Maria Luiza Kuhn

Maria Luiza Kuhn

Domingo, 22 Mai 2022 14:05

LUDIBRIAR

 

 

Ludibriar

O cataclismo se anuncia. Destituído de pudor, disfarce ou carência.
Semeando com destino definido. Sem nenhum critério, desde que humanoide seja.
Inspira ser, respira. Espirra ser, espirra.
A terra pede arrego, sossego, e, agora chora, implora, ajoelha, pela árvore que derrubou,  pela flor que esmagou. 

Pelos motores exagerados e seu ronco desmedido, na corrida desenfreada pelo lucro.
Chora pelos mares intoxicados, pela ambição desmesurada.
Chora, ajoelha junto à terra, humanoide embolado no cataclismo, impotente, perdido no caos escurecido em dias de luz.
Cataclismo de tumultos seculares em brancos corredores, onde se acumulam corpos humanoides adoecidos, amortecidos, putrefatos.
Abre valas comuns e feridas profundas nos corações.
Morbidamente se instala por desprazer, continuamente a sangrar a fome de muitos, o ódio de tantos.

O desamor e o egoísmo cutuca de longe e vai chegando perto, ferindo a negação,  confirmando a aceitação, até que esmaga enfim, com dentes de dor
humilha a prepotência e morde, morde, morde!
Tritura os ossos podres de quem ainda se acha inatingível.
Pobre ser inatingível, super humanoide!
Apesar de humanoide!

 

Maria Luiza Kuhn

escrito durante a pandemia em 2020

Terça, 29 Março 2022 11:52

O dicionário é meu

O dicionário é meu!

Onomatopeia. Sinapse. Idiossincrasia. Biblioteca. Metáfora.

Palavras que nada tem em comum. São apenas algumas cuja fonética fazem música aos meus ouvidos. “Idiossincrasias” de quem ama letras e suas combinações.

Certa feita meu pai, apareceu com um dicionário. Falo UM DICIONÁRIO. Tempos em que redes e sites de pesquisa,  eram sonhos distantes, quiçá de alguns visionários.

Eu deveria estar entrando na puberdade à época. Creio que ele tenha se esforçado e muito para adquirir a tal “peça”. Além de cara, em nossa cidade, havia apenas uma livraria.

Ele, o pai, folheava o dicionário como quem cuidasse de uma obra de arte. As mãos acostumadas à faina rústica, naqueles momentos tornavam-se cuidadosas. As folhas do livro eram muito finas, tipo um papel de seda, para que o livro, mesmo grande, dessa conta de abrigar tantas palavras e seus significados.  Por vezes ele abria aleatoriamente e lia algumas palavras e seus sinônimos.  Fora do vocabulário do nosso cotidiano, soavam por vezes muito engraçadas.

O pai insistia que deveria ler algumas palavras diariamente. Eu já andava me enamorando de livros, letras, vocábulos!

As lembranças pipocam na memória repentinamente como materializando o dicionário à minha frente. A capa era linda. A memória me diz ser colorida. Por mais que procure uma imagem em bancos de imagem na Internet, não reconheço nenhum igual ao exemplar do pai. Memória afetiva deve querer me dizer ser único e não reproduzível. 

Meus dedos sentem a carícia da textura como se o tempo não tivesse passado e todos os verbos se conjugam apenas no presente.

A lembrança da seda do papel  me conduz à caminhos carinhosos na alma e a voz do meu pai ecoa saudade no meu coração. Partes do caminho atapetados e para os quais nem sempre temos sensibilidade de reconhecer e agradecer.

Fonética, letras e suas combinações!

Gratidão pelo “dom da escrita” e por todos os tapetes estendidos para o meu caminhar.

 

Maria Luiza Kuhn 29/03/2022

 

 

Sábado, 05 Fevereiro 2022 18:54

AS PESSOAS CONTINUARÃO O SEU JANTAR

 

As pessoas continuarão o seu jantar!

 

Resgato uma crônica escrita por mim, no início dos anos 2000. Foi com pura emoção, porque o fato ocorreu numa manhã gelada.

Reescrevo hoje acrescentando uma parte final, tomada por outros sentimentos. Indignação? Impotência? Tristeza?

