Aplicado o filtro por Data: Novembro 2021

Quinta, 30 Dezembro 2021 13:25

Estio

Tocou uma canção triste e esquecida na velha vitrola
O vento resolve trazer lembranças cobertas de musgo
Na casa vazia, porta e janela fechadas, da tua partida
 
Num remoto carnaval da alma, vesti fantasia de poeta
Esparramei confetes de palavras e versos serpentinos
Teria sido somente o desatino de meu pássaro cativo?
 
Sei que isso me trouxe sol e calor quando era inverno
Trouxe flores que desabrocharam no meu peito vazio
Pôs fim o sofrer insano sem ter quem chamar querida
 
Dos desenganos em desenganos, já não vivo de ilusões
Mas sei quem me acolheu, quem calou o meu lamento
Que surgiu e me devolveu o vigor para tecer os versos
 
Sopra o vento peregrino e o vozerio dos mortos se vai
Muito antes que eu canse de te olhar a noite chegará
Eu mirar-te-ei de novo e de novo para nunca te perder
 
Esperei pacientemente por tua chegada ao meu porto
E agora ai está viva, táctil, qual a luz a romper a noite
O rumor da ventania já vai se silenciando na distância
 
Chega o estio por estas paisagens ainda adormecidas
A alameda em flor, cálida, se estende até o horizonte
No fim da estrada a serra recorta a paisagem do azul

 

Publicado na categoria: Poesia

(...) somos apenas o que somos, mas, por vezes, o que somos não é o suficiente nem mesmo para nos agradar.

Temos que ser mais, se quisermos conquistar aquilo que nos falta... óbvio, isso porque, se nos falta algo externo, é porque falta algo na gente mesmo para obtê-lo. Temos de nos tornar melhores do que nos apresentamos e, por conseguinte, abandonar a nossa singularidade e nos fragmentar, se quisermos preencher o vazio que nos aflige. Temos que ser mais, mas... nunca diferentes essencialmente, pois é importante que sejamos capazes de nos reconhecer.

 

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Um homem esta caminhando no acostamento de uma estrada e se sente vazio... solitário. Como um câncer, as células putrefatas da memória parecem se deteriorar a cada novo passo. Ele tenta curar a si mesmo, relembrando-as, mas sabe que parte delas já se foram para sempre... Talvez se as tivesse relatado a alguém ou as registrado num papel de pão, que seja... mas se foram.

Ele está vazio de momentos, solitário, como se a vida fosse apenas um acrescento de zeros depois da vírgula e a ponto de suas recordações se confundirem com suas fantasias ou desejos.

Porém, a noite o recebe, o envolve, enquanto o vento úmido parece abraçá-lo. A lua ilumina o que pode ser visto da estrada adiante, estrada que, há muito, tem sido seu caminho. Seus pés são como hastes firmes no asfalto e seus olhos, como o infinito oceano, misterioso, profundo e incerto. As cordas do seu violão jazem enferrujadas, enquanto a melodia parece ter se esvaído de suas mãos desacostumadas.

- Onde estará ele? — perguntei certa vez em que se armava uma tempestade.

- Onde estará ele...? — me perguntaram tanto tempo depois, em que não mais se tinha notícias...

- Onde está ele? — certo dia ela me perguntou... tarde demais.

As noites sempre foram convidativas, ao meu ver, mas, sem ele, parece que se tornaram mais solitárias.

Sinto saudades do meu amigo, sinto saudades da sua euforia e das suas músicas... Sinto falta dos momentos de êxtase, adocicados com certa melancolia e pequenas doses de mistério... A melancolia, entretanto, se foi. Hoje, o que me resta é sentar na velha poltrona onde ensaiávamos velhas canções que nunca chegamos a tocar ou encostar no barco que ainda descansa na areia da praia onde costumávamos ter longas conversas, me deleitar em recordações as quais ainda não me abandonaram... para o bem ou para o mal.

Outrora a vida era como um conto de fadas medieval, em que cavaleiros brandiam suas espadas, erguiam seus canecos e cantavam poemas sobre amores impossíveis. As donzelas ainda podiam ser encontradas nas torres de castelos suntuosos, tecendo cavalos alados em tapeçarias finas e entoando velhas cantigas, inexprimíveis em palavras atuais. Ele, do seu modo singular, era capaz de transformar um simples olhar entre dois amantes, na maior história a qual se poderia querer viver.

