Aplicado o filtro por Data: Agosto 2021

Quinta, 30 Setembro 2021 17:47

Porque eu te amo

Meus dedos correm em você,

Eu não vou parar até você gritar.

Porque eu te amo.

Sinto o seu corpo na minha pele,

Você é a deusa dos meus sonhos...

É o estímulo que está em minha carne,

É o sentir por baixo de meu peito.

Por isso eu te amo...

Eu faço você gritar, eu faço você chorar,

Eu faço você cantar, eu faço você sorrir.

Com todo meu sentimento e sentidos da alma,

E assim é no que eu te amo.

És a única que está chorando,

Choras lágrimas amargas.
Eu me apanho triste as beiras enxugando,

Estás gritando e estou simplesmente sonhando.

Hoje à noite eu procurarei,

Por você... Só por você.

E aquele fogo e água totalmente insanos,

Quando te seguro doce em meus braços

Porque simplesmente te amo.

És o único e verdadeiro amor da minha vida,

Você é a dona de tudo que é de meu etéreo.

Porque eu te amo...

Sim, eu te amo.

 

...Pena de meus alfarrábios!

L'(Max) 30.09.21 "Spoiler A15"

Publicado na categoria: Poesia
Quinta, 30 Setembro 2021 16:29

As Marcas do Tempo

A noite desaba sobre a terra e, no silêncio, o pio da coruja a anuncia
Nessas horas de sombra percebo que o tempo deixou marcas em mim
Reconheço que cada vez os dias se ausentam mais velozes e insípidos
Com menos espaço a lembranças nas horas saqueadas de meu futuro
Não mais tenho escutado as histórias que o mar segredou às conchas
Para, depois, depositá-las com suas espumas sobre as areias do existir
 
Sendo invisível o tempo é a ausência que avermelha a folha do bordo
O tempo não se soma, antes subtrai a si próprio pelas veredas da vida
Sei que assim a morte se faz mais próxima a inaugurar novo princípio
Atenção a quê espero manter declinando para seguir neste solilóquio
Que revela toda a solidão do poeta destacada dia a dia no calendário
Em aviar estratagemas para lidar com essas almas cruéis e sorridentes
 
Busquei conduzir meus dias, entre caminhos com portas sem trancas
Onde todo segredo tem limites felizes e da estrada se vê o horizonte
Não levei minha vida à deriva mesmo passando por paisagens difíceis
Por silêncios vorazes nas horas que as sombras se debruçam na terra
Muitos se afastaram e o tempo ensinou que foi mais lucro que perda
Jamais forjei o aço dos espelhos que me refletem, com o metal do vil
 
De outro lado, não me seduz a ilusão de merecer louros da perfeição
Nem tampouco a falsa modéstia de negar aquilo que lutei a aprender
O tempo revelou que devemos ignorar os sorrisos oblíquos e amargos
Bem como olvidar as palavras que ocultam aqueles que nos preterem
Longe de ser despedida, este poema só constata as marcas do tempo
Um fogo vivo que aflige o fraco, mas coroa o que na luta restou em pé
 
O tempo marca a todos: uns veem cicatrizes, a outros são só medalhas
Publicado na categoria: Poesia
Quarta, 29 Setembro 2021 22:35

A Escadaria

 

Só faltam mais alguns degraus. Estou ofegante, parece que estamos subindo... será que ele percebeu? Acho que não. Não sei o que ele falou, não consigo prestar atenção.

Será que ela percebeu que fiquei até agora para sairmos juntos? Ela nem prestou atenção no que falei, acho que nem eu. Vou convidá-la, mas lá embaixo perto do carro. Café ou chope? Quem toma café essa hora? Melhor um suco. Ela não vai aceitar, sabe que eu tenho namorada.

E se ele tentar alguma coisa? não sei como vou reagir. Ele não ousaria, tem namorada. A escada não termina mais. E se eu convidar? Qual o problema? Somos colegas de trabalho.

Acho que vou falar chope mesmo. Qual o problema colegas de trabalho tomarem um chope? Hoje nem é dia de happy hour, aliás que dia é hoje? E se eu puxasse o braço dela e desse um beijo forçado?

