Aplicado o filtro por Data: Mai 2021

Segunda, 28 Junho 2021 21:23

FERAS

FERAS

 

                                                       Por Cassiano Santos Cabral

 

Todos nós em sã consciência defendemos o regime democrático, a pluralidade de ideias, a liberdade de manifestação e de opinião, mesmo porque tais garantias são asseguradas no texto constitucional.

Soa bonito dizer que somos democráticos, que somos sensíveis a luta das minorias e, que é através do voto, exerceremos o nosso direito à cidadania. Ninguém ousaria discordar destas premissas, mas na prática o que observo é justamente o contrário: o ditatorismo de dogmas e de ideias pré concebidas sejam elas no campo político ou religioso e coitado daquele que discordar da nossa opinião, afinal somos “deuses” infalíveis.

Percebo que a pandemia aflorou este senso comum o de que a minha ideia deve sempre prevalecer em relação a do outro. Caso contrário, faremos o impossível para que o outro mude de ideia, comungue das mesmas opiniões que as nossas e reze pela nossa cartilha.

Para tanto, não economizaremos em argumentos, evidentemente aquele que nos convém, apesar de sabermos que toda a moeda tem dois lados, mas não queremos saber deste campo dialético, embora vivamos no regime democrático. Na prática, entretanto, a realidade é diametralmente oposta.

Simplesmente não aceitamos aquele que partilhe de uma opinião contrária da nossa, não ouvimos o argumento contraditório, não nos damos trabalho de sequer ponderar a opinião diversa. Estamos sempre certos e não admitimos que alguém pense de maneira diferente da nossa e vale a regra que se o nosso argumento não convencer, então a amizade não valerá mais a pena.

Onde estão os valores democráticos? Onde está a liberdade de expressão que tanto defendemos? Defendemos a nossa, mas e a do outro? Por que exatamente eu sempre estou certo e o outro errado. Quem sabe não estamos parcialmente certos ou parcialmente errados, afinal ninguém e nenhuma instituição é totalmente boa ou ruim. Somos falhos e se não somos é porque nos consideramos deuses infalíveis.

Bastaria que tangenciássemos as diferenças de pensamentos e não tocássemos no assunto alvo de discórdia. Poderíamos falar daquilo que nos une, dos interesses incomuns, mas preferimos sempre o confronto, o embate o que muitas vezes leva a inimizade.

Lutamos como feras selvagens. Na guerra todos perdem. Na discussão não há vencedores. No ódio não há espaço para luz e para a oxigenação de ideais.

Continuamos presos e enclausurados. A lição não foi posta em prática. A Constituição não foi lida. O valor da tolerância não foi apreendido e tampouco a importância do silêncio e do bom senso para evitarmos discussões.

Democracia, sim, mas não só para mim e sim para o outro por mais diferente que ele seja de mim. E respeito.

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Tempo de Tainha

Não se fala de safra de grãos por aqui, no litoral catarinense. Fala-se da safra do peixe tainha.

Novidade para quem nasceu longe do mar.  Fico atenta. Tudo começa no mês de maio quando os “ranchos” começam a ser construídos à beira-mar. Placas  mostram a autorização dos órgãos competentes e aí vem os barcos dos pescadores. Cada qual com sua identificação e enfeitados para a empreitada. É lindo de observar o cuidado com os barcos.

De quem? Deles, os pescadores. Estas figuras que parecem se entender tanto com o mar que por vezes chego a invejá-los.

Penso que conversam com as ondas seguidamente, porque são elas que trazem as notícias mais alvissareiras sobre cardumes de tainhas se aproximando (é o que me contam). Acho que é uma língua que só a eles cabe entender, e respeito muito esse dialeto. Observado este fato, é feito o tal de “lanço”. Tudo muito rápido e tempestivo, pois se tem pressa para não perder a vez. Os pescadores se agitam, sobem no barco, assumem os remos.  O barco passa a primeira onda, a segunda, a terceira, e a rede vai sendo esticada. As remadas dos pescadores são ritmadas como se diuturnamente ensaiassem tal maratona. Arredondam a rede num local que percebem ser possivel  localizar o cardume. Em seguida, vem o trabalho dos puxadores. É incrível o trabalho em equipe desta turma que fica na areia e puxa a rede, que normalmente vem recheada de peixes. Deveria servir de exemplo à equipes de alta performance, porque ninguém se omite nessa etapa de força e trabalho, pois é agora ou nunca. Quando assisto, fico extasiada.

