Quarta, 14 Julho 2021 11:03

DESTINO

Escrito por
Vote neste texto
(1 Voto)
Destino Destino

O cair da noite trazia consigo o frio cortante típico da estação em que caem as folhas. Uma garoa perturbadora acabara de começar e aquele homem entra no bar enquanto ainda está seco.

Ele tira das costas sua mochila pesada e a coloca no banco ao seu lado, bem rente ao balcão do bar. Atrelado à mochila está um pequeno aquário com um peixinho vermelho o qual ele chama pelo nome de “Destino”. Ele desatrela da mochila o aquário que lembra, pelo formato, uma lamparina.

O barman vai até ele.

– Não é permitido animais aqui… – Ele aponta para o cartaz na porta –  mas abrirei uma exceção já que esse parece inofensivo.

– Destino…? Não se preocupe… Ele não causará problemas.

– Vai querer o de sempre?

O viajante olha para o Barman.

– Jamais vim aqui antes… Não me é estranho esse lugar, mas tenho certeza que jamais vim aqui.

– Deixe de ladainha e aceite esse trago por minha conta… A partir do próximo, você paga com o que tiver.

– Aceito…

– E então? O que carrega de tão pesado na mochila?

– Não havia me dado conta do quão estava pesada até esse momento… – ele volta seus olhos para a mala ao seu lado. – Esse é o meu legado… Não cabe a você saber.

– E para o peixe?

– Destino? Apenas artemias… Vivas, por favor.

Eis que no mesmo instante uma jovem de cabelos dourados como o Sol nascente esbarra nele fazendo-o derramar um pouco da bebida em sua camisa já úmida… Ele mal olha para a camisa, visto que permanece hipnotizado, como por encanto, para seu serpenteante corpo enquanto caminhava.

– Eu conheço essa menina… Ela…

– Sim… Já foi sua. Assim como já foi ou será de todos. Esqueça-a…

– Do que está falando? Acha que estou tão desajustado para competir por uma mulher como ela?

– Não duvido, filho… Apenas temo pelo que terá de abrir mão para tê-la, já que não tem muito para dar. Juventude é uma meretriz que encanta e seduz os homens em determinado momento de suas vidas… Eles a escracham ansiando pelo prometido Poder, oriundo da maturidade… Depois de serem sobrepujados pelo Desejo incansável, se tornando escravos dele, voltam rastejando… Propondo-se a dar suas míseras moedas arrogantes em troca de seus favores. Por isso ela os esnoba… Assim com fez com você agora, ao deixar seu perfume pelo caminho, escancarando suas entranhas para poder mais uma vez, consumir-se em seu próprio remorso.

– Quem sabe você não poderia…

O homem atrás do balcão ri… um riso debochado.

– Acredita mesmo que pode barganhar comigo, garoto? Tudo o que tenho agora é o que lhe sirvo… Cabe a você aceitar ou não. Apenas não me peça para lhe trazer algo de volta.

– Desculpe… Está certo. Se quiser ir servir os outros… Não quero lhe ocupar

– Preocupe-se com você. Os outros não são da sua conta.

– Ok… Não está mais aqui quem falou.

O barman o serve de mais um trago.

– A garrafa acabou… Quer que abra outra?

– Mas já…? Acabei de chegar e mal terminei minha dose?

– Não está atento, garoto… Bebeu uma garrafa inteira e não se deu conta… Como sempre.

Então o homem se levanta e, finalmente, percebe que está um pouco cambaleante. Não o suficiente para lhe derrubar, mas compreende que fugiu do seu estado normal.

– Não… Não precisa abrir outra. A viagem ainda é longa e preciso me manter o mais sóbrio possível.

– Você é quem manda.

– Preciso ir… Quanto eu devo?

– Nada… Como lhe disse: esse trago já está pago por mim.

– Posso fazer uma pergunta?

– Já fez…

– Como “já fiz”?

– Fez-me uma pergunta ao me dizer: “posso fazer uma pergunta?”.

– Tá… Ok. Posso fazer duas perguntas?

– Sim.

– A vida é um sonho?

– Alguma vez já esteve certo de que estava desperto realmente?

– Saiba que é falta de educação responder a uma pergunta com outra…

– Isso não é uma resposta. Não lhe disse que responderia, apenas que podia perguntar.

– Enfim… – ele coloca sua mochila nas costas e olha atentamente uma mulher, com o rosto coberto com um véu, num canto escuro do bar com um tabuleiro de xadrez montado. – quem é aquela mulher?

– Esqueça-a… Ela está esperando alguém mover…

– Nossa! – ele se surpreende. – É uma jogada óbvia… Vou lá resolver isso e…

– Não ouse subestimá-la, filho… Não seja impetuoso. Algum dia terá realmente uma boa jogada e ainda assim perderá… Mas, ao menos, seja paciente e, quando chegar a hora, se entregue com honra.

– Mas é uma jogada óbvia…

– É o que muitos pensam antes de serem derrotados final e fatalmente. Não se ative… Terá algum dia a sua chance e ela estará lhe aguardando pacientemente neste mesmo lugar… E a todos os outros também. Há rumores de que apenas um homem em toda a história conseguiu derrotá-la… Mas, como disse… São apenas rumores.

– Está me dizendo que ela é…

– Sim…

– E você?

– Eu…? Alguns me conhecem por inexorável, inflexível, incorruptível e democrático…

– Tempo…

Ele apenas acena com a cabeça enquanto o menino ajeita sua mochila e caminha até a porta. A noite e o frio parecem impiedosos do lado de fora.

– Tenho certeza de que quando eu abrir essa porta, acordarei… – diz para o barman que apenas permanece apoiado no balcão com um sorriso no rosto.

– Não está esquecendo nada, homem?

Ele volta seus olhos para o peixinho inquieto sobre o balcão. Seu nome é Destino. Porque ele sabia: no fundo, ainda que percebesse agora o peso que carregava em sua mochila… Abandoná-lo, o faria condenar, o tempo que lhe restava, ao verdadeiro vazio.

https://www.youtube.com/watch?v=IQpAFKAnr_8

Lido 625 vezes

1 comentário

Entre na Casa da Poesia para comentar