Lembro de um momento... era o início da primavera, época em que as paixões desabrocham nos corações, tempo de deixar um pouco de lado nossos pesados fardos, para nos perder nas estradas íntimas e sinuosas que se escondem nos pensamentos secretos... Próprios ou de outrem...

“Quero sentir sua alma, antes de permitir que a realidade interfira. - ele disse a ela, antes de beijá-la - Viva por um momento a sensação de estar sonhando um sonho bom... só um pouquinho que seja. Sinta algo que meu corpo jamais poderá lhe dar, e me deixe tocar algo aonde jamais um beijo poderá alcançar. Deixe-me ter a certeza de que a vida lhe roubou dos meus sonhos para te trazer a mim...”.

Por quase um segundo, de relance, volto os olhos para a gata que dorme em meu colo enquanto escrevo... de súbito, sou tomado pelo pensamento de que, um dia (como o dia de hoje), ela irá morrer e, tal como está de olhos fechados agora, estará um dia, num decorrer de momentos que se esgota pouco a pouco, como areia numa ampulheta...

Um relógio , atrás de mim, gira seus ponteiros mais acelerados que eu gostaria...

Chorarei, como sempre, pelos cantos, pelo vinho desperdiçado... chorarei por ela e custarei a jogar suas coisas fora, mas de sorte o farei. “Não deixe os dias passarem”, diz a canção... Tudo está em paz agora... Porque tem que ser diferente? O tempo é a nossa maldição e ignorá-lo tem seu preço.

Penso no porquê de não tocar essa música ainda, enquanto a escuto... Talvez seja porque poucas pessoas a conheçam, mas é sabido que não costumo fazer nada para agradar ninguém: nem tocar, tampouco escrever, como pode ser constatado diante desta prédica distorcida e inconstante.

https://www.youtube.com/watch?v=Iosx6flOj98

 

Publicado na categoria: Coluna do Santiago
Segunda, 27 Dezembro 2021 23:07

Inquietude

Não escutarás de mim as sílabas sombrias e inquietas
Porque me disfarço de eternidade nestas horas rasas
Para, sorrateiro, beijar tuas asas como a ardente seta
Com que Eros tocou-me de ti na insônia das estradas
E assim fiz um céu construído a fogo, almíscar e mel
Cheio de estrelas bêbadas do teu canto, meu sorriso
 
Não verás minha vida e morte embebida de cotidiano
Nem terás esta saudade embriagada num sonho irreal
Farei que tudo mude, mas que conserve a tonalidade
Do homem que sempre quis sonhar, sem fugir do real
Sem o sonho governar o ser, na intensidade da razão
Olhar, pensar, depois de tudo, quedar-me subjugado
 
Não sentirás meu rosto úmido das lágrimas chovidas
Que, todavia, não esquivarão do espelho inclemente
O amor não é o sobrenatural nem algo de miraculoso
É o sentimento que deve fluir sem esforço, igual flor
Que não precisa de esforço para exalar seu perfume
E um dia perfazer a promessa de ser fruto e semente
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Quinta, 23 Dezembro 2021 10:47

SENTIDO ALHEIO

SENTIDO ALHEIO

No rubor da face,

 o desconcerto das atitudes

 que são transparentes

como o olhar perdido no horizonte.

Nada é transcrito num caderno de memorias,

 fica apenas na imaginação.

 Não será lembrança de um

 passado alheio.

A vergonha do nu é exposta

na alma errante,

 que cambaleia pelas alamedas

 de um coração fértil de emoções

contraditórias.

A noite acalanta o corpo,

a solidão é companheira.

Tudo se transforma,

tudo é o nada

que colhemos

no momento único

de um encontro,

onde o eu é o nos.