A escada passava pelos três últimos andares porque era utilizada como rota de fuga em caso de incêndio. Muita gente a usava quando os elevadores da zona baixa demoravam demais no horário de pico. Era interrompida por patamares a cada 20 degraus. Seu revestimento em granito preto deixava o ambiente frio. Apesar de parecer de tom preto, essa pedra era mais simples, chamava Verde Ubatuba. As paredes eram brancas, com textura rolada, aquela que arranha o braço - ela tentava encobrir os blocos de concreto que não receberam reboco. Apesar do piso em granito, não era uma área social por isso tinha um acabamento simples. Dependendo da vaga no estacionamento, compensava descer por ela de vez em quando.

Ela não tinha paciência de esperar o elevador e já usava a escada fazia algum tempo. Quando ele percebeu, começou a usar outra vaga no estacionamento, mais próxima a saída da escada. A escada tinha aquelas portas corta-fogo com barra anti-pânico pelo lado de dentro e quando a mola automática puxava a porta com força dava para ouvir o eco lá do 4º andar, onde eles trabalhavam.

Desanimou da academia hoje? Ela perguntou. Na verdade acabei esquecendo, acredita? Ele mentiu dando uma risadinha. Talvez eu ainda vá.

Como ela sabe que eu tinha academia hoje? Será que eu estou imaginando coisa? Meu coração está quase pulando fora do peito, e essa escada que não termina. Lógico, ela viu minha mochila, como sou idiota.

Adoro esse perfume dele. Foi muita coincidência sairmos juntos. Vou esperar, acho que ele vai me chamar para tomar um chope. Mas eu não posso aceitar, vai pegar mal se nos virem juntos.

Consigo sentir o perfume do cabelo dela há quilômetros de distancia. É lógico que ela percebeu que não foi coincidência. Só está esperando minha iniciativa. Mas e se não for nada disso? Vou tomar um fora daqueles. E tem minha namorada, melhor me controlar.

Quer saber? Se ele me chamar eu vou sim. Não tem nada demais só um chope. Quem sabe uns olhares, ou até um beijo... meu Deus!!

Quer saber? Vou chamar sim. Não tem nada demais só um chope com uma amiga do trabalho. Ninguém vai ficar de olhares nem se beijando, mas era tudo o que eu queria.

 

Finalmente a garagem. Nossa essa escada parece infinita - ela soltou com um ar que estava preso no peito. Você não acha?

Verdade - disse ele, parece que descemos dez andares, e sorriu sem graça.

Olhando para baixo continuaram caminhando e se afastando cada um em direção ao seu carro.

-Bom, então bom treino se ainda estiver animado.

Obrigado, bom descanso para você e até amanhã - disse ele.

Entraram em seus carros e ficaram parados com os olhos fixos ao volante por alguns segundos. Levaram as chaves ao contato e sussurraram quase que em sincronismo – melhor assim.

 

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Terça, 28 Setembro 2021 07:18

Dias Melhores

Dia após dia as palavras feitas de sangue e ouro nos brindam
Os poemas já nascem tristes como lápides de ausentes heróis
O silêncio abissal revela em notas musicais as folhas a caírem
Batidas pelas gotas da chuva que desabam no campo devastado
O vento leste que sopra traz o odor de pétalas já ressecadas
Memórias das tardes de incêndio interior às margens do mar
Mais uma sílaba, mais um gesto e o pássaro voa longe demais
Alcança aquela nuvem indolente, de água lapidada a flutuar
Ainda tenho a garganta seca, quanto do coração me restará?
Sei que esse medo é em vão, apenas vivos é que sentem sede
O sabiá caiu da antena onde cantava, restou um sabor de fel
Será que o paraíso existe para todos, digo, igual sorte ao fim
Há horas em que minha mente dispersa, sim afinal reconheço
Foram tantos pores do sol e tantas esperas e noites de chuva
Que nem mais sei dizer como fazer para resgatar a lembrança
De onde vem a certeza, clara, gentil, que dias melhores virão
Estas palavras cansadas, eu sei, cobram um sabor de enxofre
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Segunda, 27 Setembro 2021 19:29

Carta aos Humanos

 

Nasceu mais uma parte de nós. Hoje é dia de comemoração porque outra porção do todo se iluminou. Em outra civilização diriam que nasceu mais um indivíduo, mas aqui não. Em nosso plano não há indivíduos, e sim partes do mesmo.

