Sergius Dizioli

Sergius Dizioli

Domingo, 24 Outubro 2021 22:57

Dia após dia

Uma taça de vinho, um solo do violino e a noite avança inquieta
É madrugada, ruas vazias inebriadas e uma pobre luz compassiva
Mal vai iluminar aos precários transeuntes em seu andar trêmulo
Olho os passantes pela janela tal qual invulgar cinema doméstico
Ouço o barulho de um resto de chuva que goteja como lamento
Sei que há tanto a observar em momentos sem grandeza heroica
Imagino-me estar preso ao longo braço d’um inescapável destino
Seria, então, esse silêncio inexpugnável, uma sólida sina cósmica
Ou será um fato corriqueiro do sorriso não ocorrer na nossa hora
Dia após dia, mais admito que essa dor obedece a leis ancestrais
Os dias amanhecem cansados e a rosa ao mar já não volta à areia
O que viria a nos aproximar transformou-se num muro entre nós
As estradas, antes luminosas e febris, estão vazias e vão ao vazio
Quero crer que esta angústia partirá a seguir as nuvens que vão
Para que se salve este vinho, pois não é hora de voltar ou morrer

Sexta, 22 Outubro 2021 01:57

O amante e a trapezista

O tremular dos olhos que antecede à lágrima denuncia
Os dias que uma fina, sutil dor nos assoma e nos rasga   
Essa dor de ser nós mesmos, que não dá para disfarçar
Qual a tristeza interior da criança que, no berço chora

A dor faz sentir qual estar de braços dados com o nada
Com vestidos de noite, mas com os gestos suburbanos
Um vapor que paira no horizonte nas horas de sombra
Uma leve força hipotecada que tem o peso do universo

A forma da tristeza pode ser apenas um olhar magoado
Ou o riso desbotado de um nostálgico (trágico) mundo
A presença efêmera das palavras que ficaram sem dizer
Uma cantiga de cabaré entoada num afinado fio de voz

Ao olhar atento, àquele que interessar vai olhar e sentir
A tristeza e suas expressões têm forma diversa na alma
No silêncio dos quartos vazios, na lucidez das avenidas
Como sentir a vida esvair, gota a gota, no meio do peito

A dor de amar é igual se aventurar sem rede no trapézio

Quarta, 20 Outubro 2021 20:45

Gestos

O gesto primeiro do poeta é sua rebeldia, o fruto proibido
E também sua musa primeva, azul, oculta ao pé do oráculo
Diz sussurros aos espíritos que pactuam estes dias amargos
Neste cenário celestial liberto este canto ao qual me atiro
Como o pássaro se atira no vazio, ousadia que lhe dá o voo
Deste gesto é o verso do qual caos nasceu o céu e a terra
 
Tu que a tudo observas de teu empíreo trono, hoje te invoco
Como poderei remir esse pecado num coração singelo e justo
Elevar-me sobre a vastidão dos abismos profundos do inferno
Galgar os topos das montanhas e lá dissipar toda essa solidão
Instrui-me a abrir asas intensas, livres das minhas fraquezas
Dize-me onde encontro o ímpeto para fugir das vãs seduções
Que as dissolva sem ruído, tempestades, sem ais ou lágrimas
 
Ah, o poema e os elementos em que ele consiste, tudo expõe
A alma poeta se perfaz só de anseios e segue a duras penas
Transformando as ausências que viveu, em afeições no futuro
Buscando encontrar uma inocência, justificar os rompimentos
Algo que nem sabe ao certo como pode ser feito, apenas o faz
E não tem medo de amar. Vai doer e se dói, é porque importa
 
O viver é algo circular, ao fim é que se encontra o recomeço
Quarta, 20 Outubro 2021 00:57