MIF 17/12/2021

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Quarta, 22 Dezembro 2021 10:25

Amores Virtuais

Hoje há muitas pessoas que vivem um mundo virtual
Com isso dizem estar sempre perto de quem se quer
Mas o gosto de sua saudade tem um gosto de perda
Uma imagem que se esquiva, nos labirintos do sentir
No mundo dos amores inventados e desilusões reais
Nada é tangível, nada tem hálito, nada é perfumado
Um mundo sem olhares, sem abraços ou sem mágica
Onde tempo e espaço se confundem em uma só dor
 
Sou um amante natural e sujeito a tantas tentações
Sou corpo vivo caminhando por sonhos e abandonos
Num doce sofrimento táctil de querer e ser querido
E as ausências que sinto têm forma, não são mentira
O aqui e o agora não são falsos, assim como o poema
Posso pensá-lo, reescrevê-lo, sentir seu cheiro e som
As emoções no mundo real, não são arremedos vãos
Nem são geometrias ou álgebras artificiais de silício
 
Tudo no mundo virtual se faz estático ou inanimado
Posso ouvir sua voz, não posso sentir-lhe a vibração
Mesmo que eu guarde na memória tua doce imagem
Nem posso imaginar o calor num arremedo de verão
Versos e palavras vivem nas verdades mais tangíveis
Ainda sou do ver para crer. Tocar. Tocar para crer
Dos frutos da terra, do calor que ela traz ao corpo.
 
O amor pede tato, gosto, não uma tela fria e alheia
Pede entrega, tem fome, quer tudo em seu domínio
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Segunda, 20 Dezembro 2021 11:10

Sublime

O que seria de mim sem o sublime existir dessa moça
Que tomou o lugar de onde viviam angústia e solidão
Como não admirar a plenitude da juventude madura
Que concilia serenidade e graça, que nela florescem
Como não imaginar que é seu riso que move estrelas
E que a lua só brilha no céu, por inveja de seu brilho
Minha musa me fez cantar e me sentir livre se canto
Como descrever o inefável que me acorda a cada dia
Talvez seria imaginar que a rosa vivesse eternamente
Antes dela, por vezes, tudo foi só o papel em branco
Sua vinda fez um murmúrio tornar-se a voz dos anjos
Ontem quando o poema era só um desejo da infância
Hoje faz estas linhas indomáveis, o longe é justo aqui
E quando a conheci, foi então compreendi a verdade
A vida necessita bem mais que comer, beber e dormir
Impõe sofrer para ser homem, amar para ser um deus
Não obstante, ela me fez mais, me fez renascer poeta

 

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Sábado, 18 Dezembro 2021 21:24

APENAS MAIS UMA PRIMAVERA

Ah prevaleço-me de que se foi distante a minha aurora e vejo quão privilegiado sou ainda estar aqui contigo, bom, lembrar-me das belas e continuadas histórias, tantas quantas me contavam da estação das flores, que me inspiram cantá-las, as dos meus tempos vividos. Percebo que aos sinais da finda e fria que antecede, brotam tímidas e sem anúncio as violetas de lapela, e as novas folhas das gramíneas e dos bambuzais, arte da natureza, ensaiando a floração da primavera, visto nos tenros brotos e botões esculpidos nos roseirais. Sem ranhetice fico aguardando ano após anos pacientemente esse momento mágico e grande, sempre com aquele olhar menino; e ver surgindo enfeitando os jardins; exuberantes gladíolos, cravos, íris e jasmins rodeados de brancas margaridas, esfuziante saudação setembrina, data incomensuravelmente bela. Nalguns arbustos, o vigor reflorestado para o tempo fruto, nos galhos das amoreiras casulos se contorcem sem ais, bailado frenético que culminará em explosão viva de belos seres em voos numa variedade incalculável de borboletas tropicais. É o ápice desses momentos vividos, único e indivisível, campos, montanhas e serrados ganham pinceladas de cores, nuances verde em dégradé e nos salpicos coloridos das flores. Na fábula da prudente formiga, desperta a cigarra novamente, é a primavera aguçando o sentido do poeta que a saúda com seu canto, não mais dorme, não mais chora, cessam as lágrimas do seu pranto ficam só as cores das flores douradas pelo sol das tardes quentes. Fim da hibernação nos botequins aquecidos pelos conhaques e das longas e negras noites, agora é céu estrelado em azul anil. Cessam as madrugadas frias em conluio com as chuvas finas, as almas abstêm-se de álcool, embebedam-se com o perfume do ar. As bocas e os corações sorriem, é tempo de a alegria dominar, tantas palavras ainda pra dizer, mas é apenas mais uma primavera.

