Santiago Gomes

Santiago Gomes

Terça, 15 Fevereiro 2022 10:54

O novo herege

Os Tribunais Populares têm sua origem na Era Mosaica, em que a prerrogativa para julgar era dada ao conselho dos anciãos que tinham como norte a teocracia. Entretanto, é no Direito romano que se deu a instituição do Júri como hoje a conhecemos.
 
No Brasil, a referência ao Júri se faz presente a partir da primeira Constituição Política do Império (1842), seguindo até a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
 
O Código de Processo Criminal do Império – CPCI, prescrevia que somente os cidadãos eleitores e POSSUIDORES DE BOM SENSO E PROBIDADE poderiam compor o rol de jurados do Tribunal Popular.
 
Já o art. 152 do Diploma Constitucional, estabeleceu que "os jurados pronunciam sobre o fato, os juízes aplicam a lei." Tal sistemática processual ainda vigora na legislação nacional.
 
A pergunta é: Em que momento tudo isso se perdeu?
 
Hoje, retrocedemos aos julgamentos bárbaros realizados em praças públicas, ainda que essa tal “praça” se consolide num ambiente virtual, o cancelamento ocupe o lugar da guilhotina e a perda da cabeça, a perda completa da reputação.
 
Quem julga? Quem prescreve a condenação? Por meio de quais princípios norteadores?
 
Não há mais como separar o banimento virtual da segregação objetiva/material. A desconfiança passa a ser a premissa de uma população amedrontada que, em pleno século 21, parece retroceder à idade média, em que crimes de heresia eram passiveis de morte.
 
Devemos lembrar que os conceitos de heresia e inquisição são inseparáveis e embora a "heresia fosse definida num campo ideológico, não implicando em crime de conduta", era veementemente perseguida pelos tribunais da Inquisição.
 
A heresia era um crime de consciência, um pensamento desviante do dogma oficial da Igreja. A palavra heresia, significa "escolha", portanto, na visão da Igreja quem "escolhe" é o Concílio de Trento e o Papa, sendo assim "o herege caminha perigosamente".
 
A PRUDÊNCIA É O ESCUDO E A DIALÉTICA, A ESPADA. _o aNTI-hERÓI_
Domingo, 13 Fevereiro 2022 07:13

Servidão voluntária

A diferença entre a submissão e subjugação é a missão (propósito) no lugar do jugo.

Quando se está sob uma missão, a dor, as renúncias o sofrimento, vêm como parte de um processo decisório, proveniente do próprio indivíduo, instigado por sua necessidade ou ambição ou missão de vida.

Diferente disso, estar sob jugo, diz respeito à obrigatoriedade sem qualquer tipo de propósito individual, senão os daqueles que se servem do dominado. Deste modo a dor, o sofrimento e as renúncias se tornarão um fardo insuportável àquele que fora amansado.

Na história bíblica, Juses carrega a sua própria cruz, mesmo diante de todo o flagelo, dor e sofrimento. Esta analogia revela o limite do homem em prol de sua missão. A diferença entre o próprio Jesus e seus algozes, está no fato de que enquanto um sabia porque fazia, os outros... não sabiam de absolutamente nada.

Diante disso, parto da premissa lógica de que se você não souber sobre si, sobre sua missão, valor ou sobre a sua utilidade... Para o bem ou para o mal, se colocará à disposição daqueles que lhe dirão.

Não és escravo pelo poder de subjugação do seu amo, mas sim, mantém-se como amo por você decidir permanecer vassalo.

A decisão é sua.

(Ata da pequena reflexão matinal).

Quinta, 10 Fevereiro 2022 07:38

Virtude filosófica

Filosofia: Conjunto das reflexões particulares que buscam entender a realidade, a partir da razão. Reunião das regras ou princípios básicos que norteiam a vida prática.

Deste modo, consiste na reflexão acerca dos acontecimentos que nos circundam, de maneira a buscar alcançar a gênese que embasa os nossos saberes que, por fim, norteia a nossa percepção, análise e julgamentos das situações ao nosso redor. Essa busca pela essência das coisas é o que torna a filosofia um ramo com cada vez mais adeptos independente das suas crenças ou convicções.

A busca pelo fenômeno, destituída da análise oriunda do sujeito, é a busca essencial do filósofo, já que, é sabido, os conceitos pelos quais somos forjados durante a vida, se revelam como filtros perceptuais que distorcem a realidade em favor da ótica construída pelo observador. Por isso, hoje, diz-se “a verdade de cada um”... Isso porque, além da realidade que se apresenta, o que é concebido e discutido é nada mais do que a percepção do sujeito sob o fenômeno.

Como “filtros” perceptuais, podemos elencar a mente (crenças regras e valores); a cultura (valores morais e éticos); o ânimo (disposição química do indivíduo); o emocional; a psiquê (inconsciente, inconsciente coletivo, pensamento, sentimento, sensações).

Hoje, a sociedade é adaptada a padrões de consumo, de conceitos e de significados, de estruturas sociais e interesses. Pergunte a uma pessoa, por exemplo, o significado da palavra amor, ou da palavra felicidade. Certamente, você se deparará com respostas que se relacionam, respectivamente, com paixão e alegria.

Isso porque, pouco se discute sobre princípios e sim, diferentemente disso, discute-se sobre a concepção ou ideia originada, de um princípio que é completamente ignorado na discussão.

Exatamente por esse desconhecimento, criam-se discussões infundadas, norteadas pelos filtros perceptuais – como supracitado -, em lugar da discussão filosófica pautada no reconhecimento e alinhamento dos princípios norteadores. Pense por exemplo, quando, ao ir a algum lugar, você coloca um destino em seu GPS. A definição da sua origem é primordial (rua, bairro, cidade) já que pode haver várias ruas com o mesmo nome em diferentes regiões. Da mesma maneira se fará o destino, na medida em que a precisão de origem e destino devem estar determinadas em prol de que os caminhos possíveis lhe seja apresentado.

Assim se dá a “pergunta da pesquisa” seguida das hipóteses.  Deste modo, penso que a melhor forma de compreender o esforço dos filósofos é compreender a pergunta filosófica. Pois, inclusive nas ciências, a pesquisa se inicia, geralmente, com um questionamento que, por sua vez, guiará a metodologia pela qual se quer garantir que o conhecimento seja alcançado.

No diálogo Platônico de Laques, Sócrates solicita ao renomado general que dá nome ao diálogo que defina a coragem, e, como ocorre em outros diálogos, o interlocutor tentará exemplificar o que seria a coragem sendo rebatido em todas as tentativas por novas e embaraçosas perguntas.

