Terça, 05 Outubro 2021 07:23

PERGUNTE ÀS CINZAS

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mulher na chuva mulher na chuva

“Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: ‘O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo’. O homem se desfaz em lágrimas e diz: ‘Mas, doutor... Eu sou o Pagliacci’.

Boa piada. Todo mundo ri. Rufam os tambores. Desce o pano.”

(Alan Moore)

***

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“Eu não te disse mentiras... Disse apenas o que você queria ouvir, querida. Por que fez isso comigo? Punindo-me por amar você? Punindo-me por dar-me a você? Punindo-me, creio que, por nada... Por nada? ” – Divagava em meio à cacofonia eufórica que o circundava enquanto, sem produzir qualquer efeito, inda sóbrio, se desfazia como se evaporasse pelos poros, junto às cinzas d’um velho cachimbo.

Alguns conhecidos tentavam animá-lo, mas jamais compreenderiam a guerra que travava dentro de si mesmo, domando seu cavalo em meio a uma batalha que parecia estar longe de acabar...

Ele parecia nem mesmo estar ali. Porque ele sabia: se permanecesse onde estava (insuportável e em agonizante solidão), ainda assim, não teria que se deparar com o vazio que ela deixou ao partir sem rumo, numa noite chuvosa, pra não deixar rastros.

De súbito, o conhaque faz efeito e ele sai caminhando um pouco cambaleante, (mais por ter ficado tanto tempo sentado do que pelo trago requerido), mas, após o susto, ergue a cabeça, rodopiante, do balcão, percebendo que cochilou e que jamais havia se levantado daquele banco (ou saído daquele buraco). Havia noites, estava sem dormir e seu corpo esgotado começava a cobrar o preço.

Porque ele sabia: pior que o sofrimento era a agonia, pois o ser agonizante se contorce sob a pele sem que ninguém seja capaz de vê-lo. “Uns sonhos morrem e outros nascem.” – Dizia para aquele que enchia, impiedosamente, seu copo.

Lembrar das últimas palavras dela o fazia queimar por dentro. Ele apenas queria que ela o implorasse de volta, dizendo que não poderia viver sem ele e todas essas baboseiras pueris de sempre... O homem é um animal estranho e condenado ao sofrimento; belo e docemente amaldiçoado pela reminiscência.

Enquanto olhava ao redor assim como para as luzes refletidas em seu copo, podia ver algumas mulheres, inócuas, se insinuando, sutilmente, enquanto ele, apenas, balbuciava para si mesmo: “Bastardos”.

Porque ele sabia: ela havia segurado o choro para não dar o braço a torcer. Porque ele sabia: caminhou determinada e se abrigou na chuva para que não pudessem ser vistas as lágrimas, isso tudo porque sabia: se a paixão era o suposto abrigo, o melhor era seguir pela tempestade.

Mesmo assim... Mesmo sabendo disso, ele ainda agonizava. Recordando de sua carne marcada pelo tempo, macia, úmida e quase sempre embriagada, contorcendo-se, quando perto, irresistivelmente... “Faria o mesmo com algum outro? Mentirosa trapaceira... Dizia que era minha e que eu era para sempre. Bastou um deslize para que mostrasse sua verdadeira face. Devia já estar com outro... Vadia.” – murmurava.

Ele havia construído sobre ossos sem se dar conta de que o predador, inevitavelmente, voltaria para devorá-lo também... Foi uma atitude tola, mas ele arriscou.

Ele ainda não havia terminado... Permaneceu ali, até onde se sabe, com o cenho franzido, olhos cerrados e insinuantes, pois, sabia: aquela foi sua última lembrança e os olhos dela (lamentava em forma de palavras num pequeno guardanapo amassado) "se afastariam e se apagariam, mas jamais desapareceriam".

E o velho se percebe, como se estivesse decomposto de seu próprio corpo, com sua imagem miseravelmente distorcida refletida no copo, sob um banco estofado cor de madeira manchado de homem; lembrando do rosto dela tal qual do seu sorriso refolhado; de tudo o que, por pouco, havia posto a perder por tão pequena desventura e, flutuando e devaneando acima do tempo e das coisas, como num sonho, não podia fazer nada... Só esperar.

"Agora e, lamentavelmente, já posso novamente viver das lembranças das outras vezes em que fora embora" - pensou antes de pagar a conta.

 

https://youtu.be/IY29fWjUM80

 

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