Não sei.

 

“Resido no sul do país. Termômetros marcam algo próximo de zero grau. Estou bem agasalhada e ligo o ar quente do carro. Dirijo-me ao trabalho resmungando um pouco, pois o edredom convidava a ficar na cama.

Faço uma pequena viagem diariamente de casa ao local de trabalho. Assim que "pego a estrada” uma mulher com um bebê no colo, pede carona. São pouco mais de 7 horas da manhã.

Resolvi parar, a despeito das orientações de nunca fazê-lo. Ela entrou e foi logo agradecendo, pois, dizia estar com muito frio e sem dinheiro para qualquer categoria de transporte. Até o meu destino eram cerca de 30 minutos. Senti que o calor interno do veículo lhe dava um certo conforto. Vestia pouca roupa para aquela manhã fria. Faltavam-lhe alguns dentes na boca, mesmo assim, um sorriso tímido iluminava seu rosto meio pálido.

O bebê, nem sequer choramingava. Estava enrolado num cobertor e tinha meias nas mãozinhas. Luvinhas, seria muito luxo, pensava eu.

Aonde vais? Perguntava eu — Preciso retornar para minha casa, qualquer quilômetro a mais fica bom (no caso, a minha carona). Morava distante dali uns 100 quilômetros.

Contou-me que viera procurar sua mãe na minha cidade para pedir- lhe emprestado algum dinheiro, pois o marido desempregado e mais dois filhos a esperavam em casa.

A mãe, não encontrara, teria viajado, segundo uma vizinha que lhe deu “pouso” e algumas roupas usadas.

Comunicação, para essas pessoas, apesar da popularização do celular e da “internet”, existe apenas num mundo paralelo.

Assim que se sentiu um pouco mais à vontade, abriu a blusa e deu o seio ao bebê. Criança sendo amamentada é uma imagem lúdica. Percebi que a menininha começou a brincar com o seio da mãe, que a chamava, carinhosamente, “princesa da mãe”.  Conseguiria imaginar castelos para sua filhinha?

Com certeza não, ainda mais num gélido inverno e com o pai desempregado.

E aí, a partir do meu destino, como continuaria? — Vou pedir outra carona, responde-me. Juntei todas as minhas moedas e algum dinheiro que carregava e a deixei na estação rodoviária para que retornasse a sua casa de ônibus, sem que antes, no mínimo, pudesse tomar um café quente.

 

Nesse dia, não fiz poesia. Achei-me um tanto quanto mesquinha para poetar. Apenas me perguntava; que lição devo aprender? Quanto de vergonha devo carregar por desigualdades sociais tão imensas?

No filme Hotel Ruanda, muito me impressionou uma frase dita pelo personagem jornalista, e a ela recorro para encerrar esta história:

“O pior é que as cenas passarão nas televisões do mundo e as pessoas dirão: “QUE HORROR!”, e continuarão o seu jantar.”

 

Com alguns cortes, encerro aqui o resgate desse texto antigo para trazer dois episódios que me colocam em total estado de “luto”, no início deste 2022.

 

O primeiro, o caso que vitimou uma pessoa de hipotermia. No berço da cultura europeia. No templo da filosofia. Na cidade denominada Cidade Luz.

Um homem, não um desconhecido. Um artista. Um nome. Um fotógrafo que apenas resolvera caminhar sozinho, como sempre o fazia, numa noite fria, quando passou mal. Caiu, qual ser invisível em rua de movimento. Não há inteligência artificial que consiga explicar este fato. Ninguém parou, ninguém olhou, ninguém socorreu. Não houve visão 3D que funcionasse. Apenas uma pessoa parou, (uma mulher em situação de moradora de rua, segundo a mídia) compadeceu-se e chamou o socorro. Era tarde. Morria RENÉ ROBERT em Paris, França.

 

O segundo fato que me enluta é o assassinato (espancado até a morte) de Moïse Mugenyi Kabagambe, ser humano congolês, em situação de refugiado no Brasil.