Sócrates demonstra que a pergunta não pode ser respondida com o exemplo de uma ação corajosa qualquer, mas, diz ele, “Diga-me o que, estando em tudo isso, é o mesmo”. Dito de outra maneira, para o filósofo, somente o que nunca muda é passível de ciência, ultrapassando, por sua vez, a multiplicidade de particulares [1].

E é exatamente este o ponto de estudo da filosofia. A filosofia, não somente incentiva-nos, como também nos capacita a explorar o “quadro geral que está por trás das particularidades da situação” [2].

REFERÊNCIAS

[1] Roberto Bolzani Filho, texto de introdução de A República de Platão, Editora Martins Fontes, 2014.

[2] Blackburn, Simon (1999), Think: A compelling Introduction to Philosophy. Oxford

(...) somos apenas o que somos, mas, por vezes, o que somos não é o suficiente nem mesmo para nos agradar.

Temos que ser mais, se quisermos conquistar aquilo que nos falta... óbvio, isso porque, se nos falta algo externo, é porque falta algo na gente mesmo para obtê-lo. Temos de nos tornar melhores do que nos apresentamos e, por conseguinte, abandonar a nossa singularidade e nos fragmentar, se quisermos preencher o vazio que nos aflige. Temos que ser mais, mas... nunca diferentes essencialmente, pois é importante que sejamos capazes de nos reconhecer.

 

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Um homem esta caminhando no acostamento de uma estrada e se sente vazio... solitário. Como um câncer, as células putrefatas da memória parecem se deteriorar a cada novo passo. Ele tenta curar a si mesmo, relembrando-as, mas sabe que parte delas já se foram para sempre... Talvez se as tivesse relatado a alguém ou as registrado num papel de pão, que seja... mas se foram.

Ele está vazio de momentos, solitário, como se a vida fosse apenas um acrescento de zeros depois da vírgula e a ponto de suas recordações se confundirem com suas fantasias ou desejos.

Porém, a noite o recebe, o envolve, enquanto o vento úmido parece abraçá-lo. A lua ilumina o que pode ser visto da estrada adiante, estrada que, há muito, tem sido seu caminho. Seus pés são como hastes firmes no asfalto e seus olhos, como o infinito oceano, misterioso, profundo e incerto. As cordas do seu violão jazem enferrujadas, enquanto a melodia parece ter se esvaído de suas mãos desacostumadas.

- Onde estará ele? — perguntei certa vez em que se armava uma tempestade.

- Onde estará ele...? — me perguntaram tanto tempo depois, em que não mais se tinha notícias...

- Onde está ele? — certo dia ela me perguntou... tarde demais.

As noites sempre foram convidativas, ao meu ver, mas, sem ele, parece que se tornaram mais solitárias.

Sinto saudades do meu amigo, sinto saudades da sua euforia e das suas músicas... Sinto falta dos momentos de êxtase, adocicados com certa melancolia e pequenas doses de mistério... A melancolia, entretanto, se foi. Hoje, o que me resta é sentar na velha poltrona onde ensaiávamos velhas canções que nunca chegamos a tocar ou encostar no barco que ainda descansa na areia da praia onde costumávamos ter longas conversas, me deleitar em recordações as quais ainda não me abandonaram... para o bem ou para o mal.

Outrora a vida era como um conto de fadas medieval, em que cavaleiros brandiam suas espadas, erguiam seus canecos e cantavam poemas sobre amores impossíveis. As donzelas ainda podiam ser encontradas nas torres de castelos suntuosos, tecendo cavalos alados em tapeçarias finas e entoando velhas cantigas, inexprimíveis em palavras atuais. Ele, do seu modo singular, era capaz de transformar um simples olhar entre dois amantes, na maior história a qual se poderia querer viver.

Lembro de um momento... era o início da primavera, época em que as paixões desabrocham nos corações, tempo de deixar um pouco de lado nossos pesados fardos, para nos perder nas estradas íntimas e sinuosas que se escondem nos pensamentos secretos... Próprios ou de outrem...

“Quero sentir sua alma, antes de permitir que a realidade interfira. - ele disse a ela, antes de beijá-la - Viva por um momento a sensação de estar sonhando um sonho bom... só um pouquinho que seja. Sinta algo que meu corpo jamais poderá lhe dar, e me deixe tocar algo aonde jamais um beijo poderá alcançar. Deixe-me ter a certeza de que a vida lhe roubou dos meus sonhos para te trazer a mim...”.

Por quase um segundo, de relance, volto os olhos para a gata que dorme em meu colo enquanto escrevo... de súbito, sou tomado pelo pensamento de que, um dia (como o dia de hoje), ela irá morrer e, tal como está de olhos fechados agora, estará um dia, num decorrer de momentos que se esgota pouco a pouco, como areia numa ampulheta...

Um relógio , atrás de mim, gira seus ponteiros mais acelerados que eu gostaria...

Chorarei, como sempre, pelos cantos, pelo vinho desperdiçado... chorarei por ela e custarei a jogar suas coisas fora, mas de sorte o farei. “Não deixe os dias passarem”, diz a canção... Tudo está em paz agora... Porque tem que ser diferente? O tempo é a nossa maldição e ignorá-lo tem seu preço.

Penso no porquê de não tocar essa música ainda, enquanto a escuto... Talvez seja porque poucas pessoas a conheçam, mas é sabido que não costumo fazer nada para agradar ninguém: nem tocar, tampouco escrever, como pode ser constatado diante desta prédica distorcida e inconstante.

https://www.youtube.com/watch?v=Iosx6flOj98

 

Terça, 05 Outubro 2021 07:23

PERGUNTE ÀS CINZAS

“Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: ‘O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo’. O homem se desfaz em lágrimas e diz: ‘Mas, doutor... Eu sou o Pagliacci’.

Boa piada. Todo mundo ri. Rufam os tambores. Desce o pano.”

(Alan Moore)

***

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“Eu não te disse mentiras... Disse apenas o que você queria ouvir, querida. Por que fez isso comigo? Punindo-me por amar você? Punindo-me por dar-me a você? Punindo-me, creio que, por nada... Por nada? ” – Divagava em meio à cacofonia eufórica que o circundava enquanto, sem produzir qualquer efeito, inda sóbrio, se desfazia como se evaporasse pelos poros, junto às cinzas d’um velho cachimbo.

