Aplicado o filtro por Data: Junho 2021

Quinta, 29 Julho 2021 08:51

CANÇÕES DE DESPERTAR

A taça de conhaque sobre a mesa refletia a luz débil, enquanto o violeiro, absorto, proferia sua melancolia em notas sutis e em baixo volume, quase que imperceptível... Era como queria seguir naquela noite, naquele palco, naquele bar: incógnito.

De súbito, uma mulher se destaca de um grupo e se aproxima do palco:

Aperte o play

- Olá, tudo bem?

Ele apenas acena com a cabeça.

- Teria como, por favor, tocar uma música mais animada? – com um olhar de piedade e mãos unidas, em forma de prece. – Você está me deixando triste...

Ele a olha nos olhos dela, por um instante, e desfere um sorriso torto junto ao seu olhar desdenhoso.

- Interessante...

- O que?

- Não imaginava que eu fosse possuidor desse tipo de poder...

- Como assim?

- Deixa para lá.

- É que hoje é aniversário de uma amiga e estamos comemorando...

- Entendo... E quer que eu as faça felizes? Acredita realmente que essa é minha responsabilidade? Digo... Não posso imputar em você algo, como você mesma disse: “tristeza”... Crê mesmo que sou capaz de fazer isso com você ou com quem quer que seja, ou o contrário?

- Não sei... Apenas queria escutar algo mais animado, agitado...

- Será que se eu tocar um som bem sensual, seria capaz de fazer você tirar sua roupa?

- Claro que não... – arregalando os olhos.

- Pois bem... Mas tenho que lhe dizer que está certa em denotar que a música corrobora para seu estado “deprimido”... O que não significa que ela seja capaz de "criar" o que já não exista, ou seja, neste caso, apenas revela o que ESTÁ em você. Pode ignorar ou não, mas esse sentimento está aí e prefere, até quando: não sei, continuar ignorando ao escolher estampar um sorriso no rosto e fingir que nada está acontecendo... Enfim... Desculpe-me pela divagação. Tudo isso o que está acontecendo agora com nossa sociedade, essa superficialidade, tem mexido comigo... Apenas estava colocando para fora, me servindo da música, o que estou sentindo.

- Tudo bem... Mas está certo no que disse a respeito dessa tristeza que venho ignorando em mim. Como sabe?

- Não sei... Você quem me disse quando chegou aqui.

- E o que acha a respeito do que está acontecendo com o mundo... com as pessoas?

- Não acho nada. Apenas sei que enquanto não prepararmos nosso corpo e espírito para nos harmonizar com a realidade, continuaremos, pois, a atirar para qualquer lado sem nada acertar... Tudo continuará igual. Essa ilusão de liberdade e pseudo felicidade é o que está nos mantendo no fundo do poço.

Ele se apoia no violão, toma um gole de seu conhaque.

- O que você está tomando? – Ele pergunta.

- Cerveja...

- E quem escolheu para você essa bebida?

- Eu mesma, ué! Olhei no cardápio e pedi essa em específica.

- Certo... Responda-me: existe alguma cerveja artesanal no cardápio?

- Não tenho certeza, mas creio que não. Somente em lugares específicos, né?

- Pois é... Então escolheu a cerveja que é oferecida pela maior parte dos bares. Sabe por que essas cervejas são oferecidas na maior parte dos lugares?

- Porque são as mais conhecidas?

- Sim... Porque mantem o poder de venda e massacram quem tenta competir com elas. Portanto, perceba: se essas marcas dominam o mercado, onde está a sua liberdade de escolha?

- Humm... – Ela franze o cenho e acena com a cabeça.

- A ilusão sobre a liberdade é o que nos mantém realmente prisioneiros, pois permanecemos passivos e minamos a nossa capacidade de saber de que lado estamos.

- E existe uma saída para isso? Vivemos numa sociedade predatória, certo?

- Não acredito em uma saída... Acredito na consciência. Não é fácil lidar com a ideia desse domínio invisível, pois, observe: implícito em nossas ações, seguem os manipuladores atrás das cortinas... Movendo-nos como se manipulam marionetes. Mas enfim... São tempos difíceis, mas se quisermos mudar algo, devemos começar a tomar consciência das coisas e é necessário crer para ver e abandonar o velho jargão... Mas enfim. Vá curtir a festa com seus amigos... Tocarei algo mais amistoso.

Ele brinda com ela e sorri.