Lembremos: país do sol, da solidariedade, do carnaval, da cidade maravilhosa. Manchadas de sangue ficaram as areias brancas da Barra da Tijuca, das praias conhecidas mundo afora por sua beleza sem igual. Não bastasse o sangue jorrando pelas valas das favelas, irônica e tragicamente, como se fosse algo comum, agora vem visitar o mar da burguesia. Este homem, um negro, estava apenas e tão-somente cobrando o que lhe deviam pelo trabalho prestado. Estarrecida, como tantos, estou eu.

Ao assistir a mãe de Moïse chorando, choro como mãe. As manifestações retratam minha indignação. Como cidadã, sinto vergonha. Como ser humano, estou de luto.

 

Sem cores, Cidade Luz e Cidade Maravilhosa, na moderna barbárie, onde o homem se perdeu? (afinal, estamos na idade das cavernas? Das trevas?)

 

“O pior é que as cenas passarão nas televisões do mundo e as pessoas dirão: “QUE HORROR!”, e continuarão o seu jantar.”   

 

Por MARIA LUIZA KUHN

Fevereiro 2022

Qual a palavra que te define?

 

Enquadrar-se numa palavra é vibrar na miséria de definições. Na atual massificação do conceito de autoconhecimento podemos descobrir muitos eus, ou melhor, nem são descobertas, são antes reconhecimentos, se assim nos permitirmos mergulhar na sombra e luz do nosso ser.

Na caminhada de afastar-se do que a sociedade “quer”, do que a família faz acreditar que “devemos” ser, o aqui e o agora podem se apresentar de forma transparente mostrando a melhor versão, a essência e o propósito da existência terrena.

É possível que possamos nos reconhecer mais generosos, mais desapegados e mais gentis. Nesta gentileza, incluímos principalmente a autoabsolvição que é a mais difícil de exercitar. Costumo lembrar que adoramos um chicotinho de autoflagelo.  É hora de abandoná-lo de vez. 

A inspiração para lembrar o obvio da absolvição veio através da música SEJA GENTIL de Kell Smitt. A letra embala docemente esta alegria de nos perdoar.

Nem sempre nos permitimos. Olhamos muito mais para o em torno do que para o dentro. Não costumamos travar diálogos com as nossas células, como diz uma curadora que conheci, também uma preciosa inspiração. Não costumamos conversar com estrelas como fazia Olavo Bilac. Nem costumamos respirar no silêncio e celebrar a nossa própria música, mesmo que tudo isso seja o mais preciso de nós.

No piloto automático de cada dia seguimos, acreditando que podemos tudo controlar, sendo que sobre as duas únicas coisas certas na vida, que são  a hora de nascer e a hora de morrer, não temos absolutamente nenhum domínio.

Por isso nenhuma palavra me define. Várias me identificam. Outras já mudaram de lugar na lista. Outras virão. Porque a vida é movimento. É nisso que creio, em meio a tropeços e ressignificados.

A vida é eterno recomeço.

 

por  MARIA LUIZA KUHN

29/01/2022

 

 

 

 

Freud: desculpe este sonho não é para você!

 

O ruído de rodas friccionando o chão de corredores brancos e frios. Alguém me conduz deitada. Em seguida pede para me preparar com “looks” nada elegantes. Mais uma vez me conduzem. Sala excessivamente iluminada e baixa temperatura. Pessoas de branco circulando em murmúrios. Percebo que manuseiam gelados instrumentos. Evito a todo momento abrir os olhos. Ainda não fui sedada. Recordo o dia que me deitei numa sala deste tipo para abrirem  o meu peito e tocarem o meu coração com as mãos. Mãos abençoadas de quem sabe do ofício. Chamei aquele dia de renascimento. Não tive certeza que despertaria, mas sobrevivi.

Hoje a situação que me trouxera até esta sala era mais amena, mas necessária. Algo como pólipos endometriais ou algo assim. Requeria sedação profunda. Como portadora de prótese valvar os cuidados anestésicos são mais acurados, enfim sedada fiquei. Neste espaço-tempo quiseram os benfeitores universais me transportar por caminhos lindos, leves, floridos.

Confesso que desejei permanecer nestes lugares. As últimas lembranças do transe anestésico diziam de uma alegria infantil estar me acompanhando, uma alegria intraduzível.