Escada para o céu

Alguém poderá adivinhar os planos da consciência do universo
Quais pensamentos e axiomas coordenam o curso dos planetas
Almas em desequilíbrio não pode aferir todas as possibilidades
Que se ocultam detrás das colunas que sustentam este mundo
A resposta não virá das trombetas douradas de belos arcanjos
Um dia a morte devolverá o espírito pleno que o corpo limitou
Então tudo se fará intenso, curado das tempestades cinzentas
Das vidas sem cor, das esperanças sem som, do sono perpétuo
O poeta poderá, desse modo, alimentar os sonhos quais deseje
A moça morena e seus braços à mostra, poderá cantar faceira
O tempo se dissolverá e não se terá nenhuma pressa para nada
Bem na próxima esquina, fica a escada que leva para o paraíso
Que um dia certa canção cantou. Eu, vou bater as asas, partir
Voar na direção a luz, grato de brilhar e sem lembrar quem fui
Segunda, 18 Outubro 2021 23:51

Cavalos de Fogo

 
Há um instante entre tantos outros possíveis instantes
Em que te olho no fundo dos olhos e nada mais importa
O tempo, o espaço, o resto do mundo ou ainda a chuva
São dispensáveis as palavras, outros gestos e alegorias
Além do balançar cadenciado de nossos corpos juntos
Vamos ao fundo do ser num ritual que só nós sabemos
Dois corações em um só ato e dois corpos como um só
E todo o caos do universo em um momento se compõe
Nesse mundo à meia luz, na inocência de nossa nudez
As sensações se apropriam da tola presunção racional
Até as mais firmes certezas desabam em cor e suspiros
Assim sei que és meu templo e meu amor é a sua oração
Percebemos que já fomos náufragos dessa velha solidão
Uma emboscada do vazio, um jogo perdido de antemão
Porém, de mãos entrelaçadas caminhamos juntos agora
Para reescrever a vida na longínqua terra da imaginação
Enfim percorrer tua geografia com meus cavalos de fogo
E estarmos ao fim da viagem plenos de harmonia divinal
Pois fica, ama-me outra vez. Para sempre neste instante
Segunda, 18 Outubro 2021 00:30

A falta que ela faz

 
A folha branca sobre a mesa, a brisa sopra pela janela aberta
Trazendo o som do mar, é o início de mais uma noite sem fim
Enquanto olho distraído o dia passar nos telhados da cidade
Não consigo negar és o meu vício, a poção que me envenena
Mas és também o porto onde retornar depois da tempestade
O tempo fica esquecido e teu riso ecoa pelos cantos da casa
Inventas pontos de luz onde só existiam sombras sobre a vida
Onde tu pousas as mãos a mobília ganha vida e suave bálsamo
Mas, enquanto tu não vens, os objetos da casa ficam quietos
Hoje vou me perder na tua geografia, num abraço desmedido
Canto uma canção de lírios azuis para esperar a tua chegada
Com palavras interditas que só ousam pertencer aos amantes
Vou abrir a porta da frente, te receber com uma vogal aberta
Para que o mundo saiba que a dor me aflige se estás distante
Vou falar sem sombra, sem medo, da alegria de quando voltas
Com as palavras de homem suburbano que discorda da norma
Que decide por quantas horas que não me cabe tua presença
Para satisfazer qualquer dos arranjos imperativos do universo
E só por negar a solidão num último gesto, escrevi este poema

 

Sexta, 15 Outubro 2021 23:06

Pétalas Escarlates

Os braços verdes dos girassóis a saudar a primavera
Formam bela paisagem para os beija-flores no quintal
Queria uma manta de lilases para disfarçar tua falta
Deixei uma lâmpada acesa, sem remorsos, para fingir
Que tua luz não se esvaiu e tua voz ainda ecoa aqui
A parede vazia, antes repleta de cores dos quadros
Que expunham da nossa história em óleo sobre tela
Parece me fitar rude, tal a hera do muro do quintal
A jarra de cristal sobre a mesa, já não recebe rosas
Quais tua mão meiga transitava entre espinhos ilesa
Ervas daninhas, pelo abandono, invadem o canteiro
No teu lugar à mesa já não há mais prato nem talher
Porque abdicastes da vida e nos levou tua presença
Deixando só silêncio e tantas perguntas a responder
Sei que vou achar novas razões e prosseguir adiante
Plantar novas flores no jardim, de pétalas escarlates
Perfumes envolventes para atrair borboletas vítreas
E darei teu nome à mais soberba flor que despontar
Para que revivas no jardim como ainda vives em mim
 