- Obrigada... – Sorrindo. – Você é bem sério, não é? Entretanto... Apreciei a pequena conversa. - e se vira para retornar à mesa.

- Apenas, antes de ir - diz ele -, pense em uma coisa: você já viu alguém, com uma espada em riste, com um sorriso no rosto?

- Eu jamais vi alguém com uma espada... 

Ele olha para ela e, embora sarcástico, finalmente sorri.

https://www.youtube.com/watch?v=gQiS6ml0eDo

Publicado na categoria: Coluna do Santiago
Terça, 27 Julho 2021 19:51

Além da muralha

Feito obra inacabada,

casa interditada,

grade alta, acorrentada,

só abre de lá pra cá.

As vezes por uns habitada,

permanece isolada,

vidraça trincada,

nem sempre esperança há.

Mas se ergues os olhos

e avista além do portão,

verás uma luz, um clarão, 

a vida que lá fora chama...

um alento, um sorriso, um ninho, 

uma lanterna iluminando o caminho, 

braços abertos e um coração escancarado

que bate por ti e te ama. 

 

É só abrir o cadeado. 

 

Publicado na categoria: Poesia
Segunda, 26 Julho 2021 22:54

Transbordamento

Tanto para dizer... 

E as palavras, tão carregadas de sentimento,

que fogem do turbilhão de pensamentos,

brincam feito criança balançando nas cordas vocais

e se recusam a se fazer som.

Tanta cumplicidade, energia que se completa, 

felicidade sublime na realidade paralela. 

Olhos que irradiam amor mediante uma presença na tela, 

Palavras que simplesmente somem, 

A vida real aqui e agora tão complexa. 

Alma inquieta transcende uma poesia desalinhada, 

Tanta falta... Tanta saudade... 

Tanto a ser vivido... 

Tanto tudo... e nada. 

E na espera de um próximo poema, 

antes que o vinho entorne, 

antes que algo tão lindo vire tormento, 

ou a coragem muda esta cena, 

ou preciso aprender como se faz um esquecimento. 

 

 

Publicado na categoria: Poesia
Sexta, 23 Julho 2021 12:11

EQUILÍBRIO

 

Festeje com toda força sua alegria, mas saiba,

Que sua tristeza dorme e haverá de acordar um dia,

Chore com todo ardor sua tristeza, sabendo,

Sua alegria dorme e acordará com toda certeza.

 

De quantas dores é preciso sofrer para aprender,

Mesmo tendo escolhido a anestesia da ignorância,

A professora vida sequer perguntou meu nome,

Pondo-me a digerir como um mendigo que não tem fome.

 

Aprendi que é em silêncio que se flameja a alma,

Senti na quietude da mente como a ânsia se acalma,

Do alto da experiência que nunca pedi para ter,

Entendi que é longe do ego o melhor lugar pra viver.

 

E agora volto à infância e desaprendo com sabedoria,

Pois sábio é aquele que aprende um pouco todos os dias,

Flutuando em equilíbrio buscando toda grandeza,

De viver sem nenhum esforço seguindo minha natureza.

 

 

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Sexta, 16 Julho 2021 09:19

*Chagas*

 

Olhando as pinturas expostas nas paredes do inconsciente

Todas pintadas com vermelho rubro

De vinhos passados da validade

As chagas perfuram esta realidade mórbida

Expondo as vísceras

Daqueles que por si mentem

E se enganam

 

Diminuta luz persiste

No candelabro bruxuleante

Iluminando réstias voláteis

A voar

Por um paraíso distante e frio

 

Da boca murcha escapam odores antigos

 

Um não ressoa

 

O sim, ficará para mais tarde

 

Por hora – horas sem fim - apenas o silêncio das árvores

E o assovio surdo do vento aos meus ouvidos.

 

Angela Lazzari

(Aos dezesseis dias do mês de Julho de 2021).

Publicado na categoria: Poesia
Sexta, 16 Julho 2021 09:05

*Miserabilidade*

 

...convença-te homem,

da fera reinante escorrida pelo gargalo

parceira da mão que te oprime

e ilude

 

...a infinitude que há de evitar-se

dentre pergaminhos sujos

maltrapilhos

 

...vozes ignorantes

desafiam o cambalear da cepa consumidora

reinante em tuas profundas raízes

 

...conforma-te com a tua miserabilidade

na tua chaga exposta que a ninguém convence

 

...sobrar-te-á, quiçá, o beijo que não te espera

e que dentro do poema nada mais é

do que infâmia dos teus sonhos acabados.

