 

Participar de um Festival de Poesias em 2021. 

Participar de um Festival de Poesias em 2021 em Lisboa, onde o homenageado é MIA COUTO.

Participar deste festival foi desafiador. Sobretudo um ato de rebeldia e de coragem desta poeta. 


Escrevi a poesia que está na coletânea TERRA, UMA POÉTICA DE NÓS, conversando com todas as mulheres que transitaram pela minha alma em algum momento. Uma poesia gestada, parida, cuidada, polida....

MULHER TERRA UNA, está entregue ao mundo na Coletânea onde 126 poetas lusófonos, residentes em 14 paises, aceitaram o desafio de "poetar". 

Para mim é a verdadeira premiação objetiva e não subjetiva.

 

Compartilho a poesia!

 

Mulher terra una!

Acordou mulher pássaro,

mulher raiz, mulher nuvem

 um mundo atemporal

enquanto asas, trocava amiúde com as nuvens

confidências de seivas raízes

enquanto raízes, colhia recados do céu

relatos de banhos de chuva,

deleites em brisas, tempestades e medos

danças estrelares,

descoberta de cometas

mulher pássaro carregava na boca sementes

a deitá-las em berços ninados pela mulher raiz

fazendo afagos diuturnos na mãe terra

 mulheres acordando neste tempo

numa revolução silenciosa

avatares essenciais

matrizes de outro momento

acariciando o coração da terra

em ritmos de um só palpitar

consoantes de elementos vitais

sangrando e fertilizando

invocando total e perene irmandade

no voo daquela que acordou pássaro, nuvem, raiz

renascendo Terra una.

 

 

por Maria Luiza Kuhn 2021

 

 

DE QUE MATÉRIA SÃO FEITOS OS POEMAS?

 

Eduardo Galeno é precioso: “Os cientistas dizem que somos feitos de átomos. Um passarinho me contou que somos feitos de histórias.”

A frase me inspira a fazer a pergunta do título.

Edgar Morin, sociólogo contemporâneo, afirma que a questão da felicidade está na poesia da vida. “Vida, a meu ver, é polarizada entre a prosa - ou seja, as coisas que fazemos por obrigação, que não nos interessam, para apenas sobreviver, e a poesia – o que nos faz florescer, o que nos faz amar comunicar. E isso é o importante.”

O poeta Charles Bukowski lembra que poesias “são dardos em forma de palavras que vão direto para a parte emocional do nosso cérebro”. E,  ainda, “que um bom poema pode fazer uma alma despedaçada voar.”

Outro poeta, a quem devoto meu carinho e admiração, é Mário Quintana, gaúcho como eu. ”Se eu fosse um padre eu citaria os poetas. Rezaria seus versos, os mais belos, desses que desde a infância me embalaram e quem me dera, alguns fossem meus. Porque a poesia purifica a alma e um belo poema, ainda que de DEUS se aparte, um belo poema sempre leva a DEUS.”

Já Manoel de Barros brinca com passarinhos, lagartixas, borboletas e disso faz sua poesia encantada. Com tanta singeleza e profundidade, diz num verso: “Para enxergar as coisas sem feitio é preciso não saber de nada. É preciso entrar em estado de árvore. É preciso entrar em estado de palavra.”

Mia Couto canta em versos que uma moça se confessa ao padre dizendo ter engravidado do rio e este lhe faz rezar penitências até o dia em que ele descobre a magia daquele rio e passa a se banhar em suas águas todas as noites. Dispensa então a penitência?

O que é isso senão encantamento?

A imaginação tudo pode, inclusive criar mundos, porque sobreviver apenas não basta.

Salto dos poetas para uma leitura pragmática que me traz Eduardo Moreira, discorrendo sobre a economia da necessidade x economia do desejo. Filosofando, reflete que uma vez o homem ter cercado um pedaço de chão e afirmado que era “SEU”, o mundo nunca mais foi o mesmo. Aí chegamos à economia do desejo, aquela que sempre quer mais, mais e mais. . Segundo Moreira, e por constatar em números e estatísticas a nefasta prática de concentração de riquezas em minorias absolutas, e a distanciar enormemente ricos, pobres e miseráveis.

 

Qual relação entre o pragmatismo e a poesia?

As necessidades básicas supridas poderiam ser a prosa da qual fala Morin?

A poesia da vida seria o suficiente para o bem-estar?

Paradoxal ou não, convido-os a refletir.

Quisera, ainda, citar muitos outros poetas que amo, que me embalam no mundo mágico da poesia.  Hoje, entretanto, a reflexão fica por conta dos citados, visitantes nesta tarde de primavera, e que sem pudor espiam meu tempo e minhas letras, desde as janelas da alma.