Alguns conhecidos tentavam animá-lo, mas jamais compreenderiam a guerra que travava dentro de si mesmo, domando seu cavalo em meio a uma batalha que parecia estar longe de acabar...

Ele parecia nem mesmo estar ali. Porque ele sabia: se permanecesse onde estava (insuportável e em agonizante solidão), ainda assim, não teria que se deparar com o vazio que ela deixou ao partir sem rumo, numa noite chuvosa, pra não deixar rastros.

De súbito, o conhaque faz efeito e ele sai caminhando um pouco cambaleante, (mais por ter ficado tanto tempo sentado do que pelo trago requerido), mas, após o susto, ergue a cabeça, rodopiante, do balcão, percebendo que cochilou e que jamais havia se levantado daquele banco (ou saído daquele buraco). Havia noites, estava sem dormir e seu corpo esgotado começava a cobrar o preço.

Porque ele sabia: pior que o sofrimento era a agonia, pois o ser agonizante se contorce sob a pele sem que ninguém seja capaz de vê-lo. “Uns sonhos morrem e outros nascem.” – Dizia para aquele que enchia, impiedosamente, seu copo.

Lembrar das últimas palavras dela o fazia queimar por dentro. Ele apenas queria que ela o implorasse de volta, dizendo que não poderia viver sem ele e todas essas baboseiras pueris de sempre... O homem é um animal estranho e condenado ao sofrimento; belo e docemente amaldiçoado pela reminiscência.

Enquanto olhava ao redor assim como para as luzes refletidas em seu copo, podia ver algumas mulheres, inócuas, se insinuando, sutilmente, enquanto ele, apenas, balbuciava para si mesmo: “Bastardos”.

Porque ele sabia: ela havia segurado o choro para não dar o braço a torcer. Porque ele sabia: caminhou determinada e se abrigou na chuva para que não pudessem ser vistas as lágrimas, isso tudo porque sabia: se a paixão era o suposto abrigo, o melhor era seguir pela tempestade.

Mesmo assim... Mesmo sabendo disso, ele ainda agonizava. Recordando de sua carne marcada pelo tempo, macia, úmida e quase sempre embriagada, contorcendo-se, quando perto, irresistivelmente... “Faria o mesmo com algum outro? Mentirosa trapaceira... Dizia que era minha e que eu era para sempre. Bastou um deslize para que mostrasse sua verdadeira face. Devia já estar com outro... Vadia.” – murmurava.

Ele havia construído sobre ossos sem se dar conta de que o predador, inevitavelmente, voltaria para devorá-lo também... Foi uma atitude tola, mas ele arriscou.

Ele ainda não havia terminado... Permaneceu ali, até onde se sabe, com o cenho franzido, olhos cerrados e insinuantes, pois, sabia: aquela foi sua última lembrança e os olhos dela (lamentava em forma de palavras num pequeno guardanapo amassado) "se afastariam e se apagariam, mas jamais desapareceriam".

E o velho se percebe, como se estivesse decomposto de seu próprio corpo, com sua imagem miseravelmente distorcida refletida no copo, sob um banco estofado cor de madeira manchado de homem; lembrando do rosto dela tal qual do seu sorriso refolhado; de tudo o que, por pouco, havia posto a perder por tão pequena desventura e, flutuando e devaneando acima do tempo e das coisas, como num sonho, não podia fazer nada... Só esperar.

"Agora e, lamentavelmente, já posso novamente viver das lembranças das outras vezes em que fora embora" - pensou antes de pagar a conta.

 

https://youtu.be/IY29fWjUM80

 

Terça, 21 Setembro 2021 15:23

UM MILHÃO DE PEQUENOS PEDAÇOS

Ele havia chegado ao fim do dia, sentado no balcão enquanto as mesas ainda permaneciam vazias. Pediu uma garrafa mediana... Um vinho rude proveniente de uvas cultivadas na região. Era o que tinha... Ele se serve enquanto o barmen segue seu destino, limpando as marcas de copos do dia anterior.

Ele retira de sua mochila um bloco de notas e começa a escrever qualquer coisa... Não há como saber o que escreve. O importante, ao observador, é apenas se atentar a esse fato.

Eis que uma mulher desce a escada que dava acesso ao piso superior. Ela caminha e cumprimenta o barmen chamando-o pelo nome e pergunta sobre alguns outros funcionários que já deveriam estar lá e aponta para um velho relógio na parede. O homem nada responde... Apenas se volta para seus afazeres.

A mulher então – aparentava ter uns cinquenta anos– olha para o homem sentado no balcão e sutilmente o analisa: uma mochila grande; homem de estatura média; concentrado em escrever qualquer coisa que não a dizia respeito. Ela senta ao seu lado e pergunta – sotaque carregado (da perspectiva dele) - sobre o vinho que está tomando. Ele apenas responde que já havia tomado melhores, mas era o que o dinheiro dava para pagar.

- Não é daqui, não é mesmo?

- Vim do ocidente... Há algumas centenas de milhas daqui.

- Está perdido...? Digo... Essa cidade não é turística ou coisa do gênero... – ela percebe que ele está concentrado no que faz. - Enfim... Desculpe o incômodo e fique à vontade.

Ela segue ajeitando algumas cadeiras e alinhado às mesas enquanto ele, imediatamente, se vira de lado, desviando a atenção do bloco de notas e a oferece um caneco de vinho.

- Não costumo sentar com clientes, mas ainda está cedo e só estamos nós aqui... Como parece que não aguarda companhia... Tomarei um trago contigo.

O homem atrás do balcão coloca outra caneca de barro sobre a madeira crua e a serve de uma generosa dose.

- Você é algum tipo de escritor...? – Acenando com a cabeça para o bloco de papel.

- Não publicado... Mas pela quantidade e frequência que produzo histórias, posso me considerar um.

- Sobre o que escreve?

- Sobre momentos, sobre a vida vista pela ótica específica de um homem incomum e vagante... Nada em especial.

- Alguma boa história para contar? Alguma que se lembre, ou que possa descrever sua vinda até essa cidade?

- Sim... Tenho uma. Não é tão longa... Talvez o suficiente para esgotar essa garrafa.

- Pois bem...

- Hum... – Ele olha para o bloco de papel e para a caneta repousante ao seu lado.

- Comece como se começa uma história...

- “Era uma vez”?

- Sim... Adoro histórias e essa é uma das minhas formas favoritas de começar.

- Pois que assim seja... “Era uma vez...”