E quando acontece o milagre da multiplicação dos peixes (parece ser), eles começam a separá-los por hierarquia de tamanho. Neste exato momento, lembro da imagem do meu avô separando frutas por tamanho para que a divisão fosse equânime entre nós. Um pegava uma fruta maior, a média e a menor. Depois podia se começar de novo, nesta ordem. Assim, a divisão dos peixes. Não sei, dentre eles, quem fica com a maior quantidade. Deve ser o dono do capital, como sempre, ou seja, o dono do barco. Vendem o produto ali mesmo, na praia, e também fornecem a restaurantes e distribuidores da região.

Encanta-me no ofício de pescadores, sua idiossincrasia. Pacientes, os homens confiam no mar e na benção da Nossa Senhora dos Navegantes. Escutam o vento, interpretam a lua. Enquanto esperam, fiam redes, limpam os barcos, contam causos, festejam a vida, com uns tragos de cachaça misturados com alegria.

Em julho acaba a safra e a autorização para a pesca artesanal. Os ranchos são desfeitos e os barcos guardados. Desconheço onde permanecem os pescadores até a próxima safra.

Talvez, como os peixes, saibam a hora certa de reaparecer.

Oh, mundo diverso esse! Quanto temos a aprender e vivenciar todos os dias.

Por Maria Luiza Kuhn, junho 2021

 

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Quarta, 23 Junho 2021 00:09

A ÁRVORE DESCONTENTE

Conta-se que uma árvore se queixava, quando conversava com um jovem felino que a escutava atentamente - enquanto se servia dos pequenos frutos caídos - sobre a ingratidão dos bichos que viviam a se aproveitarem dela.

- Pois é, amigo Gato... No auge da primavera eles se reúnem à minha volta, bichos de todas as espécies: tem zebra, cavalo, macaco, elefante e até alguns répteis... É a maior festa que fazem aqui e isso dura por longos meses até a chegada do verão.

- Mas porque se queixa?

- Porque são mal educados, pois nada me oferecem... Vêm aqui e fazem a maior bagunça, dançam cantam, flertam... O que me indigna é que, na chegada da seca, ninguém é capaz de vir me servir um pouco d’água sequer... Abandonam-me aqui e simplesmente se esquecem da minha existência, condenando-me, meses a fio, à solidão e à miséria.

No mesmo momento, enquanto escutava seu lamento, o gato escalava através de seu imponente tronco com o fim de se esgueirar entre seus galhos e se aconchegar em alguma sombra no alto, entre as copas.

- Creio que eles não fazem isso de propósito, dona Árvore... Estão apenas seguindo a natureza deles. Tem certeza que eles não trazem nada de bom?

- Tenho sim e já tomei minha decisão: a partir de hoje não mais produzirei frutos... Quero ver se esses bichos, daqui por diante, vão, ou não, dar conta da minha existência ao se depararem com a ausência dos meus encantos.

- E você é capaz de fazer isso, dona Árvore?

- Sim... Basta apenas selecionar os nutrientes mais específicos do solo e virar as folhas para baixo quando o Sol estiver a pino.

- Tem certeza disso?

- É o que eles merecem por serem tão ingratos.

E assim foi... Durante meses, a dona Árvore seguiu seu plano e, na chegada da primavera e das chuvas, permaneceu reclusa e comedida enquanto, um a um, os animais passavam por ela e se espantavam por ela não mais representar o esplendor de outrora e, por fim, desistiam e iam embora.

Porém, seguindo seu plano e, com o minguar das estações, inevitavelmente a dona Árvore se surpreende ao ver crescer em si, espinhos que surgiam de todos os lados. Foi uma surpresa, pois a dona Árvore não havia planejado aquilo e, naquele momento, viu-se acometida pelo pavor.

Com o tempo, suas últimas folhas se desprenderam e deram lugar a apenas galhos secos e escarpados que nem mesmo sombra eram capazes de produzir. Eis que o seu velho amigo felino reaparece:

- O que aconteceu, velha amiga? Onde estão seus frutos como de sempre?