 

Maria Luiza Kuhn/ outubro 2021

 

 

Maritacas no sertão de São Paulo

 

Atendendo chamados da vida, mudei para o que chamo "sertão" de São Paulo. Seco, árido, quente. Muito quente. A região transborda canaviais e queimadas. Por muito que se estenda o olhar nas cercanias, até onde a vista alcança, é raro encontrar sombra acolhedora. Falta a generosidade das árvores e da floresta.

No microcosmos da morada cultivam-se algumas plantas ornamentais, tratando de iludir a aridez. No jardim, é preciso regá-las no mínimo dia sim, dia não. Há palmeiras e outros arbustos apropriados ao clima. Contêm sua beleza. Na região urbana existem árvores, inclusive floridas. Mas a cidade carece de parques e praças onde o verde pudesse proporcionar maior bem-estar.

Reforço a gratidão pela benção da água, especialmente em tempos de crise hídrica, lembrando que somos todos responsáveis.

Sinto muita saudade do mar e da serra bordada de manacás. Lembro, em seguida, que o Tietê, nesta região ainda navegável e “limpo” do descuido desmesurado do homem, é quase mar, nas redondezas (embora seu nível tenha baixado). Preciso visitá-lo para selar um pacto de amor com a água doce.

Mas é sertão?  Paradoxal mesmo.

Ah, e as maritacas?  Estas aves de penugem verde como plantas (não será por acaso), barulhentas, voando em pequenos bandos, rápidas e tresloucadas me despertam, recordando que a vida urge ser acordada.

Os sentidos em aparência de vazio momentâneo são ocupados de imediato por outro olhar.

Há vida em qualquer lugar. Há poesia em cada paisagem.

Como diria Drummond “Tinha uma pedra no meio do caminho”, e assim, na imagética, retirou a “pedracidade” da pedra.

Vejo maritacas ao amanhecer e estrelas ao anoitecer, enquanto me adapto à aridez da terra.

Contemplo o que me cerca dentro e fora... vivencio este momento com plenitude, amenizado pelo conforto material, mas me transporto para as lonjuras do sertão nordestino, onde tantos sentem na pele a secura da terra, da desesperança, a sede de água, de pão e de justiça.

Então, me sinto desertificada em poetar!

 

Por Maria Luiza Kuhn

2021 setembro

 

 

Texto contemplado pela Curadoria para participar da Coletânea resenhas e variações da Obra de Maria Valéria Rezende.

Livro publicado em Portugal e Brasil.

 

 

Cartas escritas com sangue

 

 Tudo o que restava daquele flagelo

era o corpo (porventura, salva‐se a alma?)

roto, velho, sangrento. Vísceras expostas. Cheiro de sangue.

 como em gênese, reconhece o cheiro no gemido uterino da sua expulsão.

nascera mulher. Maldição de sangrar.

 bendição de procriar, se autorizada por quem desconhece luas.

 julgada incapaz de pensamento, lógica, raciocínio.

 letras, escrita, poesia... meras profanidades que jamais lhe cabem.

 os que pensam usam botas, calças, armas, chapéus,

mas não sangram como ela.

 ousada, quebra regras e se apaixona por letras, palavras, papel, tinteiro.

desvairada, se entrega ao ofício de escrevedeira.

o sangramento a trai.

apanhada, apanha. Aprisionada é ferida e estigmatizada.

dispa seu disfarce! é a ordem do chicote!

sem chão, sem mãe, sem fronte, sem fonte.

desamada, sem botas e sem chapéu.

se veste de noiva, por livre e espontânea pressão.

se encarcera entre outros muros, onde jamais quisera estar.

e come o pão que o diabo amassou.

na casa santa de um convento serve a outras da sua espécie,

todas vestidas de preto e com nome de santas, até enlouquecer,

mas não sem antes furtar livro e papel

escreve missiva em pecado mortal endereçada a outra fêmea

à rainha que fizeram amalucar

em relato que mulheres comuns

também amalucam neste reino seu

mas padece de morte num dia qualquer

em derradeiro e desatinado ato de rebeldia

foge da prisão, vestida de branco,

revelando existir há três séculos histórias mal contadas de escravidão

num roto corpo, com alma a sonhar inteira,

rodeada de ondas, mar, com fome e sede de liberdade, padece da morte

morre então mais uma, atravessada por lâminas cruéis,

morre outra e outras, nos "espaços sagrados" do seio familiar.

espetáculos macabros, porque ousam escrever histórias

no século presente, sem nunca deixar de sangrar

para fazer nascer a vida.

em carta aberta ao universo, ocupam seus espaços

rainhas, loucas, bruxas, fadas. Mulheres.

carregando hoje a bandeira da liberdade de dizer basta!

para aqueles que sangram as que sangram.

mas o que resta são mais e mais feminicídios,

escravidão deste século

flagelo com cheiro de sangue

nas cartas-notícia, desvirginadas de amor.

