Aplicado o filtro por Data: Julho 2021

Segunda, 30 Agosto 2021 21:04

Novo dia

Com este pôr do sol sem fim, dei um descanso à minha alma
A sensação se foi e uma vez mais eu pude ver só meu sonho
Eu criei meu próprio céu para meu coração não mais chorar
Não me diga como eu me sinto. Esta é tão-só minha criação
A música morreu, também a poesia, todo amor está à venda
Mas o menino não morreu, ainda que viva sem sentido, vazio
Mas dor é temporária, a vida há de seguir, o inverno findará
Você ficará com seu silêncio eloquente, sem ter nada a dizer
O tempo te levará mais que o metal que você julgou ter valor
Minh’alma se fez livre da espada e, assim, posso voltar a viver
Pois eu reconheci minha pequenez finita diante das estrelas
O poeta renasceu, trouxe com ele os versos da nova canção
Eu quis imaginar um oceano em você, não quis ver o deserto
E agora o que eu vejo são versos sem rimas, sexo sem clímax
O fim de todo querer, o que poderia ter sido quase perfeito
A manhã já veio, não me culpe porque seu sol não brilha mais
Já conheço seus cenários. Você sente frio? Esta é a verdade
Perdoe-me se já não quero chorar, se meu rosto é sorridente
Debaixo desta chuva, ao sonhador, o vinho é canção de ninar

Publicado na categoria: Poesia
Segunda, 30 Agosto 2021 13:42

A procura

Não é para lua ou as estrelas que me dirijo ao te procurar
Nem para outro mundo distante de intrincados caminhos
Eu te procuro no espaço vazio da silhueta de meus abraços
Mas tu escapaste entre meus dedos qual areia do deserto
Deixando tantas páginas em branco e poemas não escritos
Já imaginei te buscar entre as gotas do orvalho das manhãs
Mas o sol se abrevia, as dissolve e leva também tua imagem
Quando olho ao oriente, onde se deita o sol, só vejo vazio
Deixando sua trilha de raios dourados espalhada pelo céu
E tudo é um enorme quebra cabeça de peças incompletas
É por isso que escrevo aos ventos, nesta solidão pacífica
Enquanto a brisa sussurra e repete teu nome gentilmente
É esta busca que me nega o conforto do sono nas vigílias
Enquanto meu coração, tolamente, segue na tua direção
Minha mão que busca teu toque, minha boca busca a tua
Sinto-te. Não sei se é teu olhar ou a respiração, mas sinto
Diz-me o porquê essa aura glacial se instalou em teu peito
Porque te olvidaste dos sonhos e renunciaste ao romance
Sei que toda espera é dolorosa, mas esquecer o é até mais
Não faças de lembranças amargas uma porta para solidão
Então venha, senta-te ao meu lado, conta-me teu segredo
Fecha os olhos e por um minuto apenas deixe o amor fluir
Pois do outro lado do horizonte é dia e a vida recomeçou

Publicado na categoria: Poesia
Domingo, 29 Agosto 2021 22:34

Cena 1: Do abandono ao perdão

O abandono guarda o marco primevo das sombras
Essa lacuna é o fim e o início em que se preenche
A se distribuir como um todo, ao longo dos ciclos
É a curva que encerra o círculo, na consequência
Mais profunda de toda causa. A ausência é noite
É quando todo ódio se multiplica nos quadrantes
Qual o gérmen a crescer no ventre da escuridão

O perdão é a cintilância defronte do espelho cru
Não traz esquecimento, mas o silenciar da repulsa
Para se desdobrar renascido pelo campo crestado
Para se tornar o alimento contra todo o desprezo
O qual promove a ira interior, apaga pensamentos
De autoestima e adere em sua natureza brilhante
Perdoar levanta o véu da vingança e a vida segue

Livre das sombras é hora de recomeçar o caminho
Iniciar o duplo movimento sem a limitação do caos
Essa forma aliciadora de rígidos e frios contornos
Que se apoia no princípio do conflito para o nada
Chegou-se a hora de abster a existência coagulada
Perceber o horizonte e seguir a vida nessa direção
Esquecer o rancor e a ausência na maior distância

Aquele que é capaz de perdoar, presta o bem a si
Pode ir, liberto das sombras, como num dia de sol

Publicado na categoria: Poesia
Sábado, 28 Agosto 2021 09:57

Coluna da Maria Luiza 18 - Securas e Valsa

 

 

Securas e valsas

 

Quem entardece no tempo, sabe que o sol nem sempre se põe contente. Dias tem que parece chorar lágrimas de sangue, ardentes e de secura ímpar. São dias em que a fumaça e a fuligem da doença humana embaçam seu brilho. É assim que assisto hoje um final de dia, desde a minha janela.