Em sintonia, (esta alegria infantil e eu) viajamos num meio de transporte que era como um trem. A cada paisagem se descortinavam belezas e sentires que não pareciam ser deste mundo. Em dado momento da viagem num átimo, alguém me soprou: quando acordar pergunte quem da equipe que te cuida agora, está grávida.

Estava ali para curar meu órgão feminino mais sagrado. Onde gestei os três filhos que me coube trazer a este plano, ele, o útero, dera algum sinal de desregulamento. Coube a outra mulher, jovem médica retirar estas demasias de dentro de mim. 

Ainda em estado de letargia, percebi a médica ao meu lado perguntando se estava tudo bem. Contei-lhe do sonho assim que recuperei a consciência da anestesia dizendo precisar saber quem estava grávida, pois havia um recado. Sim, disse-me ela:  “estou grávida de uma menina. Soube neste final de semana que é Mariana”.

Entendi de pronto que Mariana gerada já fazia parte das  mulheres curandeiras. Viajou comigo de mãos dadas no sonho do sono da sedação, me alegrando, enquanto sua mãe cuidava de outra mãe.

Trouxe teu recado linda menina!

Ah! Os milagres, os mistérios. O invisível, o intangível!

Se assim não fosse, valeria à pena apenas experiência do visível neste plano?

Gratidão Dra. Talita.  Obrigada Mariana pela companhia alegre e linda.

Estou bem com a vossa benção e de todas as sagradas mãos femininas que me amparam!

 

 Por MARIA LUIZA KUHN/ Janeiro 2022

Sábado, 11 Dezembro 2021 13:05

Coluna da Maria Luiza - O céu de Araçatuba

O céu de Araçatuba

 

O azul do céu e o infinito horizonte do mar são, aos meus olhos, formas de me sentir transcendente.
Escondo-me do tempo nos instantes que me permito esta comunhão.
Estou longe do mar, neste momento.
Preciso fazer justiça ao lugar que me acolhe por ora, longe do horizonte das águas. O céu daqui me empresta a visão do infinito. Um azul brilhante parece me estender a possibilidade de tocá-lo com a mão.
Os cientificistas afirmam que deve-se à localização geográfica. Aos loucos, visionários e poetas é permitido dizer que o céu chegou mais perto, que as nuvens trocam mensagens com a terra e seus habitantes, sejam vegetais ou animais, inclusive os hominídeos.
Pura imaginação? Tudo que existe nasceu antes na imaginação. Então, se Olavo Bilac conversava com as estrelas na sua poesia, converso eu com o céu.
Escrevi, há pouco tempo, que passei a morar no sertão de São Paulo. Aqui, me sentia inóspita como me parecia o solo das redondezas da cidade, onde o “pop do agro” impera, nas lavouras de cana de açúcar. Sabemos o quanto esta monocultura é nefasta ao solo. Mas isso é papo para outro momento. Fui severa, ao primeiro olhar, com a terra que me acolhia. Atribuo à saudade que me dominava, longe da família, dos amigos e da minha paixão maior: o mar.
Passado o tempo da seca, floresceram ao redor da minha casa lindas e generosas árvores e suas múltiplas flores. Coloridas como o sol que as aquece. Seria empobrecer sua beleza, tentar descrevê-las com meras palavras.
Hoje parei para contemplar o céu. Aliás, o tenho contemplado há vários dias, especialmente quando anoitece. A suave beleza que o céu espelha no momento em que vai adormecendo o dia é de puro êxtase. A lua, em qualquer fase, aparece risonha e visível. Quando cheia, é soberba.
Durante o dia, espiei o céu em gratidão. Ele acenou para mim. Feliz, naquele momento pleno, ouvi um cochicho: "Aceita e entenda o que vieste fazer aqui!"

Amém!

 

Maria Luiza kuhn

11/12/2021

Sexta, 03 Dezembro 2021 21:30

COLUNA DA MARIA LUIZA 24 - A Poesia e o Mar

A poesia e o mar

 

Descalcei meu tamanquinho e pisei devagar na areia, com o cuidado necessário, afinal quem poderia garantir que eu não “estava pisando nos meus sonhos”?

Sentir a massagem da areia nos pés descalços é a mesma sensação do momento em que a tua mão na minha pele fica de um jeito macio, ainda não em frenesi, mas já ultrapassando limiar do tímido delicado.