 

Angela Lazzari

(Aos dezesseis dias do mês de Julho de 2021).

Publicado na categoria: Poesia
Sexta, 16 Julho 2021 08:58

*Mais ou menos - é o que parece ser*

 

Das mãos transbordantes do rei

O aceno perturbador à plebe cega de destinos

E engaioladas na miséria da alma

 

Como súditos suplicantes

Avistamos o cortejo dos poderes (já) tão inaceitáveis

 

O arco e flecha do salvador – por entre galhos verdes de esperança

Como um heroico Hobin Hood, falha na mira da maçã.

 

Somos na crua passagem do tempo, foras da lei

Fora da verdade – essa maldita que sempre se cala.

 

Tudo é lenda

Sonhos inalcançáveis

Mentiras atoladas no pasto da ignorância

 

Mais ou menos – é o que parece ser.

Se não for – a ninguém incomoda.

 

Fortes ou fracos,

Resta-nos alguns punhados de poemas.

 

Estes – talvez – sirvam de couraça

Quando o coração, por certo (ou não)

Pretende dizer alguma coisa.

 

Angela Lazzari

(Aos dezesseis dias do mês de Julho de 2021).

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Quarta, 14 Julho 2021 11:03

DESTINO

O cair da noite trazia consigo o frio cortante típico da estação em que caem as folhas. Uma garoa perturbadora acabara de começar e aquele homem entra no bar enquanto ainda está seco.

Ele tira das costas sua mochila pesada e a coloca no banco ao seu lado, bem rente ao balcão do bar. Atrelado à mochila está um pequeno aquário com um peixinho vermelho o qual ele chama pelo nome de “Destino”. Ele desatrela da mochila o aquário que lembra, pelo formato, uma lamparina.

O barman vai até ele.

– Não é permitido animais aqui… – Ele aponta para o cartaz na porta –  mas abrirei uma exceção já que esse parece inofensivo.

– Destino…? Não se preocupe… Ele não causará problemas.

– Vai querer o de sempre?

O viajante olha para o Barman.

– Jamais vim aqui antes… Não me é estranho esse lugar, mas tenho certeza que jamais vim aqui.

– Deixe de ladainha e aceite esse trago por minha conta… A partir do próximo, você paga com o que tiver.

– Aceito…

– E então? O que carrega de tão pesado na mochila?

– Não havia me dado conta do quão estava pesada até esse momento… – ele volta seus olhos para a mala ao seu lado. – Esse é o meu legado… Não cabe a você saber.

– E para o peixe?

– Destino? Apenas artemias… Vivas, por favor.

Eis que no mesmo instante uma jovem de cabelos dourados como o Sol nascente esbarra nele fazendo-o derramar um pouco da bebida em sua camisa já úmida… Ele mal olha para a camisa, visto que permanece hipnotizado, como por encanto, para seu serpenteante corpo enquanto caminhava.

– Eu conheço essa menina… Ela…

– Sim… Já foi sua. Assim como já foi ou será de todos. Esqueça-a…

– Do que está falando? Acha que estou tão desajustado para competir por uma mulher como ela?

– Não duvido, filho… Apenas temo pelo que terá de abrir mão para tê-la, já que não tem muito para dar. Juventude é uma meretriz que encanta e seduz os homens em determinado momento de suas vidas… Eles a escracham ansiando pelo prometido Poder, oriundo da maturidade… Depois de serem sobrepujados pelo Desejo incansável, se tornando escravos dele, voltam rastejando… Propondo-se a dar suas míseras moedas arrogantes em troca de seus favores. Por isso ela os esnoba… Assim com fez com você agora, ao deixar seu perfume pelo caminho, escancarando suas entranhas para poder mais uma vez, consumir-se em seu próprio remorso.

– Quem sabe você não poderia…

O homem atrás do balcão ri… um riso debochado.

– Acredita mesmo que pode barganhar comigo, garoto? Tudo o que tenho agora é o que lhe sirvo… Cabe a você aceitar ou não. Apenas não me peça para lhe trazer algo de volta.

– Desculpe… Está certo. Se quiser ir servir os outros… Não quero lhe ocupar

– Preocupe-se com você. Os outros não são da sua conta.

– Ok… Não está mais aqui quem falou.

O barman o serve de mais um trago.

– A garrafa acabou… Quer que abra outra?