- Algo deu errado, amigo... Algo que não fui capaz de prever.

Naquele instante, por puro instinto, o jovem felino se lança a escalar o tronco de sua velha amiga Árvore, como sempre fizera, e eis que se surpreende com seus espinhos. Ao ver-se machucado, com dor e sangrando, ele se vira e vai embora, também instintivamente e jamais retorna, visto que, a partir daquele instante, aquela velha árvore apenas perigo lhe representava.

Sussurram rumores de que a dona Árvore ainda viveu por longos e longos anos, até se dar conta, principalmente na chegada da primavera, do quanto sentia falta da companhia e dos tempos de alegria... Alegria essa, ofertada por aqueles que vinham se servir dela, mas que agora, festejavam e se esbaldavam em outras árvores distantes...

Conta-se também que, para a desgraça e ensinamento da dona Árvore, sue maior amigo, Gato, não foi capaz de sobreviver às infecções causadas pelos espinhos que encontrou quando, seguindo sua natureza, buscara nela um punhado de sombra, aconchego e um bom lugar para descansar.

***

O amor percorre, em primeiro, por aquele que o manifesta.

o aNTI-hERÓI.

Publicado na categoria: Coluna do Santiago
Terça, 22 Junho 2021 13:19

À Inspiração

À Inspiração Que eu me cale, de olhos cerrados, quando a sua voz suave, inebriante, mas quase inaudível aos duros de coração, se fizer ouvir nas asas do vento... Que eu saiba captá-la, intensa, poderosa, em toda sua essência e magia, como quem colhe rosas, e mesmo ferido pelos espinhos, é capaz de sorrir ao ofertá-las a alguém especial... Que eu me renda, menestrel de seu fascínio, quando no meio da noite, furtiva, invadires meus sonhos; e sem pudores, tomar conta de mim, e lançar-me em um mar de sentimentos, barco à deriva nessa tempestade de loucuras... Que eu me deixe afogar, bêbado, entorpecido de amores, quando vieres como onda gigantesca mergulhando-me em divagações; e submerso, levar-me ao sabor do vento impetuoso do bem querer... Que eu me deixe iluminar, quando o brilho das estrelas anunciar sua chegada, e sob o efeito de sua luz, refleti-la como se fosse um farol, no véu escuro da minha solidão; e assim, guiado por seu clarão, eu, incauto viajante, me encontre em ti!... Que eu ame, sem pensar nem hesitar, e alentado por sua força, descubra-me mais e mais dependente de você; que eu saiba venerá-la, quando à tarde, em silêncio, contemplar de minha janela, a beleza inexprimível de um pôr de sol... Que eu a veja em tudo, cada olhar, todo sorriso, na manhã que se inicia, na chuva que molha a cidade; que eu te viva intensamente, submisso, sedento de sua força, que em palavras e canções, em trovas e rimas tantas, os poetas exaltaram, e eu, mero aprendiz, ouso agora enaltecer, ainda que timidamente, a chama que acende a alma, a Deusa Inspiração!

Publicado na categoria: Poesia
Sábado, 19 Junho 2021 22:27

TRAIÇÃO

Não é uma dor normal, é um aperto estranho no peito,

Não sinto sede nem fome, só essa coisa que me consome,

Olhos fixos no nada, um ser terminal vegetando,

Na garganta uma herança de quem passou o dia chorando.

 

Não consigo nem lhe odiar, não sei se quero morrer,

Não param de me ligar, mas não quero falar com ninguém,

Outra noite vem chegando, faço força pra me arrepender,

Porque tanta dó de mim, se já conhecia você.

 

Mesmo sabendo de ti, quando percebia seus flertes,

Não passava de uma curtição, que abalasse nossa relação,

E agora ressoa o ditado de um grande amigo meu,

O que pensa que perdeu, na verdade nunca foi teu.

 

Meu consolo é que não consegue falar olhando para mim,

Sei que não tem respostas, por tudo o que aconteceu,

E como no mar revolto, a tragédia não vem sozinha,

Não podia deixar de ser com a minha melhor amiga.

 

Quero contar para o mundo, todos precisam saber,

Sentimentos se confundem, acho melhor esconder,

Quem sobrevive a uma guerra, sempre fica mais forte,

Só resta ainda uma dúvida, se desejo-lhe sorte,

Ou morte!!