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***

Uma pedra há milhões de anos sem se preocupar com nada - pois não havia motivos para que, em sua continuidade existencial, carecesse se imbuir da senciência - em algum momento, decide transformar sua existência e pensa em uma forma de fazê-lo. Até o momento que se depara com um organismo mais sensível que se esforçava para romper o solo, mas, mediante a sua fragilidade, não conseguia realizar tal feito.

A pedra então decide ajudar esse pequenino e frágil organismo, lançando-se à ideia que, se fragmentasse a si mesma em milhões de pequenas partes, poderia servir de base para aquele pequeno ser e, em contrapartida, adquiriria uma nova constituição de si mesma a partir do momento em que se forjasse do corpo daquele organismo.

A planta finalmente irrompe o solo pedregoso, pois agora era constituída da pedra e minerais e, por fim, pode eclodir.

A pedra agora, forjada de planta, agregava em si um fragmento de percepção diferente de outrora, pois se encontrava mais suscetível ao ambiente e às sua transformações e estações. Passou a notar a ira dos ventos e das tempestades; o acalento do Sol primaveril e das brisas que carregavam suas sementes e geravam cada vez mais e mais de si mesma.

Mais do que isso, organismos mais livres e complexos, passaram a ser seduzidos pela nova forma vegetal que assumia e então a pedra se viu envolvida pelo animal e conheceu uma pequena dose de liberdade... Passou também a sentir uma realidade diferente da qual estava acostumada: passou a sentir a intensidade sensorial, proveniente das nuances das estações e junto, conheceu a dor e a desolação.

Destemida, a pedra ainda queria ir além e então encontrou uma diferente forma a qual, parecia, possuía algo que a ajudaria a aliviar toda a sua angústia e agonia... Foi o momento em que o primeiro animal humano se alimentou de outro mais rudimentar e junto, essa pedra se veste de homem e, finalmente e, inexoravelmente, consegue gritar... Não um grito comum, mas um urro de desespero, liberdade e agonia... Não sabia bem o que realmente significava.

***

- ... E... fim.

- Bela história... É isso o que está escrevendo em seu bloco?

- Quase isso. Quer saber?

Ela apenas acena positivamente com a cabeça e, naquele momento, até o barmen, há alguns metros de distância, prostra-se a ouvir.

- “Tal qual a planta se nutre dos minerais; tais quais os animais se constroem através das plantas; tal qual o homem se desenvolve através dos animais... Carrego em mim tudo: desde a inteligência da pedra até o instinto do animal. Mais que isso: carrego em mim as tempestades e os furações; o acalento da brisa suave e o calor do Sol nascente; do silêncio da meia noite  à cacofonia do meio dia. Sou a consciência ativa de tudo o que posso conceber tal qual o que ainda não posso. Estou na linha limítrofe entre o conhecido e o desconhecido, portanto, quanto mais conheço, menos sou capaz de mensurar sobre o quanto há para se conhecer”.

- O que quer dizer com isso exatamente?

- Quero dizer que, nesse momento sou uma rocha e o que expresso através dessa pequena conversa é o que represento objetivamente, análogo a uma brisa suave num fim de tarde outonal com o que ainda resta de luz e calor em mim... Logo, a escuridão da noite passará a exercer sua força e não as refutarei... Acolherei e as internalizarei, mas não estarei mais aqui, pois aqui e para vocês: ainda sou a brisa suave do fim de tarde.

Ele ergue a caneca e toma seu último golpe de vinho. Coloca sobre o balcão uma nota e lança uma moeda para o barmen. Ele então segue seu caminho, deixando apenas o rastro presentificado da sua ausência, silêncio e solitude.

 

https://www.youtube.com/watch?v=a-Kn2FfdfdE

Quinta, 29 Julho 2021 08:51

CANÇÕES DE DESPERTAR

A taça de conhaque sobre a mesa refletia a luz débil, enquanto o violeiro, absorto, proferia sua melancolia em notas sutis e em baixo volume, quase que imperceptível... Era como queria seguir naquela noite, naquele palco, naquele bar: incógnito.

De súbito, uma mulher se destaca de um grupo e se aproxima do palco:

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- Olá, tudo bem?

Ele apenas acena com a cabeça.

- Teria como, por favor, tocar uma música mais animada? – com um olhar de piedade e mãos unidas, em forma de prece. – Você está me deixando triste...

Ele a olha nos olhos dela, por um instante, e desfere um sorriso torto junto ao seu olhar desdenhoso.

- Interessante...

- O que?

- Não imaginava que eu fosse possuidor desse tipo de poder...

- Como assim?

- Deixa para lá.

- É que hoje é aniversário de uma amiga e estamos comemorando...

- Entendo... E quer que eu as faça felizes? Acredita realmente que essa é minha responsabilidade? Digo... Não posso imputar em você algo, como você mesma disse: “tristeza”... Crê mesmo que sou capaz de fazer isso com você ou com quem quer que seja, ou o contrário?

- Não sei... Apenas queria escutar algo mais animado, agitado...

- Será que se eu tocar um som bem sensual, seria capaz de fazer você tirar sua roupa?

- Claro que não... – arregalando os olhos.

- Pois bem... Mas tenho que lhe dizer que está certa em denotar que a música corrobora para seu estado “deprimido”... O que não significa que ela seja capaz de "criar" o que já não exista, ou seja, neste caso, apenas revela o que ESTÁ em você. Pode ignorar ou não, mas esse sentimento está aí e prefere, até quando: não sei, continuar ignorando ao escolher estampar um sorriso no rosto e fingir que nada está acontecendo... Enfim... Desculpe-me pela divagação. Tudo isso o que está acontecendo agora com nossa sociedade, essa superficialidade, tem mexido comigo... Apenas estava colocando para fora, me servindo da música, o que estou sentindo.

- Tudo bem... Mas está certo no que disse a respeito dessa tristeza que venho ignorando em mim. Como sabe?

- Não sei... Você quem me disse quando chegou aqui.

- E o que acha a respeito do que está acontecendo com o mundo... com as pessoas?

- Não acho nada. Apenas sei que enquanto não prepararmos nosso corpo e espírito para nos harmonizar com a realidade, continuaremos, pois, a atirar para qualquer lado sem nada acertar... Tudo continuará igual. Essa ilusão de liberdade e pseudo felicidade é o que está nos mantendo no fundo do poço.

Ele se apoia no violão, toma um gole de seu conhaque.

- O que você está tomando? – Ele pergunta.

- Cerveja...

