Sexta, 17 Setembro 2021 17:09

Coluna da Maria Luiza 20/2021 - Cartas escritas com Sangue

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Texto contemplado pela Curadoria para participar da Coletânea resenhas e variações da Obra de Maria Valéria Rezende.

Livro publicado em Portugal e Brasil.

 

 

Cartas escritas com sangue

 

 Tudo o que restava daquele flagelo

era o corpo (porventura, salva‐se a alma?)

roto, velho, sangrento. Vísceras expostas. Cheiro de sangue.

 como em gênese, reconhece o cheiro no gemido uterino da sua expulsão.

nascera mulher. Maldição de sangrar.

 bendição de procriar, se autorizada por quem desconhece luas.

 julgada incapaz de pensamento, lógica, raciocínio.

 letras, escrita, poesia... meras profanidades que jamais lhe cabem.

 os que pensam usam botas, calças, armas, chapéus,

mas não sangram como ela.

 ousada, quebra regras e se apaixona por letras, palavras, papel, tinteiro.

desvairada, se entrega ao ofício de escrevedeira.

o sangramento a trai.

apanhada, apanha. Aprisionada é ferida e estigmatizada.

dispa seu disfarce! é a ordem do chicote!

sem chão, sem mãe, sem fronte, sem fonte.

desamada, sem botas e sem chapéu.

se veste de noiva, por livre e espontânea pressão.

se encarcera entre outros muros, onde jamais quisera estar.

e come o pão que o diabo amassou.

na casa santa de um convento serve a outras da sua espécie,

todas vestidas de preto e com nome de santas, até enlouquecer,

mas não sem antes furtar livro e papel

escreve missiva em pecado mortal endereçada a outra fêmea

à rainha que fizeram amalucar

em relato que mulheres comuns

também amalucam neste reino seu

mas padece de morte num dia qualquer

em derradeiro e desatinado ato de rebeldia

foge da prisão, vestida de branco,

revelando existir há três séculos histórias mal contadas de escravidão

num roto corpo, com alma a sonhar inteira,

rodeada de ondas, mar, com fome e sede de liberdade, padece da morte

morre então mais uma, atravessada por lâminas cruéis,

morre outra e outras, nos "espaços sagrados" do seio familiar.

espetáculos macabros, porque ousam escrever histórias

no século presente, sem nunca deixar de sangrar

para fazer nascer a vida.

em carta aberta ao universo, ocupam seus espaços

rainhas, loucas, bruxas, fadas. Mulheres.

carregando hoje a bandeira da liberdade de dizer basta!

para aqueles que sangram as que sangram.

mas o que resta são mais e mais feminicídios,

escravidão deste século

flagelo com cheiro de sangue

nas cartas-notícia, desvirginadas de amor.

 

 

Maria Luiza Kuhn 2021

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