 

Publicado na categoria: Poesia
Sábado, 19 Junho 2021 22:23

OCEANO QUANTICO

O tempo passa caminhando ao infinito,

Pelo espaço tão palpável no abstrato,

Quando a mente fluir no campo magnético,

Sinta nosso existir harmonizando com o universo.

 

Partículas divisíveis do vácuo quântico,

Onde o Todo nos encontra e unifica,

Um dia entenderemos que tudo é uno,

Somos irmãos de tudo que há em vida.

 

Quem sabe assim, ao descobrirmos nossa raiz,

Deixaremos de nos agredir uns aos outros,

Seremos galhos de uma mesma árvore que refloresceu,

Doando frutos doces,

Como o Amor de Deus!

Eu consigo sentir,

E tu podes...

Publicado na categoria: Poesia

Guardiã de cabelos azuis

 

Enquanto eu ainda pensava em bailar, numa tarde azul, brincamos de chamarmo-nos de “partner”. Quem diria que ali nascia a denominação “Flor de Abraço” que me levaria a uma nova caminhada.

O tempo correu lépido e "Flor de Abraço" virou oráculo. Virou pesquisa de Poesiaterapia. Virou ferramenta de entrega e transformação. Virou paixão.

A simbologia veio parar no braço, sob forma de tatuagem.

Neste olhar que lanço agora para contar um episódio recente, começo a perceber o quanto de construção amorosa ocorreu para que o projeto fosse materializado. Talvez por estas amálgamas é que o Oráculo Flor de Abraço toque as pessoas de forma mágica.

A concepção inicial nasceu de um sonho que tive com meu pai, que já se encontra noutra dimensão. A formatação teve ajuda de muitas pessoas da área de editoração e literatura. A ilustração das cartas coube a um designer, amigo do meu filho, que carinhosamente me chama de “tia”.

Finalmente, a tatuagem na pele me foi presenteada, também, por outro amigo de um dos filhos, desta vez em terras estrangeiras. E assim a energia se expandiu. Quanto de gratidão me cabe no peito?

Enquanto aconteciam as oficinas ministradas por mim, desde 2017, sempre usando a obra, chegamos à terceira edição.

Em tempos de pandemia, partimos para Oficinas e Jornadas on-line, sempre valendo-nos do fiel escudeiro: Oráculo Flor de Abraço.

Então, chega ela: minha guardiã em forma de arte. A madrinha da jovem Academia Flor de Abraço. Não fui eu que lhe atribuí este papel, ela o escolheu.

Essa boneca traz flores e folhas na imensa cabeleira azul e me lembra o quanto devo honrar a vida, minha jornada e meu amor pelo mar. Uma boca vermelha me lembra da minha feminilidade. Aqui, ao meu lado, se instalou.

Profundamente tocou meu coração. Quando a obra me foi entregue por ele, senti como se estivesse resgatando uma parte importante da minha infância.  Aquela ou aquelas bonecas que nunca tive, agora colorem a memória da menina que habita a mulher madura.

Não mais brinco de bonecas, mas eclodiram lágrimas com permissão de lavar as cicatrizes, alisando os queloides do tempo.

O presente veio recheado de amor. Ele, meu amado, conseguiu passar todo o sentimento à artista maravilhosa que a concebeu. A boneca traduz a minha sensibilidade e o meu amor à poesia. 

Não bastasse, trouxe consigo a simbologia do conhecimento e da sabedoria, pertinho do coração.

Assim, ela escolheu ser a guardiã da incipiente Academia Flor de Abraço, agora muito mais fortalecida.

Repito, como caber no meu peito tamanho gratidão?

 

Luciano, pelo amor e carinho.

Rosana, artista incrível, pela obra.

Por Maria Luiza junho 2021

Publicado na categoria: Coluna da Maria Luiza
Quinta, 17 Junho 2021 11:07

TODOS OS LADOS

Ponho-me a ver por onde andastes,

Rodeando todas as partículas de ar

Buscando todas aquelas noites,

Do nosso próprio apaixonar.

 

O olhos que me fitam doces de amor,

Tornam-se ódio, brindam com ópio.