É um pequeno antegozo.

Eu nesse encontro único, começo a travar diálogos com o mar: 

-Querido eu vi tuas ondas com as cristas douradas noutro dia, por que hoje você está tão cor de prata?

-É o sol- responde-me ele, quase em êxtase.

-O sol?

 Então agora por que te vejo verde esmeralda? 

-É quando brinco de apaixonado, me responde ele.

Vou ficando seduzida pelas ondas e suas mutações.

Brinco de inventar um balé desajeitado.

Sinto as ondas me carregarem suaves como em braços de anjos, perco o pé e fico leve. Já sei bailar.

No momento exato me entrego ao mar. Me cobre de sal e orgasmo. 

Me leva de volta. Possui meus sonhos e meu corpo.

Me cubre a fronte, me lambuza de beijos que são de ninguém, mas agora são meus.

Me enche as narinas, os ouvidos, os olhos num gozo sem fim a se desmanchar eternamente na areia e depois me assegura que a espuma branca renasceu e virou outra onda:  Nova e amante.

No meu retorno, deito-me na areia, cochilo o sono bom do depois do amor, ouvindo canções do fundo, bem fundo do oceano.

Acordo, calço os tamancos e piso na vida.  

 

 

Maria Luiza Kuhn

 

MULHER TERRA UNA

 

Participar de um Festival de Poesias em 2021. 

Participar de um Festival de Poesias em 2021 em Lisboa, onde o homenageado é MIA COUTO.

Participar deste festival foi desafiador. Sobretudo um ato de rebeldia e de coragem desta poeta. 


Escrevi a poesia que está na coletânea TERRA, UMA POÉTICA DE NÓS, conversando com todas as mulheres que transitaram pela minha alma em algum momento. Uma poesia gestada, parida, cuidada, polida....

MULHER TERRA UNA, está entregue ao mundo na Coletânea onde 126 poetas lusófonos, residentes em 14 paises, aceitaram o desafio de "poetar". 

Para mim é a verdadeira premiação objetiva e não subjetiva.

 

Compartilho a poesia!

 

Mulher terra una!

Acordou mulher pássaro,

mulher raiz, mulher nuvem

 um mundo atemporal

enquanto asas, trocava amiúde com as nuvens

confidências de seivas raízes

enquanto raízes, colhia recados do céu

relatos de banhos de chuva,

deleites em brisas, tempestades e medos

danças estrelares,

descoberta de cometas

mulher pássaro carregava na boca sementes

a deitá-las em berços ninados pela mulher raiz

fazendo afagos diuturnos na mãe terra

 mulheres acordando neste tempo

numa revolução silenciosa

avatares essenciais

matrizes de outro momento

acariciando o coração da terra

em ritmos de um só palpitar

consoantes de elementos vitais

sangrando e fertilizando

invocando total e perene irmandade

no voo daquela que acordou pássaro, nuvem, raiz

renascendo Terra una.

 

 

por Maria Luiza Kuhn 2021

 

 

DE QUE MATÉRIA SÃO FEITOS OS POEMAS?

 

Eduardo Galeno é precioso: “Os cientistas dizem que somos feitos de átomos. Um passarinho me contou que somos feitos de histórias.”

A frase me inspira a fazer a pergunta do título.

Edgar Morin, sociólogo contemporâneo, afirma que a questão da felicidade está na poesia da vida. “Vida, a meu ver, é polarizada entre a prosa - ou seja, as coisas que fazemos por obrigação, que não nos interessam, para apenas sobreviver, e a poesia – o que nos faz florescer, o que nos faz amar comunicar. E isso é o importante.”

O poeta Charles Bukowski lembra que poesias “são dardos em forma de palavras que vão direto para a parte emocional do nosso cérebro”. E,  ainda, “que um bom poema pode fazer uma alma despedaçada voar.”

Outro poeta, a quem devoto meu carinho e admiração, é Mário Quintana, gaúcho como eu. ”Se eu fosse um padre eu citaria os poetas. Rezaria seus versos, os mais belos, desses que desde a infância me embalaram e quem me dera, alguns fossem meus. Porque a poesia purifica a alma e um belo poema, ainda que de DEUS se aparte, um belo poema sempre leva a DEUS.”