 

Por isso também não damos nomes a nenhuma parte, como civilizações primárias fazem. Quando se nomeia o que chamam de alguém, está admitindo sua individuação. Isso está fora de questão, porque somos todos em um.

 

Não sabemos quantas partes somos, porque não contamos e isso não importa. Sabemos apenas que devemos cuidar de todos, porque assim cuidamos do Uno, do Todo. Aqui todos os seres são iguais.

 

Mas não viemos do nada. O caminho foi longo para chegarmos a esse entendimento. Viemos de todas as esferas onde há vida de todas as formas, inclusive da Terra, onde há matéria e provações. Para alcançar nossa frequência é necessário milhares de experimentações e aprendizado.

 

O tempo que na Terra é contado pela passagem do fluxo experimental aqui não existe. Não contamos o tempo porque ele simplesmente não existe. Não temos nada a fazer ou ser no tempo futuro, simplesmente somos. Não há futuro. Há somente o agora.

 

Tudo é Uno e tudo é o Todo. O Todo é o que chamam de Deus. Logo também somos Deus.

 

Para chegar aqui não precisa viajar nem se deslocar. Aqui não é um local físico. Aqui é uma frequência vibracional. Só existe a consciência única e ao mesmo tempo de todas as partes. Então somos a Iluminação Divina do Criador.

 

Não se chega aqui quando todas as respostas forem encontradas. Essa sintonia é alcançada quando não houver mais perguntas. Não pense em como alcançar, só alcance.

 

Aos da Terra sugerimos que não sejam escravos do pensamento. Sigam o fluxo e completem a missão seguindo a natureza de cada um, não importa o que está externo. Olhe para dentro e busque se conhecer.

 

Você só vai entender quando perceber que não existe resposta, simplesmente porque não existe pergunta. Depois de desencarnar siga sua vida normalmente. Livre-se da matéria, pois não passa de uma experiência. Sua consciência não precisa desses milhares de anos de tempo humano para enxergar a verdade. Hoje entendemos que o caminho pode ser simples e curto.

 

Não lute com a sua mente, aquieta o pensamento. Viva com sua verdade. Seja honesto, amistoso e gentil porque um dia vai descobrir que o outro é você também.

Agredir uma outra parte do todo é como uma célula que se auto destrói. É ferir o seu próprio espírito.

 

O sentimento foi feito para você experimentar e crescer, mas não se contamine com ele. A Luz está na paz, e esta na serenidade. O conflito sentimental pode atrasar o progresso da consciência. A única forma de evitar é com a aceitação da sua realidade – que é temporária. Aceite o que vem para você. Faz parte de um plano que você mesmo participou. Não precisa entender, basta aceitar. Rir na hora de rir e chorar na hora de chorar.

 

Divirta-se com o sentimento e com as paixões da sua personalidade, mas saiba que as fases terão início, meio e fim. O desejo pelo autoconhecimento chegará a todos mais cedo ou mais tarde. Não o negligencie, ou estará fadado a viver eternamente na mesma frequência ou degrau, podendo até involuir.

 

Esperamos que você se ilumine e nos ajude para que o Todo fique cada vez maior. Ansiamos pela sua chegada, mas no seu tempo. Seja iluminado e infinito.

 

Esteja em paz.

O Todo.

 

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Segunda, 27 Setembro 2021 16:47

