Zezinha Lins

Sábado, 05 Dezembro 2020 16:12

Estranho de mim

 

Enquanto eu não encontrar

o estreito caminho

que me conduz

qo mais íntimo do meu ser;

Enquanto eu não for capaz

de dialogar comigo mesmo

encarando os meus fantasmas

dando nome a cada um;

Enquanto eu não me reconhecer

um ser em construção

banhado de imperfeições

e não encontrar em mim

o desejo visceral

de ser melhor a cada dia,

serei um estranho de mim mesmo.

 

Sábado, 05 Dezembro 2020 09:53

Coluna da Zezinha 3 - Conversa Com Verso

 

As metáforas e os poetas são como águas do mesmo rio, os dois convivem juntos tentando sempre pescar nas águas um do outro. O peixe que vem de lá é sempre melhor. Numa brincadeira infinita os dois se desafiam, dessa convivência de amor e caça, nasce a poesia.

Conversa de poetas

Ele: O Poeta não se apaixona por retas e curvas de um corpo, o poeta se apaixona pela alma.

Ela: Verdade, sei disso

Ele: Desejo conhecer a alma dessa poetisa

Ela: ....

Ele: Que rumo segue o barco da tua alma?

 Ela: Rumo das águas tranquilas.

Ele: Sou vento forte ... posso mudar o rumo do teu barco.

Ela: Ajusto minhas velas, sozinha.

Ele: Sábia comandante. As tempestades também são imprevisíveis.

Ela: Atravesso cada uma e sempre saio mais forte.

Ele: Tua inteligência aguça a tempestade...

Ela: Depois da tempestade sempre volta a calmaria.

Ele: Na calmaria a tempestade se fará um beija-flor em voo rasante a sugar o néctar mágico da flor no barco da esperança.

Ela: A esperança atrai o beija-flor e toda a magia da natureza que floresce em cada flor que um dia foi apenas semente.

Ele: Semente intensa e voraz em terra fértil com cheiro de chuva ...

Ela: Brota

Ele: Aos cuidados do jardineiro que deseja roubar um beijo da bela flor

Ela: A flor necessita do beijo do Sol.

Ele: Teu sorriso age como brisa forte no galho que acolhe o beija-flor e esse por sua vez, em voo rasante se faz Sol nas pétalas da bela flor... sugando todo o néctar de sabor único e mágico.

Ela: As flores precisam se proteger dos jardineiros desconhecidos, uns cuidam, outros fingem trabalhar, mas não as valorizam e se divertem desfolhando-as num passatempo sem nexo enquanto observam o roseiral.

Ele: Desculpe. Vamos aguardar a próxima estação.

Dueto: Cantopoético e Zezinha Lins

Sábado, 28 Novembro 2020 10:59

O meu e outros mundos

 
 
Quando eu era criança gostava de brincar de sonhar e de viver. Meu mundo era tão lindo, tudo era grande, muito grande. Eu tinha um açude tão grande que nem sentia falta do mar que eu só conhecia de ouvir falar. Minhas árvores eram enormes e seus galhos me protegiam quando lá, eu resolvia morar. Mas grande mesmo era o céu, tão estrelado à noite e quase sempre tão azul de dia. Mas o avião que lá em cima passava era pequeno, muito pequeno, menor que os passarinhos que bebiam água no açude e brincavam de se banhar. Acho que o avião vinha de outro mundo, um mundo bem distante e tudo que não pertencia ao meu mundo, era pequeno e sem cor. Acho que era porque faltava intimidade.
 
A minha imaginação também era grande, tínhamos bastante intimidade, sendo assim, viajávamos por dentro dos livros e de lá eu trazia um montão de coisas, principalmente palavras. Elas saíam dos livros e logo ficávamos íntimas. Descobri como era incrível brincar com as palavras. Foi assim que percebi que as coisas dos outros mundos não eram tão pequenas assim, eram apenas diferentes. Todas as palavras que fui conhecendo foram crescendo, pois agora faziam parte do meu mundo. As palavras me ensinaram que o meu mundo não é formado apenas pelo açude, pelas árvores, pelo céu... Mas por tudo o que eu quisesse. Hoje eu sei, meu mundo é infinito.
 