- E quem escolheu para você essa bebida?

- Eu mesma, ué! Olhei no cardápio e pedi essa em específica.

- Certo... Responda-me: existe alguma cerveja artesanal no cardápio?

- Não tenho certeza, mas creio que não. Somente em lugares específicos, né?

- Pois é... Então escolheu a cerveja que é oferecida pela maior parte dos bares. Sabe por que essas cervejas são oferecidas na maior parte dos lugares?

- Porque são as mais conhecidas?

- Sim... Porque mantem o poder de venda e massacram quem tenta competir com elas. Portanto, perceba: se essas marcas dominam o mercado, onde está a sua liberdade de escolha?

- Humm... – Ela franze o cenho e acena com a cabeça.

- A ilusão sobre a liberdade é o que nos mantém realmente prisioneiros, pois permanecemos passivos e minamos a nossa capacidade de saber de que lado estamos.

- E existe uma saída para isso? Vivemos numa sociedade predatória, certo?

- Não acredito em uma saída... Acredito na consciência. Não é fácil lidar com a ideia desse domínio invisível, pois, observe: implícito em nossas ações, seguem os manipuladores atrás das cortinas... Movendo-nos como se manipulam marionetes. Mas enfim... São tempos difíceis, mas se quisermos mudar algo, devemos começar a tomar consciência das coisas e é necessário crer para ver e abandonar o velho jargão... Mas enfim. Vá curtir a festa com seus amigos... Tocarei algo mais amistoso.

Ele brinda com ela e sorri.

- Obrigada... – Sorrindo. – Você é bem sério, não é? Entretanto... Apreciei a pequena conversa. - e se vira para retornar à mesa.

- Apenas, antes de ir - diz ele -, pense em uma coisa: você já viu alguém, com uma espada em riste, com um sorriso no rosto?

- Eu jamais vi alguém com uma espada... 

Ele olha para ela e, embora sarcástico, finalmente sorri.

https://www.youtube.com/watch?v=gQiS6ml0eDo

Quarta, 14 Julho 2021 11:03

DESTINO

O cair da noite trazia consigo o frio cortante típico da estação em que caem as folhas. Uma garoa perturbadora acabara de começar e aquele homem entra no bar enquanto ainda está seco.

Ele tira das costas sua mochila pesada e a coloca no banco ao seu lado, bem rente ao balcão do bar. Atrelado à mochila está um pequeno aquário com um peixinho vermelho o qual ele chama pelo nome de “Destino”. Ele desatrela da mochila o aquário que lembra, pelo formato, uma lamparina.

O barman vai até ele.

– Não é permitido animais aqui… – Ele aponta para o cartaz na porta –  mas abrirei uma exceção já que esse parece inofensivo.

– Destino…? Não se preocupe… Ele não causará problemas.

– Vai querer o de sempre?

O viajante olha para o Barman.

– Jamais vim aqui antes… Não me é estranho esse lugar, mas tenho certeza que jamais vim aqui.

– Deixe de ladainha e aceite esse trago por minha conta… A partir do próximo, você paga com o que tiver.

– Aceito…

– E então? O que carrega de tão pesado na mochila?

– Não havia me dado conta do quão estava pesada até esse momento… – ele volta seus olhos para a mala ao seu lado. – Esse é o meu legado… Não cabe a você saber.

– E para o peixe?

– Destino? Apenas artemias… Vivas, por favor.

Eis que no mesmo instante uma jovem de cabelos dourados como o Sol nascente esbarra nele fazendo-o derramar um pouco da bebida em sua camisa já úmida… Ele mal olha para a camisa, visto que permanece hipnotizado, como por encanto, para seu serpenteante corpo enquanto caminhava.

– Eu conheço essa menina… Ela…

– Sim… Já foi sua. Assim como já foi ou será de todos. Esqueça-a…

– Do que está falando? Acha que estou tão desajustado para competir por uma mulher como ela?

– Não duvido, filho… Apenas temo pelo que terá de abrir mão para tê-la, já que não tem muito para dar. Juventude é uma meretriz que encanta e seduz os homens em determinado momento de suas vidas… Eles a escracham ansiando pelo prometido Poder, oriundo da maturidade… Depois de serem sobrepujados pelo Desejo incansável, se tornando escravos dele, voltam rastejando… Propondo-se a dar suas míseras moedas arrogantes em troca de seus favores. Por isso ela os esnoba… Assim com fez com você agora, ao deixar seu perfume pelo caminho, escancarando suas entranhas para poder mais uma vez, consumir-se em seu próprio remorso.

– Quem sabe você não poderia…

O homem atrás do balcão ri… um riso debochado.

– Acredita mesmo que pode barganhar comigo, garoto? Tudo o que tenho agora é o que lhe sirvo… Cabe a você aceitar ou não. Apenas não me peça para lhe trazer algo de volta.

– Desculpe… Está certo. Se quiser ir servir os outros… Não quero lhe ocupar

– Preocupe-se com você. Os outros não são da sua conta.

– Ok… Não está mais aqui quem falou.

O barman o serve de mais um trago.

– A garrafa acabou… Quer que abra outra?

– Mas já…? Acabei de chegar e mal terminei minha dose?

– Não está atento, garoto… Bebeu uma garrafa inteira e não se deu conta… Como sempre.

Então o homem se levanta e, finalmente, percebe que está um pouco cambaleante. Não o suficiente para lhe derrubar, mas compreende que fugiu do seu estado normal.

– Não… Não precisa abrir outra. A viagem ainda é longa e preciso me manter o mais sóbrio possível.

– Você é quem manda.

– Preciso ir… Quanto eu devo?

– Nada… Como lhe disse: esse trago já está pago por mim.

– Posso fazer uma pergunta?

– Já fez…

– Como “já fiz”?

– Fez-me uma pergunta ao me dizer: “posso fazer uma pergunta?”.

– Tá… Ok. Posso fazer duas perguntas?

– Sim.

– A vida é um sonho?

– Alguma vez já esteve certo de que estava desperto realmente?

– Saiba que é falta de educação responder a uma pergunta com outra…

– Isso não é uma resposta. Não lhe disse que responderia, apenas que podia perguntar.

– Enfim… – ele coloca sua mochila nas costas e olha atentamente uma mulher, com o rosto coberto com um véu, num canto escuro do bar com um tabuleiro de xadrez montado. – quem é aquela mulher?