Noturno 6.5

Soergo meus olhos a buscar outros olhos com certa angústia
É outro ano vencido desta caminhada nestes dias incontidos
Mais uma vez estou-me face a face diante de meus temores
Tanto mais nesta reclusão voluntária que a cautela me exige
Então devo confessar que bebi dos cálices do conhecimento
Até habituei com a embriaguez que todo o conhecer resulta
Descobri que esse meu silêncio, até se parece com a tristeza
Mas é a flor da imaginação que me sustenta nos seus braços
Descortinei na árdua busca de mim, o peso de aceitar-se a si
Em geral, encoberto entre as brumas obscuras da ignorância
Encontrei além de mim, outro olhar para somar nessa viagem
E com esse alguém violar os limites, romper todos horizontes
Esperança e liberdade cabem na vereda de um futuro a dois
Sei que quero a vida, mas martela na mente a dura realidade
Que nutre a sensação que viver é tão frágil e o tempo curto
Nem sei quão curto, mas sei que não farei fácil para a morte
Se a vida fosse como dormir, seria só alterar de lado se doer
Não é simples viver sem sonhar e aí a poesia se faz imperiosa
Que nos versos permite romper as barreiras da mediocridade
Assim estendo minhas asas ao primeiro brilho de cada manhã
Esparzo a poeira da noite sem lamentos nos olhos ou na alma
Chego sóbrio a esta reflexão existencial aos sessenta e cinco
Tal qual o faço desde que fui renascido, há cinco anos atrás
Eu não tenho saudade do que um dia fui, já sei que envelheço
O que faço feliz, sem me entregar e sem resistir, reinventado

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Segunda, 27 Setembro 2021 16:10

Noturno 6.4

Bastou um segundo e a noite se encheu de gritos surdos
De palavras ininteligíveis pronunciadas quase a meia voz
De lábios que se moviam, mas não correspondiam ao som
Quem quereria fazer a minha alma tão sofrida e solitária
Que batalha para ser o que é e não o que querem se seja
Seria um feitiço ou uma maldição? Ou seria um pesadelo?

Porque as pessoas procuram mentiras em meio a verdades
Ou ainda só conhecem a verdade em suas próprias ideias
A culpa as faz rigorosas com uns, permissivas com outros
É a amaldiçoada e eterna luta entre o ser e o estar sendo
É a vida na terra do faz de conta onde vale o que parece
Aquilo que seja mais fácil acreditar que a dura realidade

Vida pálida, consumida, alquebrada e escoltada pela dor
Por teorias flagelantes ditadas pelos que não sabem amar
Que te obrigam ao silêncio, pois o querer lhes incomoda
E o mundo fica descolorido e sua presença não é notada
Enquanto derramas lágrimas melancólicas na noite escura
Em meio ao pânico de não encontrar saída desse labirinto

Há tempos que me sinto afogar em um oceano de mágoas
Penso que não estou onde deveria estar, ando em círculos
Resvalando entre viver ou sobreviver em sonhos distantes
Viajando em estradas estéreis margeadas por flores secas
Onde meu sangue é derramado em vão sob o céu sem luar
Porque preferes ver meu coração triste e abatido assim?

Publicado na categoria: Poesia
Sábado, 25 Setembro 2021 14:15

Noturno 6.3

Antigos arreios de medo se atrelam à ilusão de novos dias
De pedaços se faz a tarde que de ausências sopra na brisa
A contar segredos como as águas do rio os revelam às pedras
As nuvens de chuva encobrem as auroras que se perderam
O medo vibra, ainda que se deseje que não faça residência
E o amor se esforça, busca inglório reinventar a esperança
Mas há um quê infeliz, dor insana de estrela que não brilha
Porém a estrada é longa e na solidão alongamos ainda mais
Não há amor, o céu cinza da agonia nos remete ao silêncio
Tantos anseios se esvaem no vazio aflitivo que os consome
As palavras se oxidam na espera, a cada giro dos ponteiros
Como reviver-me se o desejo míngua sem o favor do tempo
Na noite tardia em que a memória é singular companheira
E que todas as minhas idades se refletem nessas memórias
Pertenço ao silêncio dos matizes que agoniam meu coração
Na distância dura e áspera qual um non sense imperdoável
Sou viageiro solitário e cúmplice do silêncio nessa jornada
Em que o amor esse pássaro azul, breve e passageiro, canta
E se move pela paixão como animal noturno meio ao sonho
Para deixar suas marcas, trilha e sombra no pó do caminho
Na encanecida memória da noite e suas estrelas deserdadas
Construo o poema em seu febril pulsar, tão urgente e frágil
Sobre os ombros pesam os minutos a chegar o dia seguinte
Saudade, ave cinza que de-há-anos se aninhou no meu peito
Sob o lume dos castiçais a se refletir nas ruas tristes do cais
As palavras são a voz escondida nos territórios da alvorada
Que, avidamente, se almeja alfombras mais leves para a alma
O banco de praia vazio, insciente dos transeuntes distraídos
Inda exala o perfume que se perdeu em uma tarde qualquer
O vento de abril anuncia o outono chegar ao sul do equador