– Mas já…? Acabei de chegar e mal terminei minha dose?

– Não está atento, garoto… Bebeu uma garrafa inteira e não se deu conta… Como sempre.

Então o homem se levanta e, finalmente, percebe que está um pouco cambaleante. Não o suficiente para lhe derrubar, mas compreende que fugiu do seu estado normal.

– Não… Não precisa abrir outra. A viagem ainda é longa e preciso me manter o mais sóbrio possível.

– Você é quem manda.

– Preciso ir… Quanto eu devo?

– Nada… Como lhe disse: esse trago já está pago por mim.

– Posso fazer uma pergunta?

– Já fez…

– Como “já fiz”?

– Fez-me uma pergunta ao me dizer: “posso fazer uma pergunta?”.

– Tá… Ok. Posso fazer duas perguntas?

– Sim.

– A vida é um sonho?

– Alguma vez já esteve certo de que estava desperto realmente?

– Saiba que é falta de educação responder a uma pergunta com outra…

– Isso não é uma resposta. Não lhe disse que responderia, apenas que podia perguntar.

– Enfim… – ele coloca sua mochila nas costas e olha atentamente uma mulher, com o rosto coberto com um véu, num canto escuro do bar com um tabuleiro de xadrez montado. – quem é aquela mulher?

– Esqueça-a… Ela está esperando alguém mover…

– Nossa! – ele se surpreende. – É uma jogada óbvia… Vou lá resolver isso e…

– Não ouse subestimá-la, filho… Não seja impetuoso. Algum dia terá realmente uma boa jogada e ainda assim perderá… Mas, ao menos, seja paciente e, quando chegar a hora, se entregue com honra.

– Mas é uma jogada óbvia…

– É o que muitos pensam antes de serem derrotados final e fatalmente. Não se ative… Terá algum dia a sua chance e ela estará lhe aguardando pacientemente neste mesmo lugar… E a todos os outros também. Há rumores de que apenas um homem em toda a história conseguiu derrotá-la… Mas, como disse… São apenas rumores.

– Está me dizendo que ela é…

– Sim…

– E você?

– Eu…? Alguns me conhecem por inexorável, inflexível, incorruptível e democrático…

– Tempo…

Ele apenas acena com a cabeça enquanto o menino ajeita sua mochila e caminha até a porta. A noite e o frio parecem impiedosos do lado de fora.

– Tenho certeza de que quando eu abrir essa porta, acordarei… – diz para o barman que apenas permanece apoiado no balcão com um sorriso no rosto.

– Não está esquecendo nada, homem?

Ele volta seus olhos para o peixinho inquieto sobre o balcão. Seu nome é Destino. Porque ele sabia: no fundo, ainda que percebesse agora o peso que carregava em sua mochila… Abandoná-lo, o faria condenar, o tempo que lhe restava, ao verdadeiro vazio.

https://www.youtube.com/watch?v=IQpAFKAnr_8

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Sábado, 10 Julho 2021 15:30

Declamando poesia

Declamando poesia

Mar, grande rio a me encantar

Sol, a me bronzear

Lua, sempre no mesmo lugar

E tudo é poesia

Escrita no passado

Declamada no presente

E hoje o que é poesia?

É sorriso é alegria

É sorte além da morte

Poesia pura e simples poesia

Sem registro na história

Sem fórmulas de escrita

Fala-se em amor, ternura

Tem-se paixão, tesão

Tudo é poesia

Tudo é poesia

É sentimento, é encanto

É dor ou desamor

Mais ainda é poesia

Na imagem

Na imaginação

Não importa se há papel ou não

Existe poesia

No ar que eu respiro.

Mif /17/01/94

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Sexta, 09 Julho 2021 10:27

Teu Ninho, Nossas Asas

Busquei me fazer Ninho
Da melhor matéria-prima
Me recolhi em mim
Para acolher a ti

No corpo-ninho
Mergulhei nas minhas cores
Para colorir tuas asas
Tentei orientar, conduzir
Proteger e nutrir
Tola mamãe
Quando a-cor-dei
Percebi que foste tu
que me emprestaste tuas asas!

Generoso, me permitiste voar novamente
voltar à sabedoria da criança
para que um dia devolvesse tuas asas
e te deixasse voar
levando um pouco de mim.

Logo mais
teu mundo você vai ganhar
e se por acaso,
voltando alto,
te perderes um dia
tenho certeza
que sempre saberás
para onde voltar…

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