– Esqueça-a… Ela está esperando alguém mover…

– Nossa! – ele se surpreende. – É uma jogada óbvia… Vou lá resolver isso e…

– Não ouse subestimá-la, filho… Não seja impetuoso. Algum dia terá realmente uma boa jogada e ainda assim perderá… Mas, ao menos, seja paciente e, quando chegar a hora, se entregue com honra.

– Mas é uma jogada óbvia…

– É o que muitos pensam antes de serem derrotados final e fatalmente. Não se ative… Terá algum dia a sua chance e ela estará lhe aguardando pacientemente neste mesmo lugar… E a todos os outros também. Há rumores de que apenas um homem em toda a história conseguiu derrotá-la… Mas, como disse… São apenas rumores.

– Está me dizendo que ela é…

– Sim…

– E você?

– Eu…? Alguns me conhecem por inexorável, inflexível, incorruptível e democrático…

– Tempo…

Ele apenas acena com a cabeça enquanto o menino ajeita sua mochila e caminha até a porta. A noite e o frio parecem impiedosos do lado de fora.

– Tenho certeza de que quando eu abrir essa porta, acordarei… – diz para o barman que apenas permanece apoiado no balcão com um sorriso no rosto.

– Não está esquecendo nada, homem?

Ele volta seus olhos para o peixinho inquieto sobre o balcão. Seu nome é Destino. Porque ele sabia: no fundo, ainda que percebesse agora o peso que carregava em sua mochila… Abandoná-lo, o faria condenar, o tempo que lhe restava, ao verdadeiro vazio.

https://www.youtube.com/watch?v=IQpAFKAnr_8

Quarta, 07 Julho 2021 09:47

APENAS MAIS UMA VEZ

Aperte o play...

Descobri que o amor era mais que apenas um jogo. Você está jogando para vencer, mas perderá do mesmo jeito” (Gary Moore - Still got the blues)

(Diário de um viajante)

Deveria ter te escutado, amigo... No momento em que ousei me virar, desviando minha atenção da (inócua) meia garrafa restante de malbec que jazia no balcão, para atestar que a doce voz entoada com tanto calor, efervescência e impetuosidade, ainda poderia ser sobrepujada por um olhar sombrio e maculado que qualquer homem desejaria, mas poucos são capazes de desbravá-lo sem perderem a si mesmos pelo caminho.

- De que adianta? – perguntei àquele que me servia chá enquanto, entre o cão e o lobo, a luz vacilante do Sol poente parecia se apegar à minha avidez tal qual o artista ao pecado.

- De que adianta? – perguntei enquanto pagava o pequeno e amargo café num restaurante beira-de-estrada antes de continuar a percorrer as dezenas de milhas restantes para alcançar o resquício de memória requerida, com palato de excitação, paixão e remorso.

- De que adianta? – para meu próprio reflexo melancólico no retrovisor pouco depois de transpassar o limite da cidade.

Era tarde da noite enquanto cruzava, o que antes eram conhecidas, as mesmas ruas após tanto tempo (que nem me lembro mais). No caminho, o mesmo que percorri por tantas noites (e dias), não mais encontrei qualquer tipo de lembrança que pudesse remeter a ela: o antigo café havia cedido lugar a um supermercado e a velha estação de trem onde costumávamos nos encontrar, como um cemitério, apenas servia de depósito para antigos vagões carcomidos pelo abandono assim como minhas memórias.

O telefone, escrito com caneta vagabunda num guardanapo barato e um codinome, era o último vestígio que tinha como evidência das noites vadias onde o cigarro queimando e garrafas espalhadas se tornavam os únicos (fora ela) companheiros de horas sombrias.

Percebi que minhas preciosas recordações haviam sido escritas em folhas de cadernos... Aquelas que, com o tempo, jogamos fora. Negligenciei minha própria história e, no momento em que descortinei as marcas das idades reivindicando os espaços entre a minha pele, conferi lamentavelmente que não sou nada além do que posso me lembrar (quase nada).

Decidi que era o momento de visitar meus fantasmas antes que me tornasse um... Ela havia me prometido que nesse mesmo dia (do último adeus) durante todos os anos em que ainda se lembrasse de mim (que segundo ela, seria sempre), estaria lá, sentada no balcão assim como eu (que havia prometido, no momento certo, voltar para buscá-la), no presente em que desconsertadamente a conheci.

Tanto tempo, foi há tanto tempo... Mas ainda fico triste por você”. À direita, numa rua central escura, a carne já estava exposta enquanto alguns beberrões, incapazes de diferenciar um poste de um “vaso”, vociferavam encantamentos vis ao mesmo tempo em que se lamentavam, indignados e ignorados, vivendo da caridade de quem, no fundo, os odiava. O céu estava aberto e uma Lua tímida minguava enquanto o cheiro das Damas-da-noite invadia o interior do meu carro... Estava próximo do lugar, meus sentidos aguçavam e me indicavam o velho e conhecido estacionamento.

As únicas "coisas" imutáveis nos homens são suas paixões. Era o mesmo bar; o mesmo nome; as máquinas de flipper e a velha jukebox que, imediatamente, após uma moeda, solicitei “Still got the blues” e pensei enquanto reivindicava meu lugar junto ao balcão sentando em um banco com estofado queimado de cigarro: “Deveria ter te escutado, amigo!”...

Lá estava eu, recobrando minha dose de velhas lembranças e aguardando sabe-se lá o que (ou quem), em algum lugar no passado, imaginando quantas histórias haviam se passado durante minha ausência... Quantas belas histórias que jamais seriam contadas, morreriam ou desapareceriam assim como aquela que, por pouco, não me escapou.

***

Após algumas horas e uma garrafa e meia, o que me resta é apenas a lembrança de que estive ali, e o deleite amargo do cigarro que fumei após tantos anos. Devo ter gastado uns três guardanapos escrevendo sobre o que me lembrava dela, sobre "seus olhos melancólicos e maculados sobrepujados por sua voz calorosa e impetuosa que podiam fazer com que homens se perdessem dos caminhos de suas casas" (não me lembro direito se era essa a ordem, tampouco, para ser honesto, do seu rosto).

Verdade seja dita, nem mesmo me lembro se seus olhos eram castanhos ou cor-de-mel. Guardo apenas recortes das noites enquanto ainda estava sóbrio... E do que jamais sentiria novamente mas daria tudo para sentir apenas mais uma vez. Mas estou certo de que escrevi da forma como deveria, e assim os deixei (os manuscritos) sobre o balcão: junto ao que sobrou do vinho; das promessas não cumpridas; da miserável gorjeta; dos ossos de frango juntos a um cigarro no cinzeiro.