Publicado na categoria: Poesia

 

 

Maritacas no sertão de São Paulo

 

Atendendo chamados da vida, mudei para o que chamo "sertão" de São Paulo. Seco, árido, quente. Muito quente. A região transborda canaviais e queimadas. Por muito que se estenda o olhar nas cercanias, até onde a vista alcança, é raro encontrar sombra acolhedora. Falta a generosidade das árvores e da floresta.

No microcosmos da morada cultivam-se algumas plantas ornamentais, tratando de iludir a aridez. No jardim, é preciso regá-las no mínimo dia sim, dia não. Há palmeiras e outros arbustos apropriados ao clima. Contêm sua beleza. Na região urbana existem árvores, inclusive floridas. Mas a cidade carece de parques e praças onde o verde pudesse proporcionar maior bem-estar.

Reforço a gratidão pela benção da água, especialmente em tempos de crise hídrica, lembrando que somos todos responsáveis.

Sinto muita saudade do mar e da serra bordada de manacás. Lembro, em seguida, que o Tietê, nesta região ainda navegável e “limpo” do descuido desmesurado do homem, é quase mar, nas redondezas (embora seu nível tenha baixado). Preciso visitá-lo para selar um pacto de amor com a água doce.

Mas é sertão?  Paradoxal mesmo.

Ah, e as maritacas?  Estas aves de penugem verde como plantas (não será por acaso), barulhentas, voando em pequenos bandos, rápidas e tresloucadas me despertam, recordando que a vida urge ser acordada.

Os sentidos em aparência de vazio momentâneo são ocupados de imediato por outro olhar.

Há vida em qualquer lugar. Há poesia em cada paisagem.

Como diria Drummond “Tinha uma pedra no meio do caminho”, e assim, na imagética, retirou a “pedracidade” da pedra.

Vejo maritacas ao amanhecer e estrelas ao anoitecer, enquanto me adapto à aridez da terra.

Contemplo o que me cerca dentro e fora... vivencio este momento com plenitude, amenizado pelo conforto material, mas me transporto para as lonjuras do sertão nordestino, onde tantos sentem na pele a secura da terra, da desesperança, a sede de água, de pão e de justiça.

Então, me sinto desertificada em poetar!

 

Por Maria Luiza Kuhn

2021 setembro

 

Publicado na categoria: Coluna da Maria Luiza
Quinta, 23 Setembro 2021 16:54

Noturno 6.2

Era um domingo que a melancolia nos faz morada
E as nuvens se espalhavam como um mar nos céus
Eu sentava numa velha poltrona na sala de jantar
No ar havia um rumor, como aquele de mudança
Coisas arrastadas de lá pra cá, no andar de cima
Eu que apesar de criança já vira muita mudança
Só olhava pela janela a chuva que começara cair
Aos poucos seu cheiro doce veio preencher o ar
E o som dos pingos romper o silêncio dessa tarde

Nestas noites que uma solidão trôpega toma o ar
O chiar da chuva na árvore inda vive na memória
Na essência das águas vivas como primeiro alento
Lembrança imaculada que afasta ocultas mágoas
Ali a água fertilizava uma imaginação ainda verde
Forjando ideias no escuro súbito daquelas nuvens
A essência do que me move a replicar a natureza.
Hoje as janelas se abrem a outros mares e tempos
Mais duros e crespos, cheios de abismos a vencer

Os domingos não têm mais cheiro úmido de mato
Tão só a memória perpetua e recompõe a fábula
Do menino que inda vive em mim a olhar a janela
Longe do conflito íntimo e surdo dos contrários
Entre arar a terra ou cavar seu próprio sepulcro
Ser pássaro de asas abertas ou pilar de concreto
O que é frágil e transitório ou o que se eterniza
São as chagas da luta contra as dúvidas dos dias
Meu menino resiste na semente, alma e coração

Na faina cotidiana solitária bato as asas em segredo
Para que cada caminho me reconduza à paz perdida

Publicado na categoria: Poesia
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