 

 

Maria Luiza Kuhn 2021

 

 

Onde mora o rei do novo cangaço?

 

O menino não foi para a escola. A mãe não foi trabalhar. A emergência médica lotou. A família do policial ajoelhou, orando pelo seu retorno. O prefeito foi à televisão. As ruas foram interditadas. Os moradores tremiam de pânico e na urgência de noticiar em primeira mão, lotaram grupos de mensagens instantâneas e redes sociais.

Aconteceu um estrondoso ataque à agências bancárias na cidade. Mais de cinquenta bandidos envolvidos na operação. Recursos de última geração. Fuzis, metralhadoras, dinamite, e até drones.  Escudos humanos. Assassinatos e mutilação de eventuais passantes.

 Guerra no meio da noite. Articulada, estudada, financiada.

Síntese do horror no Brasil do século 21. Acontecimento melhor relatado por repórteres e jornalistas, com certeza.

E aquela fagulha mais profunda de mim, não apaga nem descansa. Me traz viva a história do romance FESTA NO COVIL, escrito pelo mexicano Juan Pablo Villalobos.

E me pergunto: Onde mora o Rei do Novo Cangaço?

A quem servem os homens-bomba que vão ao front? Que se dispõem a morrer?

Que depois do crime fogem pela mata e são caçados feito animais ferozes?

De onde vem carros blindados utilizados no ataque? Carros de luxo usados para transportar o resultado do roubo.

Qual o quinhão que levam os quarenta ou cinquenta homens da operação, caso sobrevivam e não forem parar em presídios de segurança máxima?

Ah, tem o informante também!

Qual o quinhão da equipe tática? E da equipe estratégica?

Qual o quinhão destinado aos donos do poder?

E o imperador?  Comprará hipopótamos anões da Libéria para seu filho, como narra a ficção do mexicano Juan Pablo?

Qual a real finalidade do vil metal (que não é mais metal)?

Perguntas que não querem calar. Não encontro respostas, mas sou levada a refletir profundamente, além do raso “Glória a Deus, nos salvamos dessa!” que leio nos grupos de Whatsapp.

O banqueiro assegurou seu cofre. A seguradora providenciou o resseguro. Estes jamais perdem, mesmo que “a casa forte” tenha sido dinamitada.

O passante deixou família órfã. Bandidos e policiais se confrontam como feras humanas.

Passados alguns dias, irão serenando as notícias.

O rei em algum lugar, fumará charutos, misturando fumaça e gargalhadas a céu aberto.

E assim caminha a humanidade!

Eu, refletindo, escrevo para não enlouquecer!

 

Por Maria Luiza Kuhn

agosto 2021

 

Sábado, 28 Agosto 2021 09:57

Coluna da Maria Luiza 18 - Securas e Valsa

 

 

Securas e valsas

 

Quem entardece no tempo, sabe que o sol nem sempre se põe contente. Dias tem que parece chorar lágrimas de sangue, ardentes e de secura ímpar. São dias em que a fumaça e a fuligem da doença humana embaçam seu brilho. É assim que assisto hoje um final de dia, desde a minha janela.

Só quem entardece no tempo, pode avaliar uma boa e distante lembrança, quando ouve a Valsa das Flores, por exemplo. A valsa que dançou com o pai na celebração dos seus quinze anos. No meu caso, na sala da casa da minha avó, o que na época a mim parecia um salão encantado. Nem sei de onde apareceu o som eternizado por Tchaikovsky, naquele lugar distante da Europa e dos centros culturais do país.

Quem enrubesceu aos primeiros olhares apaixonados e se deslumbrou com estreias de beijos também pode ter lindas lembranças colecionadas.

Quem entardece no tempo tem histórias e cicatrizes. Tem queloides e tem rugas. Quem entardece no tempo pode ter olhares complacentes para paisagens tristes. Tem sorrisos doces para poesia e arte. Tem resiliência porque sabe que o sol se põe e a noite afaga a dor das lágrimas em dias não felizes.

Sabe que o dia renasce e com ele outra oportunidade. Sabe que o cotidiano pode ser redescoberto e ressignificado.