Após recobrar minha consciência, retornando para a estrada junto ao Sol nascente, não me lembro de pensar em mais nada... Pararia ainda uma última vez para tomar um pequeno café amargo de beira-de-estrada e, finalmente lembraria do seu rosto assim como, logo, esqueceria para sempre e, tal qual os poetas pagãos, permaneceria vivendo como Pagliacci: escarnecido em minhas próprias prédicas e testemunhado apenas pelos olhos da minha infâmia.

https://www.youtube.com/watch?v=QvwbtILwNis

 

Quando não há lei cabível, a consciência é a punição mais severa. (o autor)

Poucos devem se lembrar do caso que chocou a cidade de Campinas na década de oitenta, mais especificamente, no dia 22/11/1986 às 11:00h. Ocorre que, um adolescente, de 16 anos, portando revólver calibre 38, ao participar de um roubo a uma casa, acabou desferindo três disparos "acidentais" (segundo as notícias locais) sendo que dois desses disparos acabaram acertando, fatalmente, Iraci de Souza, de 27 anos e o filho, Pedro de Souza Prandini, de 3 anos.

A polícia foi acionada por um vizinho que percebeu a estranha movimentação e chegou há tempo de render os três bandidos, sendo um deles, o menor Thiago da Silva, que disse ter "perdido o controle" por conta da criança que não parava de chorar. O adolescente foi levado à Unidade de Internação Provisória (UIP) do Jardim Amazonas, enquanto os outros dois, Renato Pereira, de 23 e Ivanildo Ventura, de 19 anos, foram levados ao CDP - Centro de detenção Provisória - de Hortolândia.

O marido, e pai da criança assassinada - funcionário público e dono de um mini-mercado local -, de 39 anos, estava casado com Iraci há seis anos e Pedro era o primeiro e único filho do casal.

"Não há como descrever o que estou sentindo... Não há punição possível para esse assassino, que seja capaz de dar fim à minha dor. Sei que vou carregar isso comigo até o fim da minha vida e não há nada que possa ser feito.", disse o homem - que preferiu não se identificar - ao jornal local.

***

Ele não voltou mais para o que, antes, era o seu lar, hospedando-se por alguns meses na residência da irmã, até que conseguisse vender a sua casa e passar para a frente o seu comércio. Não houve mais qualquer notícia ou nota de rodapé, em qualquer jornaleco de bairro, que comentasse qualquer coisa sobre o assunto.

Desce o pano, acende-se as luzes, o público permanece atônito e sai em silêncio fúnebre... Caso encerrado.

Aperte o play.

Uma das prerrogativas em se trabalhar em áreas como a Psicologia, Ciências Sociais ou Direito, por exemplo, é que acabamos tendo acesso a casos específicos, daqueles que não mais se ouvem falar, mas que servem como base para acompanhamento e estudos sobre evoluções... Esse foi um, dentre tantos, que tive acesso:

Thiago, permaneceu em reclusão até completar dezoito anos. Sozinho e sem condições de manter as próprias necessidades fora dos muros da instituição, acabou sendo tutelado pelo educador Jurandir da Costa, de 41 anos, que fez questão de assumir a responsabilidade sobre o jovem - encabeçando um projeto de ressocialização juvenil -, que teria a participação e assistência, semanal, de assistentes sociais e envolvidos no assunto.

No início, relatou Jurandir, "O garoto se mostrou resistente e arredio... Ele (Thiago) contou dos abusos e violência que sofreu no tempo em que permaneceu na instituição e sobre a revolta que tinha do pai, que pouco conheceu, e da mãe, alcoólatra que o espancava e o obrigava a trazer dinheiro para casa. Ele tinha cursado apenas o ensino fundamental e mal sabia ler e escrever... Percebi que seria a educação básica a minha responsabilidade, logo de início, assim que ele veio para a minha casa.", descreve.

A condição psicológica do jovem Thiago mostrou uma melhora significativa quando Jurandir passou a levá-lo para discursar em reuniões para jovens vítima de abuso e, outras, voltadas para o público toxicodependente.Já cursando o supletivo, o jovem passou a escrever alguns ensaios, orientado pelo mentor, que serviam de base para reflexões em escolas e Instituições Socioeducativas.

Segundo Jurandir relatou em seu diário: em nenhum momento se abriu para, com o jovem, discutir sobre o fato ocorrido em sua adolescência e que o levou à reclusão: "Essa situação, entendo, deve ser tratada com profissionais da área - psicólogos e afins -, e não cabe a mim, como educador e mentor, me envolver, diretamente, ou julgar, um comportamento ocorrido no passado e que, é sabido, confere apenas a ele lidar e avaliar. A minha responsabilidade é buscar, de alguma maneira, ensinar a ele os valores necessários para que se torne o homem que, sei, tem o potencial para ser.", escreveu em uma nota.

De sorte, em alguns momentos, principalmente após completar 23 anos, ocasião em que estava prestes a "se juntar" com uma garota que já se relacionava há dois anos, Thiago relatava a necessidade de, algum dia, ser ouvido e de ser perdoado pelo crime que cometera, ao passo que Jurandir, apenas, lhe devolvia que "Não é o perdão do outro que você necessita, e sim, do teu próprio. A consciência sobre o seu ato já é, em si mesma, um grande ponto a ser levado em conta." (sic).

Eles conviveram razoavelmente bem. Com o passar do tempo, já em uma união estável e morando com a sua mulher, Thiago, aos 28 anos e já formado em sociologia, esperava o seu primeiro filho. Com uma vida simples, razoavelmente estável, e atendendo famílias em condições de vulnerabilidade social (ou risco social), Thiago tinha em Jurandir o ideal de pai, que jamais tivera, ao passo que, mantinha o hábito de visitá-lo e, até mesmo, incentivava o seu pequeno filho, Lucas, a chamá-lo de Avô.

O passado, de alguma maneira, parecia ter se distanciado de Thiago, se não pelas consequências que o levou a conhecer o seu "pai adotivo" e, por decorrência, seguir a profissão, como uma vocação que atuava com paixão e responsabilidade.

Ocorre que, em maio de 2015, aos 68 anos, Jurandir fora diagnosticado com câncer no estômago já em estado avançado. Thiago, nesse instante, pai de dois filhos, não deixava de visitar Jurandir por um dia sequer. Embora a expectativa de sobrevivência fosse muito baixa, Thiago se apegou à esperança de que algo extraordinário pudesse acontecer... Ele amava o "pai" e jurou estar ao lado dele enquanto fosse preciso.