Aquele meio entremeio, beirado de erro,

Faz com que as desculpas sejam torpor.

 

Gasto meus olhos entre os sonhos,

Vigio seus sonhos sobre os ombros.

Corro por lados e todos os lados,

Estão demarcados por deslizes infantis.

 

Volto, refaço, e no começo,

Ponho-me a ver por onde andastes,

Rodeando todas as partículas de ar.

Buscando todas aquelas noites....

 

 

 

 

                                                                   L'(Max)

Publicado na categoria: Poesia
Terça, 15 Junho 2021 22:53

E SE NÃO FOSSE VOCÊ....

E se não fossem seus olhos,

Penetrantes, verdes ,fascínio

Que me aquecem ao vê-los

E que em mim exercem total domínio.

 

E se não fossem suas mãos,

Que ao leve toque me estremecem,

E no abraço me acalmam,

E nos afagos me calam.

 

E se não fossem seus lábios,

Suaves, gentis e marcantes,

Que me beija, me chama e me ascende

E eu me entrego sem pensar um instante.

 

E se não fosse você,

Seu corpo, sua mente, sua alma,

Não me traria felicidade nem calma,

Então eu iria esperar, você chegar!

 

 

 

 

                                                                   L'(Max)

Publicado na categoria: Poesia
Segunda, 14 Junho 2021 12:19

NOVOS TEMPOS

                                                                                                NOVOS TEMPOS

                                                       

Estamos em quarentena. Tenho feito bolos e poemas. Abro a janela- o vidro e a alma- e percorro o caminho interno dentro de mim. Passeio em lembranças. A inspiração me anima. Lembro-me dos meus afetos e navego num rio de paz e de esperança. Exercito o perdão. Estou em comunhão com todos, somos parte de uma grande família. Restam silêncios e apenas olhares que desnudam rostos atrás de mascaras. Anônimos e conectados uns aos outros pelo elo da sobrevivência e pela vidência de melhores dias. E pela força da nossa oração somos levados pela folha avermelhada. É outono. O vento e a nesga de sol aquecem a família, como um balsamo de esperança.

 Tenho brincado muito com o meu filho. E pelas suas mãos, ele passeia comigo na sua infância e me traz lindas recordações. Lembro-me da minha mãe e das mãos tão ternas da minha avó. E com meus dedos faço castelos e monto quebra-cabeças, construo pontes e uno peças de um grande jogo da vida. Moramos, sim, num castelo florido onde o riso corre solto. Escondo-me atrás dos moveis da casa para que ele me ache e é justamente no esconderijo que encontro o menino poeta brincando de novo, como se o tempo de vida percorrido fosse apenas um mero detalhe.

Dialogo com o silêncio e na tranquilidade do olhar da esposa, nele encontro o céu azul e uma noite estrelada. No almoço, ela não quis comer saladas e pediu que eu preparasse o meu melhor prato: um risoto de funghi. É dia das mães e ela me deu o melhor dos presentes sendo pai. Coloco o tempero do amor e o prato fica saboroso. E de tão gostoso, entre sorrisos e garfadas, a família se reúne ao redor da mesa. O filho quer eu faça macarrão. E entre o risoto e a massa, vejo a vida além da vidraça, e percorro os caminhos da Itália. E, mais uma vez, eu e a esposa navegamos entre canais de Veneza. Levamos ele conosco e eu o ensino algumas palavras da língua dos seus antepassados.  Somos os gondoleiros da nossa existência. E, por um instante, percorro os caminhos da cidade eterna e o momento se eterniza na comunhão com os meus afetos.

E a noite, após o teletrabalho, agasalho no peito as mensagens dos amigos. Saúdo a todos os recados de carinho. Como é bom estar no ninho, entre os meus e entre os livros que escrevi embalado pelo sonho. Ligo para a mãe por que não posso vê-la e tê-la por perto. No telefone a sua voz preenche a saudade e ela me conta que o pai está melhor de saúde. Agradeço a Deus e rogo a Ele pelos meus e pelos teus. A pandemia vivida é feita de flechas e de setas. É preciso aparar as arestas e redefinir sentidos no abrigo do lar. E a esperança haverá de iluminar as sombras do medo sob a perspectiva da fé.

 

 

 

 

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