 
Zezinha Lins
Quarta, 25 Novembro 2020 13:51

A Procura de mim

 

Procuro a mim mesma

E tudo o que a mim pertence,

Pois percebo que até hoje

Não fazia distinção

Entre o que era meu ou dos outros.

E nesse viver de muitos

Absorvi tanta lama,

Água suja, aberração.

Nada disso me pertence

Quero apenas ser minha versão.

Procuro a mim mesma

E tudo que em mim se esconde

Sem interferências ou influências,

Sem heranças nem lembranças.

Preciso percorrer

O labirinto do meu ser,

É lá que vou encontrar

Na intimidade da minha alma

Meu pensar, minha palavra.

Meu genuíno viver.

 

Zezinha Lins

Poema publicado no livro E POR FALAR EM MULHER... (2019)

 

Sábado, 21 Novembro 2020 11:15

Esperança

 
Alguém, certo dia, escolheu a cor verde para colorir um dos sentimentos mais importantes que o ser humano precisa cultivar para o seu bem viver: a esperança.
A esperança é a força de quem acredita que o que virá será positivo, mesmo quando há indicações do contrário.
Contradizendo quem acha que ela é a última que morre, digo que é a primeira que nasce e renasce sempre que a semeamos pelos canteiros secos da vida. Sim, ela também nasce em terra seca e quando nasce, acontece o milagre da fertilidade, terra abundantemente fértil.
Se eu resolvesse desenhar a esperança, certamente desenharia uma âncora.
Que a esperança floresça em todos os corações e que sejamos férteis de positividade.
 
Zezinha Lins
Sábado, 25 Março 2017 23:49

É TIRO!

Finalmente chegou o dia da minha estreia como colunista neste espaço onde fico tão à vontade. Depois de leituras deliciosas e enriquecedoras durante a semana, resolvi brindar o nosso fim de semana com uma crônica narrativa. De forma leve e bem-humorada o enredo trata de um assunto sério: o medo da violência que faz muita gente tremer nas bases, e não é para menos diante da realidade que vivenciamos em nosso cotidiano. Vamos nos divertir um pouco, afinal, hoje é sábado!

É tiro!

 

 

Um tiro ecoou no escuro! Acordei assustado deixando no esquecimento a morena com quem dançava numa festa qualquer (afinal, sonho é sonho, o que importa é a morena e não os detalhes da festa). Ouvi sim um barulho forte, e certamente foi um tiro, como aqueles do tiroteio no assalto ao banco que vi ontem na TV antes de dormir. No auge dos meus 16 anos, nunca me vi tão indeciso: não sabia se me escondia debaixo da cama ou dentro do armário. Que vergonha era minha cara e minha tremedeira nas pernas! Ainda bem que eu estava sozinho. Que nada, eu não queria estar sozinho! Meu pensamento gritou o mais alto possível: Eu quero minha mãe!

Foi então que percebi que não deveria ter me recusado a visitar a tia Zilda junto com meus pais em Coité do Nóia lá em Alagoas. Como será que se chama quem nasce em Coité do Nóia? Só pode ser coiteense ou noiado. Pronto, o mundo acabou de ser destruído com um tiro e eu debaixo da cama procurando um adjetivo pátrio para nativos que estavam fora da zona de perigo.

Agucei os ouvidos. Silêncio total. Alguém morreu? Cadê a polícia? Ninguém vai socorrer o defunto? Pensando bem, não faz muita diferença, já morreu mesmo! E se o bandido resolver se esconder justamente aqui? E se fizer de mim, refém? Não! Preciso sair daqui! Sair pela porta de trás que vai dá de frente com a porta da cozinha da casa da Jandira, mulher madura, viúva e abundantemente bonita que toma sol na varanda todos os dias das 8: 15 às 9h em ponto. Necessito do socorro da Jandira! Afinal, tem um bandido prestes a entrar aqui! É justo!

Abri a porta do quarto, tudo escuro. Claro, não acendi a luz, chamaria a atenção do bandido. Caminhando de lado encostado na parede, cheguei na cozinha, liguei a lanterna do celular e vi...

Um copo estraçalhado no chão e meu gato siamês mais assustado do que eu.

Junto com os cacos de vidros foram para o lixo uma grande oportunidade de ser acolhido e protegido pela Jandira.

 

Zezinha Lins