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Quinta, 16 Dezembro 2021 22:03

O Poema

Meu poema não nasce do sono, nem de indigentes palavras
Meu poema nasce sem nome, dispensa projetos herméticos
Nasce da solidão que me habita e de clandestinas alegorias
Vem de meus transes, qual trouxesse um presságio invulgar
 
Meu poema se forja no aço da vida, a superar meus medos
Meu poema se alumbra com a luz que ilumina meus gestos
Nasce por todo canto entre as tábuas pisadas da memória
Vem de pequenas sementes, germina onde a beleza estiver
 
Meu poema resiste ao silêncio que, transido, o estrangula
Meu poema não tolera a indiferença, o morno, o ambíguo
É a prece que se murmura na cruz do oblívio das paixões
Vem bailando nas nuvens, nos cânticos das quartas-feiras
 
Meu poema se faz com a marca de quem procede do fogo
Meu poema transita pelo bulício dessas tardes de primavera
Para iluminar a bruma das almas e para regá-las com vinho
Gerado no mar, mas aprendeu voar no espaço sem limites
 
O poema é um cântico feito com os vocábulos mais azuis.
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Quinta, 16 Dezembro 2021 00:53

A Anatomia do Sonho

O sonho propõe as obscuras estórias da consciência
Que vai navegando nas ocultas dimensões sonhadas
Renovado pelo oblívio que traz a luz de cada manhã

O sonho vem das encantadas linhas das constelações
Abre espaços no cerne fugidio do que se acha ser real
Nutre-se da própria negação na cor da flama primeva

Nele o outono chega  inaugurando tempos de bronze
Transmutando por brandura os espectros da agonia
Para seguir embriagado a linha prata do arco da lua

Um pássaro a cantar comemora a colheita da cevada
Um homem celebra no vinho astúcias e esplendores
O poeta remove da alma os soluços não consolados

Enfim o verão se foi, mas não seu rubor, seu ar febril
Deixou ainda nas nuvens da tarde vergéis de trovão
Como um tropel a anunciar que a noite se aproxima

Pensamentos marcham nos pátios desertos da mente
Por arcadas solitárias busca o amor ávido encontrar
Seu lugar e frutos, acolá dos muros, livre de grilhões

Quase a terminar o sonho, eis que afinal surges, nua
Nada a ocultar o corpo esguio, doce flor de tentação
Vejo diante de meus olhos um quê infindo de desejo

No meu sonho, te empresto das flores seus perfumes
Do vento imitamos seus movimentos em nosso galope
Ao fim do amor nos legamos sentir o reverso do tempo

Percebo teu calor ao meu lado nesse sentimento vivo
de meus pássaros selvagens terem habitado teu corpo
Insensível a tudo, o dia reclama, é a hora de despertar

O regato murmura, nas estradas margeadas de árvores
Tem um rumor de infância, eis afinal o que deixamos:
A inocência rasa, na descoberta do amor enfim revelado

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Quinta, 16 Dezembro 2021 00:15

Desconstruído

Lá nas trevas chove sem trégua, tua face exausta me fita
Vejo tua imagem refletida na janela, tua silhueta elegante
Teu movimento cadenciado quando teu corpo me escala
Sabe o teu dom? Eu me nutro dos teus lábios abundantes
Escondida na tua própria criação te desprendes nua e ris
Teu voo faz uma lenta curva no ar, treme e me trespassas
Por esse tremor, empresto minhas mãos para te descobrir  
Para celebrar, nesse enigma irrevelado que são teus olhos
Tateio as mãos a buscar essa figura de súcubo à meia luz
Busco traços de tua fala, na boca que busca minha boca
Que vibra ao toque a me revelar que encontrei teu rumo
Se o riso é a porta da alma, os dentes são a cerca de casa
Grades que invado, finges que me renega, mas me desejas
Sou para ti, não temas o cantar desse canto vil e precário
Um poema que, nas tuas páginas abertas, afaste a solidão
Que traços me trazes, com que letras criastes este sonho
Que me desconstruiu os sentidos e me despiu de palavras
Chegaste de repente, tomaste minha alma, pois que fiques
Mas não vou te prender, vou deixar este desejo fluir até o fim
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