 
Suicídio é segunda causa de morte entre jovens de 15 a 24 anos
Este poema foi redigido em ação de setembro amarelo em 2021
A pandemia aumentou em cerca de 15% os suicídios entre elas
Só em outubro de 2020, a taxa de suicídio feminino no Japão aumentou
mais de 70%, em comparação com o mesmo mês do ano anterior
Não ignore se alguma pessoa que você conhece mudar de comportamento

 

Sexta, 15 Outubro 2021 09:10

A dor de ser poeta

Se existe algo de justo na vida, todo poema deve ser lido
Vagarosamente, saboreando as palavras repetidas vezes
Cada verso pede um suspiro, que se guarde um certo ar
Para o verso seguinte. Cada verso pode ser um universo
Mas pode doer como dói o mundo certos dias cinzentos
Um poema pode ser profundo ou raso, banal ou efêmero
Pode ser efusivo e transbordante, qual um abraço amigo
Podemos erguer uns muros para nos escondermos da dor
Podemos construir a nossa própria história de um paraíso
E os paraísos são tão fugazes, às vezes, tal qual um que li
O poema pode ser árido como há dias sinto dentro de mim
Correndo entre areias sem, desastrosamente, algum oásis
Como tentar uma inútil fuga, pois não se pode fugir de si
O poema pode ser um drama ou pode fazer pessoas rirem
Já nem sei qual destes amanheço para escrever e eu gosto
Sim escrever pode doer, quando fala das perdas e feridas
Mas temos que escrever, dar vida à poesia e só assim, viver

Quinta, 14 Outubro 2021 15:57

Infinita Mutação (Na cauda do cometa)

Quando te fostes, de meus olhos, correu um rio de lágrimas
Minha imagem, única ao espelho, confirmou a minha solidão
Uma descoberta inútil, o silêncio já me contou a tua partida
Olho a vastidão dos lençóis onde se celebrou outra revoada
Meus pássaros selvagens a visitar teu corpo alvadio todo nu
Para reconhecer que tua parte de mim é mais que jamais fui
Olho à janela e as nuvens também choram lágrimas saudosas
De um tempo que éramos tu e eu, um tempo que fomos nós
Essa lembrança me fere na alma, onde resta chaga fremente
Que se estende até a linha do horizonte, onde imagino estás
Eram sonhos, tantos sonhos e todos se perderam no abismo
Quando tiveste que afastar a máscara e mostrar tuas raízes
Foi então que a verdade prevaleceu e vi que eu não era feliz
Palavras incandescentes que se tornaram silêncios obscuros
O vinho se fez em sangue, mas não fará o meu tinteiro secar
Nas linhas do poema, assinalarei a saída de mais um labirinto
É minha essência domar o cometa e ser uma infinita mutação
Quinta, 14 Outubro 2021 08:32

Poema de uma nota só

Na terra que esteve por tempos avermelhada
Diz que a última canção triste já foi cantada
E que aquela flébil voz feminina se fez calada
Diz que toda dor já passou, a vida está curada
E o estio espalha seu perfume pela madrugada
Nas montanhas as nuvens iniciam sua escalada
No troar dos relâmpagos, é a chuva anunciada
Germina primavera e mostra toda tua florada
Deixa no ar da noite tua chancela perfumada
Diz aos amantes que é feita a última chamada
Para que os poetas se entreguem à sua amada
Caminhem juntos, olhos nos olhos, muita risada
Para que a vossa estrada seja leve e iluminada
A vida só pode ser real, se puder ser sonhada
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