Só quem entardece no tempo, pode avaliar uma boa e distante lembrança, quando ouve a Valsa das Flores, por exemplo. A valsa que dançou com o pai na celebração dos seus quinze anos. No meu caso, na sala da casa da minha avó, o que na época a mim parecia um salão encantado. Nem sei de onde apareceu o som eternizado por Tchaikovsky, naquele lugar distante da Europa e dos centros culturais do país.

Quem enrubesceu aos primeiros olhares apaixonados e se deslumbrou com estreias de beijos também pode ter lindas lembranças colecionadas.

Quem entardece no tempo tem histórias e cicatrizes. Tem queloides e tem rugas. Quem entardece no tempo pode ter olhares complacentes para paisagens tristes. Tem sorrisos doces para poesia e arte. Tem resiliência porque sabe que o sol se põe e a noite afaga a dor das lágrimas em dias não felizes.

Sabe que o dia renasce e com ele outra oportunidade. Sabe que o cotidiano pode ser redescoberto e ressignificado.

Quem entardece no tempo, chora em cumplicidade com o sol quando sente sua impotência diante da ganância desmesurada do homem, incapaz de perceber a possível finitude do planeta e segue sugando, sugando, como se o seio da terra fosse inesgotável no aleitamento vital!

Quem entardece ... Ah, entardece e permanece com muitas perguntas diante do Universo e seus desafios seculares.

 

Por Maria Luiza Kuhn

26 de agosto de 2021

 

Publicado na categoria: Coluna da Maria Luiza
Quarta, 25 Agosto 2021 10:27

O Último Trem

Tênues imagens respiram no ar rarefeito da minha memória
Que conspiram silenciosamente a parecer que de fato as vejo
Não como miragens ou ficções que são, mas reais e presentes
Tudo acontece categoricamente contra uma nova distância
De seres que nunca estiveram presentes, todavia são um só
No outro lado da rua as pessoas transitam, inscientes a tudo
Na gare da imaginação o trem já embarcou seus passageiros
Os trilhos dessa estrada de ferro seguem a direção dos olhos
Fixos no sonho adiante, mansos, perdidos na distância azul
Todos os viajantes cada um sentado no seu lugar, soa o apito
A música toca suave nos vagões preenchendo-os de nostalgia
As horas impulsionam, discretas, os ponteiros de meu relógio
E a lua, completando o cenário, traça seu arco no céu noturno
Brancas nuvens leves que imitam ovelhas sob a prata do luar
As frases que nunca foram ditas amordaçam minha coragem
Desembarco na estação da desesperança com todas as malas
Meu trem segue deixando um rastro de fumaça branca no ar
Minhas imagens e miragens se vão com ele sem dar um aceno
Aos poucos calam no silêncio dessa plataforma sempre vazia
Quantos trens haverão de partir até ter meu coração de volta
Prendo a respiração e as lágrimas. A sina do poeta é ser assim.

Prendo a respiração e as lágrimas. A sina do poeta é ser assim.

Publicado na categoria: Poesia
Sábado, 21 Agosto 2021 12:18

Tempus Fugit

 

Agora que da juventude só restou saudade

Sei a dor da poesia que se esconde na noite

A dor de ave migratória a voar tantos mares

Rememoro os aromas de um antigo perfume

Não sou mais um menino de caligrafia frágil

Mas, nada olvidei mesmo ao longo dos anos

Nem o gesto trêmulo de empunhar as tintas

E fazer que as palavras soem como violinos

Lembranças luminosas de beijos memoráveis

A acelerar o peito como trem desordenado

Para senti-los no vento do outono em maio

Na senda do frio de um inverno prematuro

Onde cintilam, brancas, as folhas do poema

Sei da pergunta que caminha desde sempre

Cingida de sentimentos em nossas sombras

Essa distância do que amamos e não temos

As paredes onde pendemos vivas memórias

O medo de mostrar-se mistérios profundos

Vividos à luz de velas, desse vinho tão veloz

Para nos esclarecer que na realidade o amor

É o querer nascido luz que se fez eternidade

Publicado na categoria: Poesia
Quinta, 19 Agosto 2021 11:27

Desconhecido

Desconhecido

Como você é?

Sei que falo, desabafo

mas não sei quem é.

Sei que em algum lugar está

Mas onde?

Não sei o que quer

nem sei o que quero.

Mas algo me faz buscar o desconhecido.

Algo me leva a dar passos.

Sem me importar.

Quero falar,

quero conhecer

Tenho medo

tenho receio

mas tenho vontade

de buscar o desconhecido

me deixar levar pela aventura

e quem sabe 

Me conhecer.