Quem entardece no tempo, chora em cumplicidade com o sol quando sente sua impotência diante da ganância desmesurada do homem, incapaz de perceber a possível finitude do planeta e segue sugando, sugando, como se o seio da terra fosse inesgotável no aleitamento vital!

Quem entardece ... Ah, entardece e permanece com muitas perguntas diante do Universo e seus desafios seculares.

 

Por Maria Luiza Kuhn

26 de agosto de 2021

 

 

O menino e a utopia:  da poesia para a prosa!

 

 

Um amigo poeta carregou seu violão para o plantão noturno que faz na emergência médica do serviço público (SUS). Ele é enfermeiro. Refere o quanto tem sido difícil enfrentar o trabalho em tempos de pandemia.

É de se imaginar. O poeta dedilha seu violão nas madrugadas quando o plantão silencia.

Relata, entretanto, que difícil esconder lágrimas furtivas que teimam em aparecer quando se depara com gritantes diferenças sociais.

Os pequeninos aparecem amiúde doentes e desnutridos.

 

A poetiza amiga ofertou-lhe versos.

Ei-los!

 


Carrega na mente
A obrigação do ofício
Mais uma noite: Plantão
No peito dá colo ao eterno menino e sua utopia
Sons e versos que brincam no coração.

Passeando...

Enquanto isso rompe na madrugada a urgência de um

outro menino: Um ferido
Febril e faminto, de muitas fomes
(Hoje, comeu o que mamãe?
Ora doutor, hoje ganhamos biscoitos recheados. Banquete.)
Por isso glicose vertendo na pulsão desta veia
O menino doutor
(Todo jaleco branco denomina)
Desolado vislumbra a desnutrição
Naquele corpinho deitado na maca
Tão ausente de infância
Suturas na carne, ataduras na pele
E a madrugada torna-se silenciosa
Outra vez no plantão
O curador do corpo, não satisfeito
Busca sua alma poeta
Abraça o violão e se permite chorar
Não basta, ele sabe
Menestrel da madrugada desperta
e se irmana à alma do menino na maca

adormecido por instantes
Abraçando invisíveis meninos do mundo
dedilha canções.
Acalma seu coração
Enquanto imagina a infância

se desenhando num céu de utopia.

 

 

Maria Luiza para Hang Ferrero!

8/8/2021

 

Tempo de Tainha

Não se fala de safra de grãos por aqui, no litoral catarinense. Fala-se da safra do peixe tainha.

Novidade para quem nasceu longe do mar.  Fico atenta. Tudo começa no mês de maio quando os “ranchos” começam a ser construídos à beira-mar. Placas  mostram a autorização dos órgãos competentes e aí vem os barcos dos pescadores. Cada qual com sua identificação e enfeitados para a empreitada. É lindo de observar o cuidado com os barcos.

De quem? Deles, os pescadores. Estas figuras que parecem se entender tanto com o mar que por vezes chego a invejá-los.

Penso que conversam com as ondas seguidamente, porque são elas que trazem as notícias mais alvissareiras sobre cardumes de tainhas se aproximando (é o que me contam). Acho que é uma língua que só a eles cabe entender, e respeito muito esse dialeto. Observado este fato, é feito o tal de “lanço”. Tudo muito rápido e tempestivo, pois se tem pressa para não perder a vez. Os pescadores se agitam, sobem no barco, assumem os remos.  O barco passa a primeira onda, a segunda, a terceira, e a rede vai sendo esticada. As remadas dos pescadores são ritmadas como se diuturnamente ensaiassem tal maratona. Arredondam a rede num local que percebem ser possivel  localizar o cardume. Em seguida, vem o trabalho dos puxadores. É incrível o trabalho em equipe desta turma que fica na areia e puxa a rede, que normalmente vem recheada de peixes. Deveria servir de exemplo à equipes de alta performance, porque ninguém se omite nessa etapa de força e trabalho, pois é agora ou nunca. Quando assisto, fico extasiada.

E quando acontece o milagre da multiplicação dos peixes (parece ser), eles começam a separá-los por hierarquia de tamanho. Neste exato momento, lembro da imagem do meu avô separando frutas por tamanho para que a divisão fosse equânime entre nós. Um pegava uma fruta maior, a média e a menor. Depois podia se começar de novo, nesta ordem. Assim, a divisão dos peixes. Não sei, dentre eles, quem fica com a maior quantidade. Deve ser o dono do capital, como sempre, ou seja, o dono do barco. Vendem o produto ali mesmo, na praia, e também fornecem a restaurantes e distribuidores da região.