Certamente não estamos relatando um romance e, tal como a vida é capaz de nos agraciar com sua luz, certamente (e inevitavelmente), também cobra os seus mortos, deixando, aos que continuam na jornada, um punhado de dor, desesperança e uma dose maciça de saudade aos mais diretamente envolvidos.

Jurandir atravessou o limite entre os mundos, meses após ser diagnosticado com a doença... Seria a primeira grande perda de Thiago, que sofreria a dor de ver partir - em grande sofrimento e agonia - aquele que fora o seu mentor, seu educador, seu ideal de pai e dedicado "avô", pertencente, por mérito, a uma família a qual, por si só e estranhamente, jamais construiu.

É sabido, caro leitor, que a vida nos prega peças e, sem mais para dizer, aqui, findo as minhas dúbias afirmações descritivas deixando a você, apenas, as cartas escritas, tanto por Thiago a Jurandir - que fora entregue em mãos e que serviu de veste ao seu corpo que jazeria no descanso eterno -, como, também, a carta que fora entregue ao próprio Thiago, pelo médico que assinou o óbito e que, antes de lhe dar a triste notícia, incumbiu-se de entregar a ele em mãos, assim como lhe fora solicitado de antemão:

"Ao meu pai...

Todos os fins de visita, no momento em que tenho que fechar a porta do leito e seguir para casa, mantenho uma fresta aberta e te observo por mais alguns momentos, pensando que, em algum tempo, aquele poderá ser o meu último adeus. Não há como descrever o que sinto, mas, posso confessar que, quando finalmente me viro para voltar para casa, sigo o caminho afogado em minhas próprias lágrimas.

Ontem quando conversei com você e me despedi, imaginei que pudesse estar sendo egoísta em pensar em mim mesmo e no meu próprio sofrimento em ter de, algum dia, me despedir para sempre. Você insistiu em me falar sobre o futuro que eu construiria com a minha família e sobre a importância em se viver uma vida digna, que apenas poderia ser válida quando na presença do amor puro... Quando saí pela porta, chorei novamente, não por mim mesmo, mas, desta vez, imaginando que, em algum momento, você não apenas se despedirá de mim... mas de tudo o que conheceu e que viveu. 

Você ainda me surpreende, pai, quando insiste em me dizer que "nunca houve esperanças para você"... Não me recordo do seu sorriso e isso me perturba ainda mais. Ao mesmo tempo, você me acalenta ao dizer para viver o amor que poucos reconhecem ou têm a oportunidade de viver. Posso dizer, apenas, que se não fosse por você, eu jamais teria aprendido isso, pois eu vagava nas trevas quando você me encontrou... Você me ofertou mais do que a oportunidade de ser amado... fez nascer em mim o amor verdadeiro e, para esse ensinamento, não tenho como demonstrar a minha gratidão, por isso, esteja certo: guardarei essa parte de você por toda a minha vida, e passarei adiante aos meus filhos e netos. 

Obrigado e... te encontro amanhã pela manhã, no horário programado de sempre."

A carta de Jurandir:

"...

Espero que essas palavras te alcancem e te encontrem bem... Certamente, se você recebeu essa carta, é porque já não estou mais aqui.

Caro Thiago... 

Por mais que não tenhamos nos aprofundado muito em alguns assuntos, creio que a nossa jornada foi rica em trocas e aprendizados (ao menos posso dizer por mim). Desculpe por não ter sido uma presença masculina tão intensa quanto eu poderia ter sido... Talvez porque, de certo, os meus objetivos - e o meu próprio sentido existencial -, transcenderam alguns aspectos que envolviam romances duradouros, ou até mesmo a construção de uma família, já que, vez e outra, tenho que te confessar que pensei seriamente sobre isso, mas a sombra das idades me pegavam, de sobressalto, e me frustravam.

Por fim, logo que eu me imbuí da responsabilidade de cuidar de você, certamente eu o fiz com paixão e, nesse caso - tenho de confessar -, sabia que poderia estar sendo pretensioso e prestes a cometer o maior engano da minha vida... Porém, existia algo mais forte do que "eu", que me impulsionava e, haja vista o homem que você se tornou, acredito que fiz o que era certo. 

Mas... Sem mais delongas, escrevo essa carta, apenas, para te pedir perdão... Perdão pelas conversas que jamais tivemos, quando eu sabia: você queria tratar sobre as suas questões do passado e, até mesmo, ouvir algo que viesse de mim, seu mentor, capaz de acalentar o seu coração partido. Peço que perdoe, esse velho, por ter sido egoísta e, durante muitos anos, pensar apenas em si mesmo, ignorando o acalento que poderia vir das próprias palavras (poderosas) e que pudesse dar algum tipo de conforto para que você pudesse compreender, finalmente, o valor da ação que cometeu em sua adolescência, tal como, o peso das consequências que reverberaram - sabe-se lá por quanto tempo -, na vida de outras pessoas. 

Peço que me perdoe, do fundo da sua alma - que, juntos, revelamos, não é mesmo? -, mas me diga, amigo: como eu poderia ser capaz de te proporcionar qualquer tipo de acalento se, em todo esse tempo - em que designei como sendo 'o resto da minha vida' -, após ter perdido o meu único filho e minha esposa, eu mesmo não encontrei a minha medida de paz? 

Eu me lembro de ter dito, assim que os perdi, que 'não havia como descrever o que senti, naquele momento em que os encontre jogados no chão da sala... E que não havia punição possível para aquele algoz - que, naquele momento, me tirou tudo de valor que eu possuía -, que fosse capaz de dar fim à minha dor, que, sabia, carregaria comigo - assim como lhe atesto, nesse momento -, até o fim da minha vida. 

Tenho que lhe confessar, amigo (companheiro de jornada), que eu precisava dividir a minha dor com alguém e, naquele fatídico momento de infortúnio, eu escolhi você... Por isso, precisei intervir para que você fosse capaz de receber a sua parte: o remorso.

Como penúltimo pedido, peço que me perdoe e o que eu fiz... E, como último: assim que entrar pela porta da sua casa, abrace a sua esposa e filhos sabendo que, por todos os dias da minha vida eu tentei perdoar aquele garoto, mas o que restou foi, apenas, esse homem o qual você se veste e que, tenho que dizer: apesar dos pesares, ainda assim me orgulhei e fui capaz de amar.".

***

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