Já Manoel de Barros brinca com passarinhos, lagartixas, borboletas e disso faz sua poesia encantada. Com tanta singeleza e profundidade, diz num verso: “Para enxergar as coisas sem feitio é preciso não saber de nada. É preciso entrar em estado de árvore. É preciso entrar em estado de palavra.”

Mia Couto canta em versos que uma moça se confessa ao padre dizendo ter engravidado do rio e este lhe faz rezar penitências até o dia em que ele descobre a magia daquele rio e passa a se banhar em suas águas todas as noites. Dispensa então a penitência?

O que é isso senão encantamento?

A imaginação tudo pode, inclusive criar mundos, porque sobreviver apenas não basta.

Salto dos poetas para uma leitura pragmática que me traz Eduardo Moreira, discorrendo sobre a economia da necessidade x economia do desejo. Filosofando, reflete que uma vez o homem ter cercado um pedaço de chão e afirmado que era “SEU”, o mundo nunca mais foi o mesmo. Aí chegamos à economia do desejo, aquela que sempre quer mais, mais e mais. . Segundo Moreira, e por constatar em números e estatísticas a nefasta prática de concentração de riquezas em minorias absolutas, e a distanciar enormemente ricos, pobres e miseráveis.

 

Qual relação entre o pragmatismo e a poesia?

As necessidades básicas supridas poderiam ser a prosa da qual fala Morin?

A poesia da vida seria o suficiente para o bem-estar?

Paradoxal ou não, convido-os a refletir.

Quisera, ainda, citar muitos outros poetas que amo, que me embalam no mundo mágico da poesia.  Hoje, entretanto, a reflexão fica por conta dos citados, visitantes nesta tarde de primavera, e que sem pudor espiam meu tempo e minhas letras, desde as janelas da alma.

 

Maria Luiza Kuhn/ outubro 2021

 

 

Maritacas no sertão de São Paulo

 

Atendendo chamados da vida, mudei para o que chamo "sertão" de São Paulo. Seco, árido, quente. Muito quente. A região transborda canaviais e queimadas. Por muito que se estenda o olhar nas cercanias, até onde a vista alcança, é raro encontrar sombra acolhedora. Falta a generosidade das árvores e da floresta.

No microcosmos da morada cultivam-se algumas plantas ornamentais, tratando de iludir a aridez. No jardim, é preciso regá-las no mínimo dia sim, dia não. Há palmeiras e outros arbustos apropriados ao clima. Contêm sua beleza. Na região urbana existem árvores, inclusive floridas. Mas a cidade carece de parques e praças onde o verde pudesse proporcionar maior bem-estar.

Reforço a gratidão pela benção da água, especialmente em tempos de crise hídrica, lembrando que somos todos responsáveis.

Sinto muita saudade do mar e da serra bordada de manacás. Lembro, em seguida, que o Tietê, nesta região ainda navegável e “limpo” do descuido desmesurado do homem, é quase mar, nas redondezas (embora seu nível tenha baixado). Preciso visitá-lo para selar um pacto de amor com a água doce.

Mas é sertão?  Paradoxal mesmo.

Ah, e as maritacas?  Estas aves de penugem verde como plantas (não será por acaso), barulhentas, voando em pequenos bandos, rápidas e tresloucadas me despertam, recordando que a vida urge ser acordada.

Os sentidos em aparência de vazio momentâneo são ocupados de imediato por outro olhar.

Há vida em qualquer lugar. Há poesia em cada paisagem.

Como diria Drummond “Tinha uma pedra no meio do caminho”, e assim, na imagética, retirou a “pedracidade” da pedra.

Vejo maritacas ao amanhecer e estrelas ao anoitecer, enquanto me adapto à aridez da terra.

Contemplo o que me cerca dentro e fora... vivencio este momento com plenitude, amenizado pelo conforto material, mas me transporto para as lonjuras do sertão nordestino, onde tantos sentem na pele a secura da terra, da desesperança, a sede de água, de pão e de justiça.

Então, me sinto desertificada em poetar!

 

Por Maria Luiza Kuhn

2021 setembro

 

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