MIF- 17/08/2009

Publicado na categoria: Poesia
Quarta, 18 Agosto 2021 15:55

Apocalipse 4715

O céu segue coberto de infausto cinza enquanto tarde se vai

O estilar de chuvas negras há muito habita este árduo parcel

Dos antigos sonhos cativos na luz, só restam remotos signos

Nos galhos secos do arvoredo já não lhe pousam os pássaros

A ausência também se despenha, sorrateira no amargo do fel

No espelho baço da memória que exprime uma réstia de dor

Da ave caída, da paixão esquecida e da solidão que precipita

 

Não há lembranças a abrigar, que se foram daqui uma a uma

Logo virá o silêncio, as linhas em branco e o espelho partido

E, quando se for o poema, morrer-lhe-á aí o solitário coração

Não haverá remotos vestígios dessa vida que um dia se viveu

Sobrará o tempo de vozes caladas, estremecidas. Desventura.

Chegará enfim ao sono que nenhuma pálpebra poderá ocultar

Sob um sol de mistério, sem azuis celestes e sem alvas nuvens

 

À margem da estrada vê-se as casas com suas portas cerradas

Nas janelas já não há os olhares trigueiros a seguir os viajantes

São apenas molduras rotas que se destacam na parede caiada

A flor jamais rompeu, o sino toca e dá conta de que se morreu

Tudo se esconde no cinzento, sem nenhuma forma ou beleza

No frio metal de lembranças mortas, até o tempo entristeceu

Amanhã serão sombras a beber na fonte, do silêncio de Deus

 

A jovem virgem de olhos brilhantes colhe rosas ao crepúsculo

Ouve ao entardecer o chamado da morte a ressoar na floresta

Silenciosas, abrumadas flautas do outono, ressoam no juncal

O vento sibilante tilinta nas avelaneiras distantes e obscuras

Há uma luz que se extinguiu na pena que reescreve o poema

Entre os salgueiros onde moravam almas felizes, só há aflição

Nem a lua, orgulhosa, voltará a chegar de novo na hora certa

 

A brisa da tarde jamais soprará nos trigais,

a doce órfã que colecionava flores raras,

enquanto no seu íntimo sonhava com a chegada

de um noivo celestial, um dia, de regresso a casa,

encontraram seu corpo em meio ao espinhal.

Publicado na categoria: Poesia

 

O menino e a utopia:  da poesia para a prosa!

 

 

Um amigo poeta carregou seu violão para o plantão noturno que faz na emergência médica do serviço público (SUS). Ele é enfermeiro. Refere o quanto tem sido difícil enfrentar o trabalho em tempos de pandemia.

É de se imaginar. O poeta dedilha seu violão nas madrugadas quando o plantão silencia.

Relata, entretanto, que difícil esconder lágrimas furtivas que teimam em aparecer quando se depara com gritantes diferenças sociais.

Os pequeninos aparecem amiúde doentes e desnutridos.

 

A poetiza amiga ofertou-lhe versos.

Ei-los!

 


Carrega na mente
A obrigação do ofício
Mais uma noite: Plantão
No peito dá colo ao eterno menino e sua utopia
Sons e versos que brincam no coração.

Passeando...

Enquanto isso rompe na madrugada a urgência de um

outro menino: Um ferido
Febril e faminto, de muitas fomes
(Hoje, comeu o que mamãe?
Ora doutor, hoje ganhamos biscoitos recheados. Banquete.)
Por isso glicose vertendo na pulsão desta veia
O menino doutor
(Todo jaleco branco denomina)
Desolado vislumbra a desnutrição
Naquele corpinho deitado na maca
Tão ausente de infância
Suturas na carne, ataduras na pele
E a madrugada torna-se silenciosa
Outra vez no plantão
O curador do corpo, não satisfeito
Busca sua alma poeta
Abraça o violão e se permite chorar
Não basta, ele sabe
Menestrel da madrugada desperta
e se irmana à alma do menino na maca

adormecido por instantes
Abraçando invisíveis meninos do mundo
dedilha canções.
Acalma seu coração
Enquanto imagina a infância

se desenhando num céu de utopia.

 

 

Maria Luiza para Hang Ferrero!

8/8/2021

 

Publicado na categoria: Coluna da Maria Luiza
Segunda, 16 Agosto 2021 22:28

Supersticiosa

 

 

 

Supersticiosa

Não gosto de números ímpares.

Mesmo sendo, na numerologia, um cinco.

Me dão a sensação de metade, de incompleto,

de mal terminado.

Pares me dão a impressão de harmonia, 

de equilíbrio, de ciclos fechados.

Assim como também não gosto de gavetas semi  abertas, 

de ponta de pés descobertas, de gente que se acha esperta

e de coisas erradas que fingem serem certas.

 

 

 

 

Publicado na categoria: Poesia
Página 1 de 3