Encanta-me no ofício de pescadores, sua idiossincrasia. Pacientes, os homens confiam no mar e na benção da Nossa Senhora dos Navegantes. Escutam o vento, interpretam a lua. Enquanto esperam, fiam redes, limpam os barcos, contam causos, festejam a vida, com uns tragos de cachaça misturados com alegria.

Em julho acaba a safra e a autorização para a pesca artesanal. Os ranchos são desfeitos e os barcos guardados. Desconheço onde permanecem os pescadores até a próxima safra.

Talvez, como os peixes, saibam a hora certa de reaparecer.

Oh, mundo diverso esse! Quanto temos a aprender e vivenciar todos os dias.

Por Maria Luiza Kuhn, junho 2021

 

Guardiã de cabelos azuis

 

Enquanto eu ainda pensava em bailar, numa tarde azul, brincamos de chamarmo-nos de “partner”. Quem diria que ali nascia a denominação “Flor de Abraço” que me levaria a uma nova caminhada.

O tempo correu lépido e "Flor de Abraço" virou oráculo. Virou pesquisa de Poesiaterapia. Virou ferramenta de entrega e transformação. Virou paixão.

A simbologia veio parar no braço, sob forma de tatuagem.

Neste olhar que lanço agora para contar um episódio recente, começo a perceber o quanto de construção amorosa ocorreu para que o projeto fosse materializado. Talvez por estas amálgamas é que o Oráculo Flor de Abraço toque as pessoas de forma mágica.

A concepção inicial nasceu de um sonho que tive com meu pai, que já se encontra noutra dimensão. A formatação teve ajuda de muitas pessoas da área de editoração e literatura. A ilustração das cartas coube a um designer, amigo do meu filho, que carinhosamente me chama de “tia”.

Finalmente, a tatuagem na pele me foi presenteada, também, por outro amigo de um dos filhos, desta vez em terras estrangeiras. E assim a energia se expandiu. Quanto de gratidão me cabe no peito?

Enquanto aconteciam as oficinas ministradas por mim, desde 2017, sempre usando a obra, chegamos à terceira edição.

Em tempos de pandemia, partimos para Oficinas e Jornadas on-line, sempre valendo-nos do fiel escudeiro: Oráculo Flor de Abraço.

Então, chega ela: minha guardiã em forma de arte. A madrinha da jovem Academia Flor de Abraço. Não fui eu que lhe atribuí este papel, ela o escolheu.

Essa boneca traz flores e folhas na imensa cabeleira azul e me lembra o quanto devo honrar a vida, minha jornada e meu amor pelo mar. Uma boca vermelha me lembra da minha feminilidade. Aqui, ao meu lado, se instalou.

Profundamente tocou meu coração. Quando a obra me foi entregue por ele, senti como se estivesse resgatando uma parte importante da minha infância.  Aquela ou aquelas bonecas que nunca tive, agora colorem a memória da menina que habita a mulher madura.

Não mais brinco de bonecas, mas eclodiram lágrimas com permissão de lavar as cicatrizes, alisando os queloides do tempo.

O presente veio recheado de amor. Ele, meu amado, conseguiu passar todo o sentimento à artista maravilhosa que a concebeu. A boneca traduz a minha sensibilidade e o meu amor à poesia. 

Não bastasse, trouxe consigo a simbologia do conhecimento e da sabedoria, pertinho do coração.

Assim, ela escolheu ser a guardiã da incipiente Academia Flor de Abraço, agora muito mais fortalecida.

Repito, como caber no meu peito tamanho gratidão?

 

Luciano, pelo amor e carinho.

Rosana, artista incrível, pela obra.

Por Maria Luiza junho 2021

Quinta, 10 Junho 2021 17:07

Como são enormes os espaços

 

 

Entre a criança e a mulher

Infindáveis espaços

dilaceram feridas infantis

Cicatrizadas sob peles de lutas

Por pás de cal de pura sobrevivência

Quão falsas são as ilusões pintadas na cor de cimento bruto

Que seguem ferindo pés cansados

Que tão facilmente derretem com o sal dos olhos

Despidos dos anos que passaram

Travestidos de superação e sucesso

Quão frágil permanece a infância 

Onde tardava o almoço 

Onde o café acordava antes do sol

Quando o calçado era gasto

E o frio clamava o faltante agasalho 

Quão frágil lápide recolhe

E adormece dores infantes num idoso coração?

Quantos olhos são necessários

Para revisitar ancestrais e pioneiros

Neles buscar remendos e alento

Balançar no tempo cura de lembranças

De caminhos....

De caminhar e recosturar o coração

Reaprender olhares novos no espelho da vida.

 

MLK 21052021

 

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